Escrever. Pelo dicionário da tão bonita Língua Portuguesa é o mesmo que pôr, dizer ou comunicar por escrito. Encher de letras. Compor. Redigir. Representar o pensamento por meio de caracteres de um sistema de escrita.
 
Para mim, escrever é existir nas palavras. Uma metamorfose diária. É perpetuar tempos e emoções. É perpetrar realidades. Criadas ou por inventar. É aligeirar a vida, porque esta é mais fácil se construída sob o nosso olhar. Escrever sou eu. Desde que aos seis anos a minha professora primária, Maria Alberto, me disse «Conta sempre as tuas histórias. Essa cabeça fervilha». Desde que andava de bicicleta no bairro camarário onde viviam os meus avós maternos e escrevia contos infantis sobre as infantilidades da infância. Desde que fiz dos diários melhores amigos. Desde que a minha autobiografia, tantas vezes rasurada e largada ao abandono, começou a ser escrita, precocemente, aos onze anos. Julgava eu já ter tanto por contar que uma só cabeça não me era suficiente para guardar tudo.
 
Escrever é dirigir um armazém. É encavalitar prosas. É arrumar poesias. É transformar o meu no dos outros e, com isso, alargar em metros quadrados. Escrever é essência. É máquina do tempo. É a reminiscência do que fui, mas, sobretudo, o espelho lúcido do que quero ser. E é, por isso, que escrever sou eu. Em tudo. No comboio quando um olhar de esguelha me faz questionar que passado contam as rugas do velho que lê o jornal. Nas viagens, onde sinto sempre ser mais palavras do que corpo, porque nada é melhor que romancear a vida. Escrever é a junção de todos os sentidos. É a arte de transformar a solidão em companhia. E a saudade em presença.
 
As últimas linhas destas mãos começaram por ser, somente, cartas soltas. Pedaços disto que é escrever. Companheiras de solidão, de amores desavindos, mas também de afectos e esperança. Porque estas cartas são esperança. E porque escrever imortaliza quem junta palavras. Quem as dá a ler.
 
Assim seja eu. Tão imortal quanto a Alice, que viverá eternamente na sua escrita e em mim. Porque escrever é amor, mesmo quando as linhas se esgotam. 

10-11-2017



Perguntam-me para falar da minha escrita, dos meus modos de escrita, do que me leva à escrita, perguntas amplas e vagas às quais não sei bem responder. Não tenho método e só escrevo do que sei. Gostaria de dizer coisas eloquentes e inspiradoras mas, temo, não tenho nada minimamente interessante para dizer.

Escrevo todos os dias. Todos. Escrevo academicamente, escrevo burocraticamente, escrevo em dois blogues, um anónimo onde me dispo e de onde, até, já saíram textos para a imprensa (sempre a insistências para me preservarem o anonimato), escrevo num blogue que leva o meu nome e que não tem o meu nome, escrevo em inglês a maior parte do tempo e, de vez em quando, quando o tempo deixa, escrevo para mim. Escrevo editoriais, artigos científicos, teses, capítulos em colectâneas, escrevo reviews, opiniões académicas disto e para aquilo, e mails, deuses, o que escrevo de emails. E escrevo em português antigo porque me deu muito trabalho dominar esta língua para agora a estar a reaprender (desaprender) sem nexo de lógica. Creio que é preciso virmos de fora para notarmos a maldade que se faz a esta língua gigante e velha com reformas legalistas que a querem vergar.

Escrevo em silêncio. Há quem oiça música enquanto escreve. Como não consigo ouvir música “enlatada” e só ao vivo se tem a percepção da profundidade musical, escrevo a ouvir o silêncio. Nunca me peçam bandas sonoras para os meus livros porque as não tenho. Escrevo diários desde que aprendi a escrever, primeiro em inglês (minha quarta língua) e, de há nove ou dez anos para cá, em português (minha segunda língua). Nunca sei bem localizar o espaço que ocupam as línguas na minha mente e nos meus processos de escrita. Por isso, quando falo delas e do uso que lhes dou, digo-as sempre cronologicamente pela ordem com que me chegaram na vida.

Escrevo do que sei. Um dia ouvi a Inês Pedrosa dizer que só se escreve autobiograficamente e concordei no imediato. O Eu, do Nada, é uma pseudo-ficção e Da Gaveta é uma semi-biografia. Escrevo melhor na tristeza. A alegria leva-nos para longe e a melancolia aproxima-nos de nós. Invento pouco e acredito piamente no adágio que nos revela que a realidade ultrapassa qualquer ficção. Parto sempre da realidade e só escrevo a realidade, como só escrevo na solidão e em segredo. Nunca partilho que estou a escrever. Apareço com o facto consumado e estou mais à vontade a partilhar a escrita com estranhos do que com próximos. A escrita é nudez.

