Tenho uma amiga que não sabe de onde veio, ou de quem veio, mais precisamente. Veio ter comigo assim, de repente, do nada, como terá vindo ter com ela mesma. 

Depois de algumas conversas, e percebendo que, embora perdidos na encruzilhada de sentidos que a vida nos aponta, ambos vivíamos em nós mesmos, e por isso nos entendíamos, confidenciou-me que o segredo da sua génese lhe fora sonegado desde que mostrou curiosidade sobre ele. Fê-lo, claro, porque faltavam cartas na mesa. Desorientada, naturalmente, disparou em todos os sentidos, como uma mãe que procura um filho desaparecido, tocando nos ombros de cada oportunidade, à espera de que ela se vire e a cara lhe sorria. 

Desenvolveu a fé. Falhou, falhou, falhou. Foi aprendendo, por razões de sobrevivência tão intimamente ligadas a quem tem algo de fundamental para encontrar, mesmo não sabendo o que seja ou não tendo pistas sobre onde esteja, a retirar de cada falhanço a ilação certa, o aspecto bom. Reverteu em amor o que para quase todos seria medo e ódio, uma vida amarga, um mar de espinhos. Como a roda de um carro, ou talvez de uma bicicleta, dada a sua propensão, de raiz dedutível, para as coisas mais transparentes, menos engenhosas, foi acima e abaixo, ao oito e ao oitenta, e entre ambos chegou a deixar de rodar, por uns tempos. Ou seja, tentou tudo. O aconselhável e o impensável, o sensato e o louco, a diluição no colectivo e o radicalismo individual. E os tons do meio, tantos quantos pôde, até hoje, coleccionar. 

Quando, numa dessas vagas, deu comigo, era como se quase não lhe faltassem peças do puzzle mas não soubesse onde as pousar, como se não tivesse chão. Propus-lhe um uso incerto do meu, algures entre a realidade e a fantasia, um meio conto. Parecia decidida a ficar, a permanecer, mas acabou por deixar o meio conto a meio, não sem antes se fazer valer da experiência acumulada na sua busca pessoal para me desbloquear uma veia criativa, uma via construtiva, e acender mais uma luz no sentido da minha vida, ironia de um destino que ela, então, não reconhecia como tal, ou não reconhecia de todo. Foi para casa, para Óbidos, a terra onde nasceu. 

Ter-se-ão passado dois meses. Hoje recebi uma carta dela. Lá dentro, li que não lhe importava já outro sentido na vida do que estar bem e em paz, e sorrir, com dignidade, esteja onde estiver, faça o que fizer, seja qual for o desafio que lhe aparecer pela frente. A questão terá deixado de ser descobrir o sentido da existência para passar a ser existir em todos os sentidos. Nos dela e nos dos outros, como existe, de facto, no meu. Pensando nisto, aliás, perguntei-me se o verdadeiro sentido da vida dela, por paradoxal e até algo triste que enganadoramente se afigure, não seria ajudar os outros a encontrar o sentido da vida deles. Varrendo com uma mão os pensamentos e já quase a guardar, com a outra, o envelope, estremeci de surpresa quando, ao passar os olhos pelo remetente, li: Rua do Cemitério. Então, não me perguntem porquê, tive a certeza de que a minha amiga estava bem, como que renascida. 

Aquela carta era uma certidão de nascimento. E, por nova ironia do destino, uma certidão de Óbidos.


Marcos Cruz é autor de Os pés pelas mãos.
21-12-2018
                      


 ‘Outubro Negro’ é um thriller psicológico que beneficia grandemente da formação em Psicologia, bem como do seu exercício profissional, por parte da autora.
             
 É, porém, quando a história diverge, levando-nos para o reino do sobrenatural, que se revela a veia de ficcionista de Catarina Janeiro, com uma escrita segura que nos apresenta uma trama bem construída, entretecida com analepses que ajudam a caracterizar as personagens e a marcar o tom (negro) da obra, sem resvalar para o pastiche ou o cliché, algo demasiado frequente neste tipo de livros.
             
Tal como em inúmeras histórias de banda desenhada, Albano e Augusto começam por ser melhores amigos, até que se dá a ruptura e a amizade dá lugar a uma rivalidade que transcende as leis da natureza.
              
Balizando-me nas minhas leituras, Augusto trouxe-me à memória outra personagem memorável, Heathcliff, de ‘O Monte dos Vendavais’, pela sua obstinação e orgulho, e pela sua obsessão encarniçada que ultrapassa a fronteira entre a vida e a morte.
              
Um livro excelente, para ser lido em qualquer altura do ano, não obstante o título.

Opinião de António Bizarro, autor da Trilogia Cidade da Indústria, com os títulos: O longo caminho de regresso, O motor do caos e da destruição e O desejo e outros demónios
19-12-2018
                      

Encontrei a Rita numa esplanada, em Lisboa. Bonita, sorridente, bem-disposta, apreciava o modo desconcertante como o vento despenteava as árvores e enchia as ruas de ruidosas folhas estaladiças que as crianças pisavam com gosto.

