Três dias antes de partir para o Bangladesh, com o projeto de voluntariado a matutar na cabeça e a latejar na alma, perguntei a alguém que já tinha feito o mesmo percurso qual era o balanço daquilo tudo.

“Falamos quando voltares. Quero ouvir a tua versão em cru, sem condicionalismos.”

Nem medo, nem entusiasmo, aquilo não me provocou nada para além de curiosidade ingénua. Viajei cheia de vontade de fazer mundos e fundos, de ajudar aquelas crianças que tinha visto durante a minha primeira viagem ao Bangladesh, na altura em trabalho e em regime de hotel 5 estrelas.

Voltei com o meu balanço feito, e era simples:

“Tenho que agradecer ter nascido longe daquilo, longe do Bangladesh, de Daca, da pobreza extrema, do sofrimento sem sentido.”

Se ajudei, nunca saberei. Se fui uma gota no oceano, também nunca estarei certa.

Uns dias depois de lá ter chegado, percebi que as burocracias que me tinham incumbido de tratar, eram o menos importante naquela jornada. Comecei aos poucos a entender, mais com o coração do que com a razão, que o meu papel, ali, era passar esperança, mostrar que havia mais para além daquilo, que lhes (às crianças e aos pais delas) era permitido sonhar. E que, acima de tudo, era bom lutar por esses sonhos. Era o único caminho.

Dei aulas, às crianças, à luz de velas, com mosquitos a entrarem na boca e, em momento algum, foi preciso pedir silêncio ou atenção. Queimavam as mãos para manter a chama acesa, piscavam os olhos cansados de final de dia para absorverem todo o conhecimento que podiam. Estavam certos que com estudos podiam sair dali. Muitos saíram. Valeu a pena o esforço deles.

A determinada altura foi-me pedido para visitar o hospital onde as crianças eram assistidas. Deveria fazer um relatório no final para entregar ao patrono na instituição de voluntariado. Fiz a visita, o relatório só saiu várias semanas depois. Tive pesadelos durante meia dúzia de dias e, ainda hoje, me custa relembrar os corredores daquele edifício que chamam de hospital.

Três anos depois comecei a escrever A última viagem. Se as crianças foram o combustível das palavras, aquela visita ao hospital foi a gramática que deu sentido a tudo.

Se o que escrevi tocar o coração de quem lê, começo a acreditar aos poucos que, talvez, aquela viagem, tenha de facto sido uma gota num oceano imenso.

Inês Pinheiro é a autora de A última viagem.

13-07-2017



Na sexta-feira passada, estive na Feira do Livro de Lisboa com o meu último livro, As Impertinências do Cupido, editado pela Coolbooks. A história, ou histórias, deste livro passa-se no Itaim Bibi, um bairro no coração de São Paulo. Durante a sessão da Feira do Livro, constatei que estava a estabelecer uma ponte entre Lisboa e São Paulo naquele momento. De repente, estas grandes cidades estavam ligadas pelas Impertinências do Cupido.

Não escondo a ninguém o quanto adoro e prefiro viver em Portugal, tão evoluído relativamente aos Direitos Humanos, mas foram as boas recordações que tenho de São Paulo que me levaram a escrever um livro passado lá. Assim, regressei à Avenida Brigadeiro Faria Lima, que percorria diariamente para fazer pequenas compras para casa no supermercado do shopping Iguatemi, e à Avenida Paulista, que muitas vezes percorri entre a Livraria Cultura do Conjunto Nacional e a Livraria Martins Fontes, onde apresentei o meu primeiro romance no Brasil. Era nas livrarias de São Paulo que encontrava o conforto para o meu espírito, tão doído pelas saudades.

As Impertinências do Cupido faço referência ao Museu da Casa Brasileira onde costumava passear nos seus jardins ao fim de semana, ou assistir aos concertos dos Domingos de manhã ou das quartas-feiras ao final da tarde. No livro também aparece o Parque do Povo no qual costumava fazer exercício físico. Locais que costumava frequentar como a croissanteria da Rua Pais de Araújo, a padaria da Rua Pedroso Alvarenga onde adorava comer uma taça de açaí e um espaço de fabrico de bolos caseiros, na Rua Manuel Guedes, onde costumava comprar para casa o bolo de iogurte com maracujá, são referidos no livro, com nomes inventados por mim, e fazem parte da vida das personagens. A rua Amauri também aparece, onde existia o Starbucks no qual escrevi, numa pequena mesa redonda junto à janela, o meu segundo romance. Curiosamente este Starbucks deixou de existir uma semana antes de regressar definitivamente a Portugal.

