A pedido e muito a custo, lanço-me a pensar no que poderia definir um livro. E eu, para pensar, escrevo.
 
Hoje, vivemos depressa e dizemos que não temos tempo, muito menos para dedicar à leitura. E no entanto, não há minuto que não o façamos! Um outdoor, uma placa a dizer “empurre”, sms, messenger e whatsapp, facebook, as legendas de um filme! A cada minuto, para onde quer que nos viremos, lá estão as palavras, os significados.
Então, porque é que há pessoas que dizem que não leem? Ah, pois, não leem livros. 
Mas porquê? (Ficou-me da infância esta infinita necessidade de perguntar.)

Talvez por ser algo estático, talvez os repulse ser um processo solitário, que não se faz em conjunto. Ou porque demora o seu tempo. Claro que podemos pedir que leiam para nós ou ouvir um livro, mas parece batota… isso não é, de facto, sentarmo-nos a ler um livro.

Pessoalmente, acho que um livro é uma dádiva. Os livros sempre me deram paz, isolamento, e tanto sonho… é na minha cabeça que se montam as imagens, que o herói ganha cara, que aquela casa e aquele lugar existem. É como eu quero, não me sujeito à imagem de um filme, deixam-me imaginar tudo na minha mente. 

Um livro é isso: sonhar, deixar correr a imaginação. Ler um livro é aprender, é ser aquela personagem, sentir aquela emoção. Com um livro, sofro de empatia, imagino-me no lugar das personagens. Com um livro, eu sei mais; com um livro, vivo aventuras, faço viagens, experimento o que nunca farei, sou homem, sou velha, sou um astronauta, um extraterrestre, faço magia e acabei de me casar, morro e dou à luz. Choro se me comover e arrepio-me.
Sempre adorei os livros que me prendem, que eu não consigo largar. Nem uma figura têm e, ainda assim, consumo-os, ansiosa, até que acabem. 
Um livro tem de me enganar bem, tem de me iludir e tem de me prender a ele, sem revelar tudo e deixar um bocadinho para mim, para eu imaginar… “De quem é o filho?”, ” “Foi ele que roubou o colar?”, “Qual é o mistério…?” “Como vai terminar...” 

O livro vai revelando, como a vida; não nos mostra tudo ao mesmo tempo e por vezes, só o entendemos mais adiante, só aí ligamos ao que lemos páginas atrás. 
Mas para mim, um livro ganha à vida. A vida é presente; o passado é uma memória e o futuro, só o podemos adivinhar. Um livro não, um livro, podemos lê-lo vezes e vezes sem conta, é eterno. Podemos recuar páginas e podemos avançar até ao fim e ver como termina, sem termos de ler todas as páginas até à última. 

E chamem-me antiquada, perdoem-me os millennials e os fãs do digital, mas continuo a precisar do papel, o livro materializado, para lhe virar as páginas. Não sou daqueles leitores que mutilam, respeito aquelas folhas sem sublinhar, sem anotar, sem lhe dobrar os cantos. Sofro com a tentativa de ler um livro, deitada na praia, com o mau jeito de o ter no ar e de me doerem os braços. Nem sempre a leitura no banho ou na piscina escapa a uns salpicos. Carrego um livro para qualquer lado onde vou. Quando vou de férias, uma das malas é de livros. Dou livros de presente, tal como os recebo. Fazem parte da minha vida. 

Rio-me de quem nos transportes públicos esconde a capa do livro que leva na mão, porque os outros não têm nada a ver com isso, de quem se tenta equilibrar no metro, enquanto lê. E aceito que algumas pessoas comprem livros porque estão na moda, porque todos já leram. Desde que se leiam… Sou pelos livros e pela maravilhosa experiência que é a leitura, a descoberta, a progressiva revelação.

Um livro dá-me tanto e no fim, uso-os como esculturas em minha casa. Um livro ainda me segura a mesa de cabeceira que teima em bambear.


Elsa Guilherme é a autora de As casas também morrem.
25-07-2018
                      


Comecei a escrever o "Quarto da Mãe" no dia 24 de novembro de 2011. Foram muitas as versões russas e portuguesas. Algumas atravessavam cinco gerações e três épocas distintas. Resistiram alguns versos da minha mãe, resistiram algumas memórias à lareira e nos campos da aldeia onde vivi, resistiram os discos e as canções do meu pai, resistiram algumas histórias da minha professora de piano, resistiram algumas frases limpas, resistiram alguns versos do "Pintor de Álamos", resistiram as confissões de um miúdo da casa do Gaiato, resistiu a minha loucura de querer terminar este livro com pouco mais de 200 páginas.