Pedimos um longo chá e novos bolinhos, pois havia muita conversa para pôr em dia. Conheci a Rita em Paris, quando procurava na medicina de outro país uma notícia milagrosa que me arrancasse e libertasse do abismo em que caíra. De Paris não trouxe nenhuma libertação, mas, no meio daquela intempérie emocional, descobri o abraço da Rita.

Ela tinha o mesmo problema que eu, mas o seu estado de aceitação estava mais adiantado. Procurou confortar-me, mostrando-me carinhosamente algumas das rotinas a que teria de me habituar. Apesar de toda a bondade, percebi imediatamente como a condição de colostomizada tinha destruído a sua vida social. O saquinho era pesado e desconfortável, desaconselhando qualquer aventura, fosse ela uma saída com as amigas ou um passeio mais prolongado nas ruas comerciais da sua cidade.

Naquela tarde de novembro, enquanto o doce vento de Outono nos fazia cócegas no rosto e nos despenteava, encontrei uma Rita completamente diferente. Confiante, segura, determinada, embora continuasse colostomizada. Não precisei de esperar muito para descobrir o responsável por aquela mudança. 

Há alguns meses, a Rita tivera conhecimento, através do seu médico, de um invento simples e prodigioso, uma espécie de cinto para o seu saquinho. Esse cinto, que na verdade era um suporte de saco de colostomia, permitia a distribuição do peso do saco pela cintura, aumentando extraordinariamente o conforto e, sobretudo, a confiança da Rita. Essa confiança devolveu-lhe a vida social, que tanta falta lhe fazia. Recuperou a autoestima e a alegria no olhar. Contou-me que deixou de sentir nos amigos e nos pais aquela comiseração disfarçada que tanto a entristecia e revoltava. Confidenciou-me, por fim, que voltara a amar e a ser amada. 

A conversa continuou ainda mais alguns minutos e tivemos de pedir um novo chá e mais bolinhos. Quando chegou a sua hora, separamo-nos com a promessa de novo encontro, em breve, mas eu tinha ainda algum tempo para me perder naquele labirinto de ruas apertadas por gente com ânsia das primeiras compras de Natal. Levava a alma cheia de uma felicidade doce e apetecia-me saboreá-la.

O cinto que libertou a Rita e lhe trouxe de volta os amigos e o amor fora inventado por mim. O «meu» SSC fazia gente feliz, secando lágrimas e redescobrindo sorrisos. Não lhe falei da paternidade daquele miraculoso cinto; bastava a alegria do seu olhar. 

O vento espalhava mais alguns cabelos arruivados e envelhecidos dos plátanos enquanto eu sentia, novamente, aquela satisfação infantil de calcar as folhas de Outono. É tão bom estar de regresso à vida.


Léa Pinheiro é autora de Sentença ou Oportunidade?.
14-12-2018
                      


Há uma ilha em cada um de nós. Um imenso lugar secreto onde as ondas nascem, a espuma se forma e as correntes se despregam em todas as direções. 
Não tenho a competência para me dedicar a processos introspectivos, a psicoterapias profundas, a leituras psicológicas de perfis complexos, mas desconfio que todos dávamos uma história, um romance intemporal, uma novela intricada de tramas e enredos. Passamos grande parte da vida em busca de algo, dentro ou fora do nosso ser, como se tivéssemos certeza de que seria aquilo o antídoto, a resposta às nossas preces, o caminho para a felicidade. E quando menos se espera a vida faz-nos a vontade, o milagre acontece – alcançamos o que procurávamos. Eureka! Poder-se-ia pensar que seria nesta altura que sinos tocariam do alto dos céus, qual celebração de fortuna suprema. Ironicamente, e não rara a vez, tudo se passa de forma diferente. Somos confrontados com um qualquer desencanto, o desinteresse, a desilusão, a necessidade de encetar uma outra busca. O vento começa então a soprar, as marés sobem, as ondas rebentam-se contra a ilha e de novo nos tornamos em correntes insatisfeitas, insaciáveis de tudo aquilo que não temos. 
Ao escrever este romance tive esse chamamento intimista de viajar pela natureza humana, pelas suas idiossincrasias, de tentar perceber que lutas nos movem, que adamastores podemos criar de cada vez que olhamos o horizonte. Ou até que ponto as nossas convicções se mantém inabaláveis, mesmo quando o mundo e as circunstâncias as decidem colocar à prova. Há em toda esta estória uma luta profunda pela verdade, pela coerência, pelo manter à tona aquilo que somos e aquilo em que acreditamos. A interpretação do romance, o percurso das suas personagens, o desfecho, dependerá sempre daquilo que quisermos ver, da perspetiva escolhida, do lado em que nos posicionarmos. Não há receitas para a felicidade, não há fórmulas para a verdade, e dois opostos podem estar rigorosamente certos. 
Assim como a ilha é um elemento auto-sustentado no meio de um oceano, também o ser humano tem essa capacidade. Por vezes iludimo-nos na busca de um qualquer farol que nos possa conduzir, ansiamos por outras ilhas com quem possamos estabelecer qualquer tipo de ligação, uma âncora confortável, mas é no isolamento da nossa que invariavelmente tudo se decide. 

