Se tudo lhe parecia triste não era por um motivo grave. Era o dia. Um dia estranhamente cinzento, como se os raios de sol, subitamente convertidos em lâminas de aço, lhe cravassem o coração. Não havia maneira de substituir aquela melancolia por um copo de vinho que, após sucessivas repetições, fizesse o sol brilhar em pequenas gotas de luz, interrompendo aquela solidão pungente que se sente quando um dia daqueles chega sem aviso. Uma chuva a molhar por dentro.

Conduziu os olhos ao livro com a intenção de se transportar para outro lugar, declinando a ansiedade que se infundia na transparência da seda, sua pele. Ter nas mãos um livro, um bom livro, é como ter uma riqueza de possibilidades, qual pergunta que ainda não se fechou no limite desagradável da resposta. Sentiu que algo em si sussurrava, de um modo que não permitia que ele se levasse para onde desejava ir. Empreendeu então um certo esforço para deslocar aquele murmúrio, uma massa invisível, vinda de lugar incerto. Leu, com um entusiasmo ingénuo, o primeiro parágrafo. Procurou lembrar-se. Voltou ao início da frase e releu-a de um modo mais calmo. Depois, com outro fôlego, inundado de uma suspeita já mais realista, tentou uma terceira vez. Permanecia ainda em si, nesse lugar de onde vinha um silêncio que lhe parecia cheio de passado. Levou o copo à boca. E num gesto que aparentou demorar uma eternidade limpou, áspero, a boca com a mão suja. Cambaleou até ao quarto. As pernas trémulas, o coração em fogo. À voz da razão sobrepõe-se o grito da emoção, lá no fundo, desassossego miudinho, que não deixa o corpo adormecer. As emoções escondem certezas que a própria razão desconhece. E a adesão absoluta a uma ideia teimosa, oculta, difícil de entender, é como um pé cego diante de um sentir obstinado. Na mesa da cozinha duas garrafas de tinto languesciam como duas meretrizes, que depois do uso se tornam uma massa compacta de nojo, tal como as dúvidas, as incompreensões, os erros…

Tombou sobre a cama como quem se abisma no vazio, abandonando-se sem querer senão esquecer a cama, as paredes, as pessoas, naquela noite, à volta de uma mesa de natal. Esquecer aquele dia estranhamente cinzento em que um homem não consegue evitar olhar para o seu reflexo.

Alexandra Pinto é a autora de O olhar é o ponto onde duas superfícies se encontram e do mais recente Contos e Desencontros



O Natal é quando um homem quiser. Porque o Natal habita-nos no peito. O único esforço que temos para o produzir é trazê-lo cá para fora. Transformá-lo em palavras bonitas, em sorrisos, em abraços, em gestos que fazem a diferença, por insignificantes que sejam. Podemos disfarçar tudo isso com umas barbas brancas e um ridículo chapéu vermelho. Podemos chamar-lhe espírito natalício. Porventura, é-nos mais fácil assim. Justifica-nos, talvez, que reservemos uma escolhida altura do ano para fazer acontecer Natal. Para o tirar do peito por uns poucos de dias e o mostrar, cativante e solidário, a todos aqueles que se cruzem connosco. A todos os que mais amamos. Justifica-nos, acima de tudo, que o voltemos a guardar dentro do peito, sem qualquer remorso, até ao próximo ano, junto com uma árvore de plástico, umas luzinhas que piscam e um sem número de enfeites.

Há muito que entendi que o Natal é como um homem quiser. E aprendi como o queremos: com grandes descontos. Loja atrás de loja. Prenda a prenda. Livros, perfumes, roupas, brinquedos. Fantásticas promoções. Tiramos o Natal do peito, mas queremos que seja um bom negócio. Palavras bonitas, sorrisos, abraços, gestos que fazem a diferença, por insignificantes que sejam, merecem ser recompensados pelo bem que causam e pelo trabalho que dão. Queremos consumismo. Exigimo-lo. Luzes a brilhar nas ruas. Montras bem enfeitadas. Queremos os corações quentes e as mentes leves e despreocupadas. Queremos reunir a família. Estar novamente todos juntos, o Natal é também para isso. Para que, no resto do ano, nos possamos escusar a tal, a vida tão dura e exigente. E no peito o Natal tão bem arrumadinho. Queremos o bacalhau, já que tem de ser, mas queremos juntar-lhe toda a gulodice que nos apetecer. O Natal que temos no peito alimenta-se de excessos que queremos a todo o custo cometer, sem qualquer sentimento de culpa. Uma mesa bem composta facilita em muito as palavras bonitas, os sorrisos, os abraços e os gestos que fazem a diferença, por insignificantes que sejam.