Para mim, o cerne da obra reside em Celanova e nas vivências do filho em volta do quarto da mãe. Reside nas mulheres e homens de ação que dão a vida pela liberdade e igualdade. Reside nos mais simples que, no trabalho de cada dia, fazem mais do que muitos pensadores resignados. Reside na celebração da Mãe revelada na natureza, fonte de toda a beleza e harmonia.
Reside no cantar dos poetas e compositores caídos. Reside na loucura dos que sofrem, por não conseguirem ser lúcidos diante da luz de cada dia. Reside na infância à lareira. Reside na emoção do prelúdio para a mão esquerda, com mãe e filho de mãos dadas. Reside nas sombras dos álamos na sala. Reside nos acordes mágicos que hão de redimir todo o afastamento e sofrimento da humanidade.

Foram sete anos de escrita. Sete anos a acordar de madrugada e a escrever antes do início das aulas. Sete anos a viver em Leninegrado e em Celanova. Sete anos de revisão, suor e lágrimas.

Muitos capítulos desapareceram, outros fundiram-se num único parágrafo. No final, o essencial da narrativa foi preservado através do poder da visão de uma criança sobre as vivências desalinhadas (saídas constantes e presença de vários homens) e desequilibradas da mãe, no sentido de esta vencer a vida precária e superar as perturbações emocionais. No essencial, ficou a vontade de permanecer humano, apesar da fome, apesar do medo e do barulho da morte, quer em Leninegrado, quer em Celanova; ficou o silêncio entre mãe e filhos, voz do sentimento e do indizível; ficou o amor incondicional entre mãe e filho (a mãe transmite a herança do seu passado à única pessoa que a acompanha); ficou a inversão dos papéis familiares (o filho acaba por assumir o papel do homem da casa, o defensor da figura feminina); ficou a presença constante das memórias (importantes na construção de cada ser humano como ser único e  individual).

Se me perguntassem qual a coisa mais importante deste livro, diria que é regressar à infância, depois de ler toda a poesia do mundo. É perceber que não há nada mais belo do que um abraço da mãe, mesmo que seja de um animal ferido ou de uma mulher enlouquecida pela vida. É o regresso ao ventre onde a luz se estreitou, para renascer no meu corpo.

Sérgio Mendes é o autor de O quarto da mãe
15-06-2018
                      


Assemelho a leitura a um avião a cruzar o céu numa noite de verão, rumo ao outro lado do mundo. 


O contacto com a palavra e as histórias, repletas de realidades desconhecidas e pessoas diferentes, ajudam as crianças e os jovens a encetar viagens que lhes avivam a curiosidade e os fazem crescer. Mas não é fácil que crianças e jovens queiram apanhar o avião da leitura, se a viagem não representar um momento de emoção. O hábito de ler adquire-se e mantém-se, se a ele estiverem associadas viagens aprazíveis, se o leitor se identificar com os passageiros ou o destino da viagem.

A coleção Diário de Ana Joana, agora iniciada com o lançamento do primeiro volume, convida o leitor a viajar com uma adolescente dos dias de hoje que, dotada de um humor peculiar, deixa registadas as suas vivências num diário. Apesar de a Ana Joana ter um sonho diferente – ela quer ser política –, e isso, por vezes, lhe causar alguns dissabores, o leitor encontra nas suas peripécias e olhar irónico, momentos com os quais se identifica, lavando-o a querer saber sempre um pouco mais sobre o destino da protagonista. Ao ler os restantes volumes da coleção, que a Ana Joana escreve à medida que cresce, o leitor irá crescer com a sua nova amiga e, tal como ela, irá tentar compreender o que está a acontecer à sua volta, ainda que por vezes confunda moinhos de vento com gigantes durante a viagem.

Porque optei por escrever para crianças e jovens?

Haverá seguramente várias razões que me levaram a querer fazer esta viagem. Antes de partir, lembro-me de ter metido na mala estas três e não obrigatoriamente por esta ordem: a) para lhes proporcionar bons momentos na companhia de um livro ou através do seu dispositivo móvel, partilhando com eles o prazer de escrever histórias; b) porque acredito no poder transformador da leitura e, como tal, incluí no meu trabalho em torno da promoção da leitura o ato de escrever; c) porque o trabalho de professora me permite apoderar-me com facilidade dos universos de referência do meu público-alvo: conheço a linguagem que utilizam, os seus gostos, interesses e inquietações. E isso ajuda, naturalmente, a criar uma história e personagens verosímeis.