Faço muito discretamente uma homenagem à Dra. Renata, a médica que me atendeu quando cheguei de urgência ao hospital de São Luiz com um aborto espontâneo no início de uma gravidez. Foi esta médica que me acompanhou com muita humanidade e carinho, fazendo-me ver que a culpa não tinha sido minha, que a natureza também erra, que é mesmo assim e que não há nada que possamos fazer a não ser aceitar. Lembro-me de ter desejado a todas as pessoas que precisam de um médico de urgência, a sorte de serem atendidas por um profissional tão humano como ela. Em São Paulo, vivi uma das piores fases da minha vida, mas também vivi momentos muito felizes que me deixaram saudade ao ponto de escrever um livro passado integralmente lá.

Antes de regressar a Portugal, visitei o Rio de Janeiro. Nunca tinha lá ido e não quis desperdiçar a oportunidade. Foi paixão à primeira vista, ao contrário de São Paulo cujo primeiro impacto não foi muito atraente. Durante as férias no Rio só pensava no quanto gostaria de ter lá vivido. Mas agora, é a São Paulo que tenho vontade de regressar. Costumo dizer que o Rio de Janeiro é paixão e São Paulo é amor. É ao amor que se regressa. A paixão se não for concretizada até ao ponto de se estragar ou de se extinguir, transforma-se em amor platónico, que é outra forma bonita de se amar.

Ana Gil Campos é a autora de As Impertinências do Cupido
19-06-2017





Existia uma rotina nas suas vidas. Os animais, a horta, a rega, o monte impecavelmente caiado, davam mostras de uma existência definida em função de um bem maior. Tudo tinha um preceito, uma ordem, um tempo. E era a terra que os direcionava. Lamentavam a rudeza dos dias frios, amaldiçoavam o calor que, fora de tempo, lhes queimava os cultivos, mas nem por um momento ousavam pensar a sua existência em outros moldes. Não podiam. Nem queriam.

Acho que foi com os meus avós maternos que me tornei alentejana. Isto de nascer num local não diz rigorosamente nada sobre aquilo que somos e é sempre o apelo da terra que nos faz ou não. E a terra cumpriu a sua missão. Seduziu-me nos dias frios, libertando aquele aroma da chuva de cada vez que se envolve com o socalco duro e áspero. Aprisionou-me em cada nascer de sol. Deixou-me caminhar livre numa planície plana e imensa que parecia contrariar a teoria dos homens.

Foi algures nesta amálgama de sentimentos e saudade que nasceu a ideia de escrever um romance passado no Alentejo. Não tenho a pretensão de reunir nele tudo aquilo que foram as vivências dos meus avós ou de outros alentejanos que, com as suas dores e conquistas, ajudaram a construir um caminho. A fazer história. É antes um testemunho romanceado sobre uma época, uma homenagem a gente humilde e lutadora que nunca se deixou vergar. Mesmo quando estava vergada. Acima de tudo, é uma narrativa sobre a liberdade. O seu valor, o seu preço e a forma tão díspar como ela pode ser sentida. Agradeço assim às minhas personagens, em particular à imprevisível Verónica e ao seu destemido marido por me terem deixado caminhar a seu lado, presenciado a sua luta, na certeza de que o caminho para a liberdade e a emancipação tão sonhadas era já um trilho sem qualquer espécie de retorno.

Carla Ramalho é a autora de Pelas ruas de uma cidade sem nome e do mais recente E ficou a terra.
31-05-2017



Saint Paul é o centro do meu universo ficcional, uma cidade-Estado algures a meio caminho entre a Europa e as Américas, e essa é uma das razões principais pela qual as personagens que nela vivem têm nomes anglo-saxónicos, eslavos, escandinavos, germânicos ou latinos. Situar histórias numa cidade fictícia é algo que já foi feito por vultos da literatura maiores do que eu, que sou ainda um mero vislumbre: Lovecraft tinha Arkham, Garcia Márquez Macondo e Faulkner o Condado de Yoknapatawpha.