Há muito que sei que o Natal é onde um homem quiser. Este ano não quisemos que fosse em Alepo. Assim como em anos anteriores não quisemos que fosse em tantos outros sítios com nomes que nos soaram estranhos, distantes e nada a ver connosco. As imagens na televisão aterram-nos nos pratos e, entre garfadas, sentimos tanta pena daquelas crianças ali a sofrer. Dizemos a nós mesmos que o Natal que temos no peito não as consegue alcançar. Encolhe-se-nos o coração, mas que podemos nós, sozinhos, fazer?

Há muito que não gosto do Natal. Não quero ter um dia no calendário para tirar do peito palavras bonitas, sorrisos, abraços e gestos que fazem a diferença, por insignificantes que sejam. Não o quero como imposto. Não o quero como uma desculpa para arrumar todo esse espirito natalício no peito o resto do ano. Dispenso as luzes a brilhar. As rabanadas. As prendas desencantadas em fantásticas promoções.

Daria de bom grado todos os Natais da minha vida por um mundo sem Alepos, por um mundo sem crianças a sofrer atrocidades e a crescer em mundos de ódios, que se tornarão adultos sem Natal bem arrumado dentro do peito. Sei que é uma prenda impossível de pedir aos Pais Natais que nos governam; afinal de contas, há tanta coisa que se intromete, teimosamente, nos Natais que todos temos dentro do peito.

Rui Miguel Almeida é o autor de O diário do meu suicídio e Desencanto em dó menor.
06-01-2017



Poderia ser o início de uma boa história. Ou até o curioso título de um livro, não fosse o genial RAP já se ter lembrado de coisa semelhante. Assim não passa de um texto mais ou menos moralista, politicamente incorrecto e assumidamente do contra. É que quando se chega a esta data não me sinto particularmente comovida com o menino ajeitado nas palhinhas; não me move nenhuma desmesurada busca pelo consumismo; nem me entusiasma o excesso sempre presente na mesa da consoada. Não sou mais sensível do que ninguém. Muito menos ando de mal com o mundo, desejando que o Natal passe num sopro. Simplesmente considero que o dia seguinte à festa é sempre o mais verdadeiro. Aquele que importa perpetuar. Por isso, e fazendo fé na minha teoria, este ano, para variar, devíamos deixar entrar no nosso Natal uma pitadinha de Síria, um salpico de Darfur e um pingo de Nigéria. Passávamos depois os olhos pela cor da pele do vizinho do lado, estendíamos a mão à religião do colega de trabalho e caminhávamos, lado a lado, com a orientação sexual do nosso amigo de infância. Aposto que no dia seguinte, e findo o Natal, a redenção estava um pouco mais próxima. Assim como o nosso semelhante.

Carla Ramalho é a autora de Pelas ruas de uma cidade sem nome.
30-12-2016





Somos todos diferentes, eu sei, e não vivemos as coisas da mesma forma, mas ninguém poderá ficar totalmente imperturbável num momento especial como este.

A venturosa quadra que atravessamos consegue aglutinar um conjunto de energias e de vontades que faz aproximar as pessoas – apesar das suas desigualdades naturais - e extrair delas o que de melhor existe nos seus íntimos. É uma época de esperança para o mundo, de benevolência para com o próximo e de reconciliação entre os povos.

É assim também na minha cidade, que não deverá ser muito diferente da vossa, e que também vive, por agora, uma época plena de mudança.

Da minha janela aberta para a rua, apesar do frio intenso da noite, consigo ver na perfeição os fogos-de-artifício nos céus da cidade, o movimento contínuo na rua de famílias inteiras carregadas com sacos, as lareiras acesas nas casas dos meus vizinhos e os braços das mulheres, levantados para Deus, num louvor coletivo. Consigo ouvir o som dos foguetes a ribombar, uns mais longe, outros mais perto, o choro sempre inquietante das crianças, e as rezas dos familiares que ainda tenho aqui comigo. Podemos não acreditar no mesmo Deus, mas nós também gostamos de rezar, e ainda mais numa época tão intensa como esta. Será sempre algo que nos une.

Do fundo do coração, queria desejar-vos umas boas festas, com votos de muitas felicidades, e que não abandonem quem vive no esquecimento dos outros. Feliz Natal desde Aleppo, que provavelmente devem identificar como uma das cidades mais antigas do mundo.

Humberto Duarte é autor de Um anjo pelo metade.

