Volvidos cinco meses desde que a Coolbooks disponibilizou Demência aos leitores, é hora de vos agradecer pela recepção a esta narrativa inconveniente.

Segundo a APAV, entre 2008 e 2011, em casos de violência doméstica, 85% das vítimas foram mulheres, e 80% dos agressores foram homens. Demência não é apenas sobre violência doméstica ou sobre a violência de género. É também sobre “violência social”: o tipo de violência que ocorre quando nos tornamos, involuntariamente, cúmplices de crimes que têm lugar entre quatro paredes, nos domínios onde ninguém deve meter a colher. Esta narrativa, ambientada num meio fechado e rural, tornou-se a voz de muitas mulheres. 

Não esperava que, 8 anos depois da sua publicação original, a premissa da mulher que sofre às mãos de um homem violento, e da conivência dos vizinhos, continuasse tão atual, tão premente. Muito menos esperava que as respostas do Estado continuassem a ser tão desadequadas à realidade deste tipo de crimes. 
Enquanto tiverem de ser as mulheres a sair de casa, em circunstâncias de agressão, o Demência continuará a fazer sentido. 
Enquanto houver incompreensão, culpabilização generalizada da mulher pela situação vivida no seio doméstico, enquanto houver minimização e desculpabilização do homem (essa infantilização nociva de alguns homens, dos seus modos e do seu papel no seio do lar) em julgamentos a respeito de violações, de assédio, de agressões em geral, o livro continuará a fazer sentido. 
Enquanto, em interrogatórios, a vítima feminina continuar a ser questionada sobre o que vestia quando “instigou” o agressor a agredi-la, o Demência continuará a fazer sentido. 
Enquanto a sociedade assumir que a figura da mulher incita à perda de controlo por parte do homem, e que portanto tem algum tipo de responsabilidade nos abusos, o Demência continuará a fazer sentido. 
Enquanto a sociedade, a religião, os costumes, sugerirem que a mulher deve “suportar”, “perdoar”, “ficar”, apesar dos maus-tratos, da carência afetiva, do regime de terror (a casa transformada numa trincheira) - isto é, enquanto houver mulheres para as quais a própria casa não lhes é refúgio, mas teatro de guerra - o Demência continuará a fazer sentido. 
Enquanto a cultura - as telenovelas, os filmes, alguma literatura - continuarem a sugerir que o afeto (o amor) envolve ciúme, posse, satisfações, o Demência continuará a ser atual. 

Espero que o dia chegue em que o Demência passe a ser apenas o relato de uma realidade distante - antes de a estrutura judicial, social - ter protegido as mulheres deste flagelo, antes de a própria sociedade se unir para defender estas mulheres, para denunciar estes agressores, para salvaguardar as crianças dessa aprendizagem nefasta que as destrói emocionalmente desde tenra infância, e que desvirtua as suas relações desde o berço.

Agradeço a todos os que se têm entregado a esta história, a esta realidade, e que se permitiram reconhecer nela os traços da nossa Portugalidade que perpetuam este ciclo de violência. E que, todos juntos, possamos quebrá-lo - para que tanto as mulheres tenham na sua casa o seu retiro, a sua paz, porque a violência doméstica é intolerável e diz-nos respeito a todos. Urge erradicá-la. 


Célia Correia Loureiro é autora de Demência.
11-09-2019

Entre as naves de pedra da aldeia do Marvão e Monsanto, existe um paraíso a oriente de Castelo Branco – Belgais. O dia era azul, manhã clara de abril, águias planando, searas sussurrando, sobreiros chamejando, e uma entrada de bétulas para a casa de artes que reabriu em dezembro de 2018. Estacionamos debaixo do sobreiro que dava para um campo de oliveiras. Entramos à vontade, como se fosse a nossa casa de infância. Deram-nos uma chave de ferro forjado e o programa da tarde. Maria João ensaiava ao longo do Danúbio, no belíssimo salão habitado por um piano de meia cauda. Maria João tocava uma sonata de Beethoven, opus 31. Saboreamos aquele momento, sem tecer uma única palavra. Sentamo-nos no banco de jardim virado para um pequeno lago povoado por rãs e peixes coloridos; ânforas e laranjeiras enfeitavam aquele retângulo coberto de nenúfares. Encostei a cabeça à parede, naveguei à bolina dos andamentos da sonata. Mesmo sem vê-la, senti que estava diante da Maria João Pires que sempre escutei. Para sempre. Depois do ensaio, cumprimentou-nos com um sorriso, um gesto cortês, um olhar amigo. Levantámo-nos, preparamos a fuga no corrupio dos preparativos para o concerto. Maria João comentava com alguém: «fiz tudo o que era possível».

