Dizem que não existem coincidências, que tudo acontece por uma razão. Eu discordo. E, até me provarem o contrário, permitam-me que o faça. E tenho uma justificação. 

Um dia, não sei bem por que razão (lá está!), ocorreu-me criar uma personagem que, pelo descrédito, pudesse dizer o que bem lhe apetecesse sobre aquilo que se passava em seu redor: uma espécie de ato purgatório. Notícias,  acontecimentos risíveis, assuntos do quotidiano: tudo alimentava a pena — ou o teclado. Nascia assim, sem razão aparente (e talvez por mera coincidência), o Onório, o poeta «bêbado» (no registo popular que tanto aprecia). A ebriedade conferia-lhe o descrédito desejado. A poesia — em quadra heptassilábica — era a arma de que se servia. 

Esse crítico social acabou por resultar no meu primeiro livro. Criei-lhe a história, fiz dele um castiço de Rubiães, Paredes de Coura (terra que conheço bem) — e escrevi, num tom ligeiro e divertido – como se quer –, o Onório, o poeta bêbado.

Terminada a obra, fiquei com a sensação de que havia mais a dizer, de que essa personagem tinha mais para contar, mas, acima de tudo, de que Rubiães tinha mais para revelar. 

Desde criança que me sinto deslumbrado por um solar que há em Rubiães: peça de luxo, em ruína há várias décadas. Achei que seria interessante, ao menos na ficção, alguém reerguer aquelas pedras e devolver-lhes imponência. Ora, para realizar tal proeza, poderia o Onório ser a pessoa indicada? Não, claro que não! E se fosse outra personagem da terra? E se fosse alguém ligado ao Onório e, simultaneamente, ao solar? E se uma catequista agente imobiliária se intrometesse no negócio? E se o coveiro da terra se apaixonasse por ela? É a todos esses «e ses» que O Herdeiro vai dar resposta, com bom humor. 

Que essas respostas – e todas as desventuras do Manuel – divirtam muito o leitor.


Fernando P. Fernandes é o autor de O herdeiro e Onório, o poeta bêbado.
10-04-2018

A Alice é uma homenagem.

A muitas mulheres sofridas, silenciosas, resignadas de quem pouco se fala. Mulheres que se querem esquecidas e que querem esquecer-se. Porque sofrem, e o sofrimento incomoda. Incomoda-as a elas, que o calam, mas incomoda-nos sobretudo a nós, que, simplesmente, olhamos para o lado. 

Mulheres que beberam, ainda no leite materno, a passividade (e aqui, que me perdoe o meu muito estimado Editor, mas vou parafraseá-lo: uma passividade quase irritante). Só que esta é a passividade de quem nunca teve o privilégio da opção. E, acreditem, há MESMO quem não tenha o privilégio da opção.

Mas além de ser uma mulher, a Alice é também um país, desde o Alentejo explorado, miserável e tirano que a viu nascer, onde a desonra se faz morte, que baloiça nas árvores ao amanhecer, até uma Lisboa onde a miséria se esconde em bares de sofás de veludo gasto, em que a noite se confunde com o dia, e a solidão se amortece em bebidas baratas, que hão de acabar, escada acima, em quartos de lençóis sujos e paredes rachadas. 
A miséria em que os sonhos de vida se arrancam dos ventres e se despejam, transformados numa massa informe, em baldes de lata.
Mas a Alice é, também, redenção. É a força das memórias que se querem fazer outras, e se querem dizer outras e que, por isso, se hão de gritar outras.
A Alice é, não uma, mas muitas mulheres que me ensinaram a humildade. E ele há lá coisa mais bonita!

Maria José da Silveira Núncio é a autora de O que se cala é como se não existisse e Calor.
09-03-2018



Apaixonei-me por Florença aos 17 anos, durante uma viagem de carro a Itália com a família. Tendo a sorte de desde então já ter viajado muito pelo mundo, continua a ser a minha cidade talismã. Foi lá que voltei numa inédita viagem solitária, com o meu primeiro subsídio de férias. Um presente que ofereci a mim próprio: voltar a ver o Duomo e passear nas margens do Arno.

Foi por isso sem surpresa que escolhi Florença para o cenário do primeiro romance que me aventurei a escrever. Surpresa acabou por ser receber um telefonema 15 anos depois com o anúncio de que Letizia ia ser publicado. 