São Paulo, a cidade onde nasci, e o Barreiro, a minha «capital da memória», com Lisboa ali tão perto e tão longe, fundiram-se numa só e deram origem à ciclópica e megalómana Saint Paul. A Nova Iorque da América do Sul, «a cidade que nunca pára», emprestou a sua dimensão de metrópole e pouco mais: a ela regressei uma única vez em adulto, embora mantenha ligações familiares e afectivas com ela. O Barreiro, por outro lado, está muito mais presente naquilo que escrevo; por exemplo, o Festival City of Industry, referido no conto Kronenburg, incluído no livro O motor do caos e da destruição, deve a sua existência a duas mui nobres instituições barreirenses: o Barreiro Rocks e o OUT.FEST – Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro. O primeiro concerto de Ty Segall em solo europeu não foi em Berlim ou Londres, foi no Barreiro, na décima edição do Barreiro Rocks, e o OUT.FEST já trouxe, entre muitos outros, Mark E. Smith e os seus The Fall à «terra de sonho e futuro».

A nomenclatura utilizada no baptismo das minhas personagens tem também a ver com o facto de estar habituado a nomes diferentes. A minha avó materna era de ascendência italiana e chamava-se Rosa Del Favore. O meu padrinho de baptismo (nascido em Alexandria, Egipto, filho de pai jugoslavo e mãe italiana), chama-se Frank Kovac (e faz uma «aparição» especial no conto Androctonus), e o meu ex-cunhado é um macedónio muçulmano de origem turca cujo apelido (Mustafa) já lhe trouxe alguns dissabores quando quer viajar. Apesar de ter nascido no Brasil, tenho um nome até bastante normal; escapei por um triz a chamar-me Steve, e devo isso à circunstância feliz de a minha mãe gostar do compositor e músico Tom Jobim ( António Carlos).



A divisa de Saint Paul (Sancto Paulo spatium est urbis et orbis idem), foi decalcada da expressão latina cunhada por Ovídio, «Romanae spatium est urbis et orbis idem», o que, livremente traduzido, quer dizer que o mundo e a cidade de Roma partilham o mesmo espaço. Estudei latim na escola, mas via-me grego com as declinações, pelo que é bem possível que a minha adaptação contenha algum erro, o qual, se vier a ser apontado por alguém mais conhecedor do que eu, será justificado por mim como um arroubo de liberdade artística.

António Bizarro é o autor de O longo caminho de regresso e do mais recente O motor do caos e da destruição


Por opção do autor, este texto não segue o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
04-04-2017



Se tudo lhe parecia triste não era por um motivo grave. Era o dia. Um dia estranhamente cinzento, como se os raios de sol, subitamente convertidos em lâminas de aço, lhe cravassem o coração. Não havia maneira de substituir aquela melancolia por um copo de vinho que, após sucessivas repetições, fizesse o sol brilhar em pequenas gotas de luz, interrompendo aquela solidão pungente que se sente quando um dia daqueles chega sem aviso. Uma chuva a molhar por dentro.

Conduziu os olhos ao livro com a intenção de se transportar para outro lugar, declinando a ansiedade que se infundia na transparência da seda, sua pele. Ter nas mãos um livro, um bom livro, é como ter uma riqueza de possibilidades, qual pergunta que ainda não se fechou no limite desagradável da resposta. Sentiu que algo em si sussurrava, de um modo que não permitia que ele se levasse para onde desejava ir. Empreendeu então um certo esforço para deslocar aquele murmúrio, uma massa invisível, vinda de lugar incerto. Leu, com um entusiasmo ingénuo, o primeiro parágrafo. Procurou lembrar-se. Voltou ao início da frase e releu-a de um modo mais calmo. Depois, com outro fôlego, inundado de uma suspeita já mais realista, tentou uma terceira vez. Permanecia ainda em si, nesse lugar de onde vinha um silêncio que lhe parecia cheio de passado. Levou o copo à boca. E num gesto que aparentou demorar uma eternidade limpou, áspero, a boca com a mão suja. Cambaleou até ao quarto. As pernas trémulas, o coração em fogo. À voz da razão sobrepõe-se o grito da emoção, lá no fundo, desassossego miudinho, que não deixa o corpo adormecer. As emoções escondem certezas que a própria razão desconhece. E a adesão absoluta a uma ideia teimosa, oculta, difícil de entender, é como um pé cego diante de um sentir obstinado. Na mesa da cozinha duas garrafas de tinto languesciam como duas meretrizes, que depois do uso se tornam uma massa compacta de nojo, tal como as dúvidas, as incompreensões, os erros…

Tombou sobre a cama como quem se abisma no vazio, abandonando-se sem querer senão esquecer a cama, as paredes, as pessoas, naquela noite, à volta de uma mesa de natal. Esquecer aquele dia estranhamente cinzento em que um homem não consegue evitar olhar para o seu reflexo.

Alexandra Pinto é a autora de O olhar é o ponto onde duas superfícies se encontram e do mais recente Contos e Desencontros