Tirei um laranja do pátio, acomodámo-nos numa das casas de pedra que ficam mais a sul. São casas baixas, limpas, com portas e caixilhos de madeira, ladrilhadas com tijoleira e flores aromáticas. O nosso quarto tinha o nome da capital da Turquia. Uma tapeçaria árabe na cabeceira da cama, uma mesa com dois copos e um vaso de água, um espelho vintage que nos mostrou uma novíssima calma. Deitamo-nos e esperamos pela hora marcada, rumo à Hungria.

O salão encheu rapidamente, algum jet set no castelo da proa, uma turbulência de cadeiras e velas acesas no burburinho da entrada para o ante concerto. Sentámo-nos na quarta fila, com vista para o rosto e para o teclado. Gábor Csalog, venerável ermita apaixonado, tocou peças de Kurtág e Béla Bartók; Milos Popovic, homem novo, simpático, tocou uma sonata de Liszt, em Si menor, S.178; Maria João tocou a sonata esperada; também tocou La Lugubre Gondola de Liszt. A quatro mãos, com Gábor, Maria João tocou uma transcrição de Bach Kurták. Nos intervalos, Luís Caetano leu textos e renúncias literárias, acompanhado pelas rápidas passagens do alvo Berto, cão que vigiava cadeiras viradas para o Yamaha.

No final, Maria João, Gábor, Popovic e Caetano, juntaram-se numa mesa redonda para assinar e conversar com os melómanos. Esperei pela minha vez. Entreguei O Quarto da Mãe com dedicatória, agradecendo todas as sonatas, prelúdios e concertos que lhe escutei durante décadas. Senti-me tonto e ingénuo. Só ela poderia ter escrito aquele livro, só ela merecia ter dito o que eu não consegui dizer. Ela sorriu, como sorriem as mães, mesmo não sendo seu filho, dizendo-me que ia lê-lo, rapidamente, porque sentiu que eu quis escrever a história que ela viveu e nunca será escrita. «Amanhã, ao pequeno-almoço, entre as 8 e as 10, posso conversar consigo», disse Maria João.

Na manhã seguinte, ali estava Maria João, depois de ter alimentado uma raposa. Estava linda. Viva. Atenta. «Dormiram bem?», «querem ovos?», «querem alguma coisa especial?». Não soube dizer nada. Agradeci como gemem os ingratos e os insensatos. E, naquele instante, soube que todos os prelúdios, noturnos e sonatas que ela estuda e toca com talento, tão genuínos e sem consciência de si, são de uma mãe que sempre escutei. Da mãe que conheci em Belgais, um dia, oito águias planando sobre mim, na sua despedida. Obrigado, Maria João Pires, por teres regressado ao quarto onde dormias.

Sérgio Mendes, 2 de maio de 2019.

03-05-2019
«Não posso levar o meu triciclo, mas Golias tem de ir,» disse eu, «Não vou sem o meu urso,» e a mãe repetiu que tínhamos de ser muito leves para entrarmos na Europa. «Olha para mim», disse ela, «Eu também não levo nada». Eu olhei e era verdade, porque a mãe só tinha os olhos azuis muito grandes e o saco com os meus remédios, o boletim das vacinas, duas camisolas, um par de sapatilhas e a escova dos dentes. «Mas eu não vou sem o Golias,» repeti, e agarrei o meu urso com força e compus-lhe o chapéu de palha que nunca parava de lhe cair.