Escrevo ciência com imensa lentidão. Escrevo um romance em três semanas, um pouco ao estilo do Rider Haggard (também ele escreveu King Solomon’s Mines em três semanas). Há um momento em que uma história me diz “Escreve-me!” e quando isso acontece é porque está pronta a sair. É quase como uma gestação que acaba no momento em que um ser está formado. Depois sento-me e deixo que as palavras saiam, mais depressa, normalmente, do que as consigo escrever. Não imaginam o que escondem as minhas gavetas…

Da Gaveta é a minha reacção ao trauma crónico e ao amor visceral. Vivo com a Gaveta dentro de casa e um dia ela pediu-me que a escrevesse. Foi só isso. Tão somente isso.

Isabel Tallysha-Soares é a autora de Eu,do Nada e Da Gaveta.
25-10-2017



Ainda perduram muitos mitos sobre os Açores. Aqui ficam alguns.

Os Açores são o que resta de um grande continente chamado Atlântida.
É falso, mas há quem discorde. Muitos têm sido os achados arqueológicos, nos últimos anos, considerados prova legítima de que os açorianos não serão assim tão tugas ou, pelo menos, que o território terá tido presença anterior à chegada da família do Pauleta.  

O Produto Interno Bruto da região depende, em grande parte, do aluguer do anticiclone às Ilhas Britânicas. 
É divertidamente falso. Embora carecendo de sustentação, ao que parece, os avanços tecnológicos vão nesse sentido, ou não estivessem a ser desenvolvidas técnicas para a formação artificial de nuvens, bem como para a sua deslocação. Num futuro não muito distante, talvez os Açores possam ser uma rampa de lançamento para anticiclones e depressões, no coração do Atlântico, consoante as necessidades do freguês. 

Nos Açores está sempre a chover. 
Falso. Categoricamente falso. Este é, aliás, o meu mito preferido. Se vissem o dia de Verão que consigo observar aqui, da minha janela, estaríamos conversados.

No tocante ao futebol, tudo o que conhecem sobre os Açores é absolutamente verdade. Sim, o modesto pecúlio do futebol açoriano começa na capacidade do Pauleta fazer um hat-trick com uma bola de queijo flamengo e acaba no sonho do Eliseu de vir a ser tão rápido e versátil como a sua lambreta. 

Outra verdade (quase) absoluta é que, nos Açores, quase não há portistas. Ou quase não havia, há trinta e tal anos. Foi nesse estado de absoluta contrariedade que tive de crescer no meu portismo, rodeado de deseducadores rivais e sem orientação alguma, pois não havia alminha na minha família que apreciasse futebol. Ser portista em semelhante estado de solidão é um exercício complexo. Ou sobrevivemos ou sobrevivemos. Começamos, depressa, a encontrar os nossos estratagemas e a executá-los. Aqui e ali, compara-se o Madjer com o Veloso, como se isso fosse legítimo, leva-se um adereço qualquer no bolso, em princípio um porta-chaves reluzente com o símbolo do Maior serve, aqui e ali deixa-se cair uma mentirinha, tudo em nome de um bem superior, embora os resultados, por essa altura até nem obriguem a muitas. Usando esses truques, hoje posso dar o testemunho de que sobrevivi e até trouxe para o meu lado uns quantos rapazes e raparigas da vizinhança.

Anos depois, não previa ser transportado, com a violência de uma entrada por trás e a pés juntos, para os tempos em que era obrigado a fazer pela vida da minha crença futebolística. Obrigou-me a isso um pequeno portista em potência, todo ele alegria quando via uma bola e, também por isso, presa fácil das armadilhas deseducativas de rivais mal-intencionados. Reviver a solidão desses tempos é agoniante, desperta traumas que eu julgava resolvidos. Para mais, vi-me assim desafiado num tempo de grande adversidade competitiva. Depois de trinta e muitos anos de vitórias, entre as quais mais de vinte campeonatos, o FCP resumia-se, em quatro anos, a uma supertaça. 

De repente, pensei que talvez não estivesse assim tão sozinho nessa missão. Além da inveja, o portismo é capaz de despertar vis instintos nos rivais, aos quais qualquer educador portista já terá sido submetido. É nesse espírito de solidariedade com outros educadores portistas, mas também para precaver ameaças permanentes ao desenvolvimento harmonioso dos pequenotes, que nasce este Portismo à Maneira Curta – guia prático e fundamental para a educação de um pequeno portista. Baseado nas estratégias educativas mais convenientes (que não são, necessariamente, as mais pedagógicas), são oferecidas quinze lições que percorrem a formação do carácter, as emoções, a definição de limites ou a aprendizagem, porque o portismo é um programa completo de desenvolvimento pessoal. Saiba o educador portista utilizá-lo e o sucesso é garantido. Há já exemplos disso, cá em casa, no meio do Atlântico, faça chuva ou faça sol.