21-12-2016





De Bosch a Magritte ou A demanda por um livro esgotado
Quando admiro um escritor, procuro ler-conhecer-adquirir todas as suas obras até à primeira desilusão. Será um vício, uma mania, uma imperfeição, com certeza, mas acredito que será uma obsessão partilhada por muitas outras pessoas. Não me basta conhecer um livro desse autor, quero conhecer a obra. Quando se trata de um caso de admiração profunda ou mesmo de reverência, como nutro por três ou quatro escritores, o caso poderá tornar-se ainda mais preocupante.

A obra do escritor em causa surgiu-me de modo puramente circunstancial. Certo dia, ao passear por uma feira do livro em Coimbra (ainda estudante e com um orçamento limitado para extravagâncias artísticas), deparei com um pequeno livro – uma edição de bolso, para ser mais preciso, a preço simpático, como convinha – em cuja capa, de um negro severo, sobressaía um pormenor delicioso de um quadro do pintor Hieronymus Bosch.

Vivemos na era da imagem e o impacto visual é muitas vezes decisivo nas escolhas que fazemos. Aquela imagem cativou-me o suficiente para pegar no livro, largado numa bancada já desarrumada por muitas mãos, e inteirar-me do que estaria enclausurado nas suas páginas. O título roçava o bizarro («Os anões da morte») e remetia para as figuras representadas em «A Morte do Condenado» de Bosch; a sinopse mencionava clubes de jazz, longas cadeias de frustrações, poemas e melodias destruídas e um brutal homicídio. E foi assim que irrompi no universo deste autor.

Apesar de não ser uma obra-prima, o texto acabou por corresponder ao engodo que emanava da capa, e o seu livro seguinte deixou-me completamente rendido, iniciando um culto que se mantém até hoje.

Fui comprando, com maior ou menor dificuldade, os títulos do autor que encontrava em tradução portuguesa, mas cedo tomei consciência que um deles esgotara e que era quase impossível de encontrar. Tentei em dezenas de livrarias, por correspondência na editora, em alfarrabistas e feiras de antiguidades, nos sites de leilões que pululam na internet, em clubes do livro.

Nada!... Fiz pedidos, sugeri a sua reedição, lancei apelos na internet. O livro pura e simplesmente já não existia, eclipsara-se. Tinha deixado de figurar neste mundo.

O mais curioso é que até cheguei a ganhar dinheiro com esta busca: encomendei-o no catálogo de uma grande superfície online (onde me obrigaram a pagar de forma antecipada metade do seu valor) para, semanas mais tarde, me informarem que o malfadado livro se encontrava esgotado no editor (o que eu há muito já sabia) e – agora vem a parte mais feliz - acabaram por me devolver a totalidade do seu valor de capa. Nada mau negócio. O pior de tudo é que do livro nem um vislumbre.

A busca sebastiânica continuou por mais de dez anos e a esperança foi-se desvanecendo nas brumas da memória. Até que um dia, ao fazer mais uma das inúmeras buscas triviais na internet, verifiquei, com espanto e desconfiança inicial, a existência do almejado objeto de desejo num sítio de troca de livros, discos, filmes e jogos. Nem queria acreditar no que via: ali estava ele numa lista não muito extensa, afinal sempre vivo, verdadeiro, à espera de ser trocado por um seu semelhante.

Após a perplexidade inicial, fiz de imediato a inscrição no clube, adicionei livros pretensamente dispensáveis (existem?) da minha modesta biblioteca para possíveis trocas, e entrei em contacto com o proprietário do livro, ignorante de tão valiosa relíquia.

Após quatro dias de espera para ser enviado pelo antigo dono, dois dias para ser transportado até minha casa e, para completar o atraso, três dias para o levantar na agência dos CTT, eis o livro! A capa está puída e dobrada nos cantos, mas também exibe uma pintura exemplar: «O Modelo Vermelho II» de René Magritte. Notórios são também o exterior das folhas amarelecido e com manchas de humidade, e um ligeiro odor a bafio que indicia um longo período de inatividade e de mau acondicionamento. Ainda assim, não deixa de ser uma preciosidade e um orgulho.

O prazer de o ter à minha frente só é perturbado pelo sentimento agridoce de já não ter de o procurar mais, de faltar esse objetivo que me acompanhou durante tanto tempo. Mas, pelo que sei, ainda faltam ser traduzidos para português os dois primeiros romances do escritor. Próxima demanda?

P.S. – Faltou apenas referir que o livro em causa se chama «What a carve up! - Que Grande Banquete!» e foi editado em 1994 pelo escritor britânico Jonathan Coe. A edição que agora possuo é a primeira – e penso que única em Portugal – datada de 1995.


Humberto Duarte é autor de Um anjo pelo metade.

30-11-2016