Um amigo, Nuno Ferrão, com quem escrevi aquele que foi, para ambos, o primeiro romance publicado, Estórias Limbidinosas, decidiu ir ao baú recuperar Letizia e enviá-lo a uma editora, com o meu consentimento pouco entusiasta. A verdade é que a ele, e ao entusiasmo da Coolbooks, devo o prazer de ter redescoberto Letizia e de convosco poder partilhar a minha paixão por Florença e a atração pelo mistério e romance. 


André Curvelo Campos é o autor de Letizia.
06-03-2018




A propósito do meu novo livro, foi-me sugerido um esclarecimento logo à partida: que sinistros pontos de contacto se poderão estabelecer entre a figura aparentemente simpática de um ouriço-cacheiro e uma coleção de contos aparentemente sobre o amor?

À partida nenhuns, dirão os leitores mais apressados, e com alguma razão, confirmo eu. O título de um livro de histórias de amor deveria incluir o nome de algum lugar romântico como Veneza, Paris ou Toscânia, ou de um lugar exótico como uma ilha deserta, um farol isolado ou o extremo oriente. Aí sim, existe amor. A ter nomes de animais, então deveriam ser nobres como os de algumas aves ou de grandes felinos.

Mas porquê um ouriço?

É verdade que tem uma aparência encantadora, inofensiva, confiável até. Um bichinho amoroso. Quase nos esquecemos que é um animal solitário, o maior mamífero insectívoro e que, quando se sente ameaçado, se enrola, formando uma bola de espinhos que põe à distância qualquer predador que o tenha confundido com o jantar.

O amor e um ouriço-cacheiro. Acreditem que não é fácil lidar com nenhum dos dois, como se poderá comprovar ao longo das nove histórias que compõem o livro. 

Humberto Duarte é o autor de Um anjo pela metade.
02-02-2018

¿O meu amor pela música começou cedo, e muito por influência dos meus amigos, a maioria deles mais velhos do que eu. As primeiras bandas que me cativaram foram Pink Floyd, Depeche Mode, U2 e Xutos e Pontapés. Destas, continuo a seguir atentamente os Depeche Mode, que têm sabido manter-se relevantes e actuais, o que não é de estranhar, já que estiveram sempre muito à frente do seu tempo.

O desejo de fazer música e de escrever surgiu com os Alice in Chains, dentre a cena grunge a banda que logo me cativou pela sua música mais pesada e letras que falavam de desespero e abandono. Comecei a tocar guitarra e a escrever letras porque queria imitar os meus ídolos, Layne Staley e Jerry Cantrell. Em paralelo, queria escrever histórias como o Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft, Borges e J.G. Ballard, dando por mim a pensar, por vezes, quando estava a ler, que, se tivesse sido eu a escrever aquela história, o teria feito de maneira distinta. 

Mais tarde, uma vez mais por influência de amigos mais velhos e conhecedores, fui exposto à música industrial, o meu género de eleição pelas possibilidades infinitas que oferece. Na música industrial há espaço para tudo: samples, guitarras, teclados, cordas, berbequins, field recordings e found sounds, gritos e sussurros. No princípio dos anos 00, adquiri software para fazer música, e desde então não parei. 

Em 2006, fui convidado a participar numa compilação da Thisco Records, juntamente com Tatsumaki e Devhour; na altura, fazia música sob o nome de City of Industry. Continuei a disponibilizar a minha música através do meu blog (Android:Apocalypse), paralelamente à publicação dos meus livros sob a chancela da Coolbooks. 

A crescente contaminação da minha música pela minha escrita, e vice-versa, levou a que, mais do que duas linhas, as duas actividades começassem a seguir a mesma; as faixas iam buscar nomes de contos e de personagens, servindo como banda-sonora para uns e para outros, e as minhas histórias iam buscar referências à minha actividade como músico, por exemplo, o Festival City of Industry, referido no conto Kronenburg, que foi buscar o nome ao meu antigo projecto, entretanto abandonado para dar lugar ao nome com que assino os meus livros.

2018 marca o princípio da minha associação com a EnoughRecords Netlabel, uma editora não-lucrativa de partilha de música online, presente em inúmeras plataformas, tais como  Scene.Org, Internet Archive, Sonic Squirrel, Free Music Archive, Bandcamp, Jamendo, LastFM, etc, com o lançamento do álbum City of Industry: Slow Gun, que espero ser o primeiro de muitos.

António Bizarro é o autor da Trilogia Cidade da Indústria, onde figuram os títulos: O longo caminho de regresso, O motor do caos e da destruição e O desejo e outros demónios.
23-01-2018

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