As bombas começaram a rebentar quando nós corríamos no fundo da rua Al Warsha. Lembrei-me do Zeytun, o ganso velho que tínhamos no quintal, e gritei ao tio Malek que tínhamos de voltar atrás porque ele era feito de penas e as penas não pesam nem uma migalha, mas ele abanou a cabeça, gritou-me que na Europa não podiam entrar animais, «Na Europa só entram as pessoas,» disse e ele e continuou a correr.

Foi na terceira noite no deserto que eu vi o que os outros carregavam. O primo Omran, que tem dez e é um ano e dois meses mais velho que eu, trazia um sabonete, dois lápis de cor, um saco de amêndoas de chocolate e a camisola que tem um leão desenhado na frente; a prima Yasmina, que já tem desassete, trazia o gel e o shampô para o cabelo, o telemóvel, uma camisola para o frio com quadrados vermelhos e azuis e um par de sapatilhas; a tia Nadia dava voltas e voltas ao anel de noivado que tinha no dedo porque não tinha conseguido trazer mais nada; a avó Muna trazia as chaves de casa e os documentos numa saca plástica muito pequena; O avô Malek trazia o dinheiro para pagarmos aos homens do barco e um Corão embrulhado em jornais velhos.

Quando entrámos no mar, éramos todos tão leves que o barco não parava de subir e descer, e havia alturas em que ficava lá em cima, a pairar no ar salgado por não ter peso para voltar a cair. Uma vez, veio uma onda que nos quis afundar, e começámos todos a tirar água muito depressa porque de repente tínhamos ficado muito pesados. Depois vieram as horas em que o sol batia de uma maneira que quase não nos víamos. Era como se estivessem todos a desaparecer de tão leves que tínhamos ficado outra vez. Nessa altura, eu agarrei o Golias ainda com mais força, não fosse ele desaparecer por entre as nuvens e nunca mais poder chegar comigo à Europa.

Éramos tão leves que o vento nos atirou para esta praia. Durante muito tempo fiquei a pensar no que aconteceu. Por que razão não me consigo mexer, nem respirar, nem abrir os olhos que tenho enterrados na areia. Mas agora acho que sei, e até sei porque não largo o Golias que tenho apertado na mão direita. Só pode ser porque a Europa é tão leve que sobe, sobe sempre sem parar, e ao subir sempre, sempre, não consegue parar de me levar com ela, de tão leve que eu também sou.

Gilberto Pinto é autor de A rapariga que veio do frio.
23-04-2019

A maioria dos contos reunidos em O Invisível, a sua Sombra e o seu Reflexo foram recolhidos do blog Android:Apocalypse. Três histórias, Nadja Vaduva, O Sonho Siamês e McPherson, J., foram publicadas pela primeira vez em 2010, no livro Siamese Dream, e aqui são reeditadas com alterações significativas.

Nadja Vãduva surgiu-me depois da leitura de Touching From a Distance, de Deborah Curtis, a viúva do malogrado poeta mancuniano Ian Curtis, e também da audição obsessiva de All Mine dos Portishead. A fábrica abandonada pejada de discos de música clássica é uma recordação de infância.

Giver of Death, Chaos Within, Afterglow e Lovesong são letras de músicas escritas para a banda IMDK, na qual eu desempenho a função de guitarrista; é possível ouvir as demos instrumentais das duas primeiras faixas no meu canal de Youtube.

McPherson, J. é a minha versão literária de The Nurse Who Loved Me, via A Perfect Circle, sendo que a faixa original é dos Failure. One, dos Metallica (baseado em Johnny Got His Gun), e Fábrica de Oficiais, de Hans Hellmut Kirst, são duas das outras influências.

O Quarto Escuro é uma variação do tema do Candidato da Manchúria, isto é, o programa MK-Ultra, através do qual a CIA programava seres humanos para se tornarem assassinos insuspeitos. O caso mais célebre terá sido, alegadamente, o de Mark David Chapman, o homem que assassinou John Lennon.