Desejo a todos os jovens uma excelente viagem na companhia da Ana Joana!


Raquel Ramos é a autora de Diário de Ana Joana
07-06-2018
                      


O inglês serve de plataforma comunicacional entre pessoas de todo o mundo sobretudo por ser uma língua pobre. Um machado é um axe, um boi é um ox. Está feito! Assim, sem emoção. “Arte” ou “ofício” – palavras de contorno elegante – resultam em craft, que mais parece uma marca de mini-eletrodomésticos.

Não me move nenhuma antipatia pessoal por aquele idioma. São apenas reflexões de quem não tem mais nada que fazer. Por acaso, até tenho, mas não consigo evitar, volta e meia, um olhar perscrutador sobre o que vem ter comigo. Esta disposição levou-me, há muito, a constatar também que, segundo o cinema americano, toda a criatura que comunique entre si, seja deste planeta ou de uma galáxia distante, o faz em inglês. Dos extraterrestres às legiões romanas, passando pelas cortes francesas ou as formiguinhas da Disney, toda aquela malta fala inglês.

A minha surpresa foi maior quando me dei conta que até os portugueses eram anglófonos! Temos andado enganados estes anos todos. Vejam os jesuítas que viajaram até ao Japão, segundo Scorcese; o pescador de atum em Tiger Shark representado por Edward G. Robinson; ou o Robert de Niro n’A Missão. Mas mais esmagador ainda: pelas mãos do realizador John Brahm, ficamos a saber que a língua oficial em Fátima, em 1917, era também o inglês: “Who’re you talking to, Lúcia?”, pergunta o pastorinho Francisco à prima; “A lady”, responde esta candidamente, de olhos postos na oliveira.

Num assomo refratário, ocorreu-me subverter isto tudo. Sendo Portugal depositário de uma secular vocação universalista, e estando hoje, como nunca, na moda, há que aproveitar esta convergência de ondas e projetá-lo para dimensões ainda mal exploradas. Comecemos por algum sítio: toca a reinventar o Velho Oeste americano, convertendo aquele país num futuro membro da CPLP. Para tal, dêmos-lhe um enredo, respeitando clichês holliwoodescos para facilitar a mensagem, e ponhamos heróis, vilões e demais figurantes a falar português, condescendendo apenas na toponímia e nos nomes dos personagens – por força da origem das famílias que para ali emigravam e fundavam as primeiras cidades, nos séculos XVIII e XIX – e admitindo uma ou outra expressão coloquial em inglês, único vestígio bilingue na obra.

Paulo Selva é o autor de No fim, o herói foge com a rapariga
21-05-2018

                      


Comecei a dar vida ao Diogo quando tinha a idade dele: dezassete anos. Aos poucos fui escrevinhando uma espécie de diário que, no século seguinte, veio a ser publicado como "Desencanto em dó menor". Quis que aquelas páginas fossem o reflexo de um adolescente prestes a deixar a adolescência e entrar no mundo adulto, com toda a carga que está subjacente a essa mudança. Criei um Diogo rebelde, cheio de ideias radicais e originais (pelo menos na cabeça dele), emprestando-lhe muita ironia e sentido de humor pelo caminho. O diário segue a cronologia da vida do Diogo, desde finalista de Liceu até aos primeiros anos como estudante universitário. 

Anos mais tarde, tinha eu abandonado a vida académica e dava os primeiros passos no maravilhoso mundo do trabalho, assaltou-me um pensamento: "como será o Diogo aos quarenta anos?". O Diogo que eu visualizei  foi aquele a que dei voz em "O diário do meu suicídio" e representa um homem que eu, na altura em que o escrevia, jurava a mim próprio jamais vir a ser. Se o Diogo adolescente tem muito do adolescente que fui, o Diogo quase quarentão é alguém que não reconheço de todo. 

Muitos anos mais tarde, a minha vida cruzou-se com a Coolbooks e o Diogo com quase quarenta anos foi publicado quando eu tinha essa exacta idade. Pareceu-me justo acrescentar-lhe o adolescente que ele tinha sido, o que me traz hoje, novamente, às primeiras páginas que escrevinhei, há já uma pequena eternidade. 

Na minha cabeça há um terceiro Diogo, reformado e a viver sozinho, às voltas com aquilo que a vida lhe deu e aquilo que ele conseguiu tirar de bom dela. Um dia, gostava de tirar este terceiro Diogo da cabeça e esparramá-lo em folhas de papel. Não há dois sem três? 

Rui Miguel Almeida é o autor de Desencanto em Dó menoro e O diário do meu suicídio.
30-04-2018