Francisco Simões é o autor de Portismo à maneira curta


04-10-2017



Mais do que uma inspiração, a coleção “Os Mosqueteiros” é a minha homenagem ao romance Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, publicado pela primeira vez em formato de folhetim, no ano de 1844, no jornal Le Siècle.

A primeira vez que li Os Três Mosqueteiros (uma edição antiga do meu avô, publicada em três volumes pela Minerva) houve muita coisa que me passou ao lado. A escrita era densa, com muitos detalhes e enredos secundários que se cruzavam com a história principal. 
No tempo da minha infância, deliciei-me com as gravações VHS de uma série de desenhos animados japoneses que o meu avô me gravava semanalmente. A série, transmitida pela RTP, era uma adaptação do romance de Alexandre Dumas, Os Três Mosqueteiros. Fiquei fascinado com a história, com as cores, com os desenhos das personagens e com todo o universo do século XVII. A dobragem era fantástica e no final de cada episódio o narrador (António Montez) apelava sempre para lermos o livro. 
Li e reli Os Três Mosqueteiros vezes sem conta e considero que é uma obra única no seu género literário. Quando Alexandre Dumas se apercebeu da sua popularidade, escreveu várias sequelas a que o público aderiu com todo o entusiasmo.
Perguntei a mim mesmo, várias vezes, qual é a história que antecede esta obra. Esta coleção é a resposta a esta questão. 
Apesar do romance de Dumas ser uma referência, as histórias apresentadas são autónomas, sempre com rigor histórico como pano de fundo.
 
Os livros da coleção “Os Mosqueteiros” apostam na componente pedagógica e sociocultural. 
A meu ver, as referências históricas e literárias são importantes e é com grande satisfação e de modo comedido que introduzo sempre informação de cultura geral. Por isso mesmo, é já um costume citar autores e personalidades antigos ou contemporâneos à data da história da obra, de modo a introduzir o capítulo. Destaque para Miguel de Cervantes, Júlio César, Dante Alighieri, Thomas More, Luís de Camões, Aristóteles, entre outros. Há uma ligação transcendente entre estas citações e o que se vai desenrolar nas páginas seguintes.
Gosto de fazer paralelismos com personagens das obras de William Shakespeare, de citar frequentemente Maquiavel ou Sun Tsu. Tudo isto sempre no contexto da história.
Escrever para o público juvenil não é fácil e esta coleção tem como objetivo principal unir o entretenimento à pedagogia. Quero que os jovens leitores se divirtam a ler as páginas destes livros, que vibrem com os duelos de espada, que questionem os valores morais e de conduta, que se interessem por cultura geral e que aprendam História.
Tudo isto faz parte do processo de leitura que é importante incutir nos mais novos, apelando assim ao seu pensamento crítico. Outro ponto fulcral é captar o interesse dos jovens de modo a quererem pesquisar por si mesmos mais informação sobre estes temas da História e Literatura.

A ilustração é outro complemento importante da coleção “Os Mosqueteiros”. Na minha opinião e visto que se tratam de obras infantojuvenis, considero que é importante que haja este apelo visual. Enriquecem-se as páginas da história e captam-se os leitores.
 
Francisco Sousa Faria da Silva é o autor de O segredo de Leonardo da Vinci e A conspiração de sangue, títulos que integram a coleção "Os Mosqueteiros".
20-09-2017



Certa noite, acordei sobressaltado e, apesar dos meus melhores esforços, não conseguia voltar a adormecer. A culpa era toda daquela cena vívida que vira no meu sonho e que não me saía da cabeça; uma cena tão realista que me assoberbava o cérebro – assim que fechava os olhos - com um sem número de detalhes: desde as roupas que os personagens vestiam aos penteados que usavam, desde o ambiente que os envolvia aos entalhes nas paredes que os cercava. Mas, para mim, aquilo que mais me espantava era o facto de eu conhecer os personagens todos pelo nome; e não só: sabia quem eram.

Não. Não eram pessoas que conhecesse na vida real. Nunca os vira antes…

Mas conhecia-os.

E foi isto que me fez levantar da cama e garatujar, ensonado, numa folha de papel, os nomes daqueles personagens, bem como os pilares da história que os envolvia: um segredo de família, uma história que não o era e o desespero de uma fuga.

Depois, com a garantia de que Teresa, Maria e Rodrigo não desapareceriam pela manhã, deitei-me para o meu merecido descanso.

No dia seguinte comecei a escrever Marta.

Nem todas as histórias me surgem assim; Marta foi uma exceção...

PJ Vulter é o autor de Marta.
24-08-2017