Jacqueline Hyde era uma história inacabada que não se deixava escrever, e decidi tornar a sua escrita uma ilustração do meu processo de trabalho.

O Idólatra é uma espécie de rascunho que daria origem a uma outra história, O Desejo e Outros Demónios, daí as semelhanças entre as duas.

Os poemas agrupados sob o título O Invisível, a Sua Sombra e o Seu Reflexo foram escritos por mim e, tirando um ou dois, saíram em antologias.

O Intruso é uma variação do tema do alter-ego e foi profundamente influenciado por Fight Club, de Chuck Palahniuk.

O Que a Água me Deu foi buscar o nome à faixa de Florence and The Machine, em cuja epígrafe se reproduz parte da letra. Florence Welch inspirou-se no quadro de Frida Kahlo e em Virginia Woolf; esta última, por sua vez, influenciou certos aspectos deste conto. Mas a maior influência será, sem dúvida, a faixa Little Water Song, cantada por Ute Lemper no seu álbum de 2000, Punishing Kiss, sendo que a autoria da letra pertence a Nick Cave.

18-04-2019

Muros. Vedações. Grades. Contra tantas formas de desunir se protesta hoje, mas nem uma alminha se insurge contra o hífen. Sim, o hífen. Entre os sinais de pontuação, nenhum conspira como ele. Nas palavras compostas, separa substantivo de substantivo, substantivo de adjetivo, adjetivo de adjetivo, numeral de substantivo, verbo de substantivo, verbos ou substantivos repetidos. Não contente, dedica-se o dito-cujo (até aqui já ele se intrometeu) a isolar pronomes átonos, seja antes, depois ou entre os verbos como quem separa progenitores e crias.

Confio mais no discernimento das crianças em relação ao projeto do hífen para a humanidade do que no cinismo dos linguistas. Confrontados com os referidos pronomes átonos, os mais pequenos formulam a pergunta certa: escreve-se junto ou separado? Onde os especialistas da língua propõem uma ponte, uma criança reconhecerá o mais fundo abismo entre as palavras, aberto por ele mesmo: sim, se se escreve separado, leva hífen.  

Urge, portanto, resistir às investidas do hífen. O pequeno portista já o começou a fazer. Há dias, apanhou o seu educador meio sonolento, já para lá do tempo regulamentar, com uma mensagem de texto, a partir do telemóvel da mãe. “Sou o Pedro. Amote” escreveu ele. Enterneceu-me com as respectivas intenções. O sentimento assim escrito, sem contracções ou dúvidas, nunca me terá parecido tão distinto, sincero ou apertadinho. Lembrei-me logo da história relatada por António Mega Ferreira, no seu guia de Itália, sobre uma criança que, com a ajuda de uma professora visionária, inventou uma nova forma de descrever uma flor: petalosa, com muitas pétalas. Os sábios da academia da língua italiana vergaram-se, maravilhados, e incluíram-na no léxico. A mensagem do pequeno portista e a história transalpina despertaram-me, deram-me esperanças. Iniciar um movimento. Sim, um movimento, contra todas as formas de divisão. Sejam muros, vedações e, sobretudo, hífens. Começaria pela professora do rapaz, faria dela nossa aliada. Em breve, os doutos sábios da língua portuguesa também se revoltariam com as injustiças perpetradas pelo hífen. Sonhava assim, cábula do menino italiano, é bem verdade, embora movido por essa ambição de uma união completa e universal dos povos e da língua, quando volto à mensagem. Na continuação do sentimento, encontro as perguntas a necessitarem de respostas urgentes:

- Quando é que o Porto joga? E não é com o Tondela?

Reconsidero: pensando bem, há coisas que se devem manter separadas, seja por hífens ou caixas de segurança. Ou até pela linha divisória. Caramba, não será coincidência o meio-campo ser uma linha e, para que não restem dúvidas, ele próprio se escrever com hífen, pois não?


Francisco Simões é autor de Portismo à maneira curta.
22-03-2019