Somos pedaços de sonhos rodeados de realidade. 

Uma insularidade de vontades contraditórias.


10-12-2018
                      


Há uma rábula da saudosa Ivone Silva que associo aos meus primeiros tempos nesta língua e neste país e que, de certa forma, tem a ver com esta coisa da Isabel Soares e da Isabel Tallysha: a Olívia Patroa e a Olívia Costureira. Tanto a Olívia patroa como a Olívia costureira são uma e a mesma pessoa, o mesmo se passa com a Tallysha e a Soares. Têm, no entanto, afazeres diferentes e, por isso, como as duas Olívias, desmultiplicam-se naquilo que são. Durante o dia a Soares é uma profissional da academia, nas horas vagas a Tallysha escreve umas coisas. No entrementes, a Isabel convive com ambas.

Um pseudónimo é um nome outro que esconde o nosso. A Isabel Tallysha-Soares não é um pseudónimo da Isabel Soares pela simples razão de que a Isabel é Tallysha e é Soares. Tal como a Olívia patroa e a Olívia costureira, para umas coisas a Isabel é Soares e, para outras, é Tallysha-Soares, a identidade hifenizada por justaposição e não por quebra e/ou diferenciação. Então, perguntarão, e porque é que a Isabel não é só Soares para tudo ou Tallysha ou Tallysha-Soares? Porque a Isabel, que manda na Tallysha e na Soares como super-patroa, gosta de cada coisa arrumada no seu lugar. A Soares faz ciência e dedica-se ao ensino, a Tallysha gosta de letras e do silêncio da escrita. A Isabel, por sua vez, compartimentaliza a Tallysha e a Soares.

A compartimentalização é uma aprendizagem de vida, uma utilidade que me vem de uma língua que não o Português, de uma cultura que não a portuguesa. “In zeitdichten Schotten denken”, escreveu-me num papelinho há muitos, muitos, anos uma das minhas tias. Explicou-me naquela língua o que é que aquilo queria dizer e fez-me prometer que viveria a vida assim. Prometi. Não consigo traduzir mas é algo como pensar a vida como um navio com os seus compartimentos estanques que o mantêm à tona em caso de iminente naufrágio. E aqui está uma das heranças dessa língua: raramente adjectivo à latina. Poderia e, para os puristas, talvez devesse dizer “naufrágio iminente” mas, na cabeça, soa-me melhor a iminência do naufrágio do que o naufrágio estar iminente. 

A língua portuguesa foi-me outra aprendizagem e, provavelmente, a primeira imposição a que me sujeitei na vida. Não gostei muito. Um ano depois de começar a aprender Português, comecei a aprender Francês e logo no ano seguinte Inglês que era para ler o David Attenborough sem precisar de tradução (e, sim, disse-lhe dessa sua culpa umas décadas depois). Posteriormente, o Inglês agigantou-se e, como é um filho do Alemão, o meu cérebro deu-se bem com ele. Hoje vivo entre o Português, que dominei com obstinada persistência, e o Inglês, que me apareceu com sadia naturalidade. Sonho em Alemão, num Alemão perfeito que já não falo e de que vou ganhando mais e maiores saudades porque os alemães da minha vida me vão morrendo e a saudade é tão intrinsecamente portuguesa. Já me tem acontecido não me dar conta da língua que estou a falar e os episódios caricatos só assumem a sua faceta cómica depois de eu passar o embaraço envergonhado da realização (esse anglicismo) de que estou a falar a língua errada para as circunstâncias. Também entremeio palavras “estrangeiras” no meu discurso quotidiano. Ou porque não me lembro de como se dizem em Português, ou porque a tradução portuguesa é uma artificialidade, ou porque não existem em Português ou, pura e simplesmente, porque são as primeiras que me vêm à mente quando estou a falar e eu quero é despachar as ideias. Não me apercebo conscientemente desse facto a não ser nas vezes em que tenho de falar em público ou com interlocutores com quem devo mesmo falar em Português e me custa encontrar as palavras rapidamente. A única coisa que me molesta é quando dizem que tenho um “ligeiro” sotaque, colocando a ênfase no “ligeiro” com receio da minha reacção. Não tenho nem nunca tive. Tenho apenas, e às vezes, umas ligeiras dúvidas de pronúncia, nada mais do que isso. Já o meu querido Pedro Rolo Duarte dizia que eu falo um “Português antigo”. Explicarei isso numa próxima ocasião…

Na vida real, e talvez por as línguas terem vindo ter comigo desde cedo, sou uma adepta do multilinguismo como património cultural inestimável. As línguas enformam as culturas e o modo de ser dos povos e a sua visão do mundo. O multilinguismo é tolerância. Os portugueses, sendo nostálgicos, desenvolveram uma língua que consiga pronunciar esse sentimento cálido e melancólico que é a saudade. Também são despachados a resolver problemas quando parece não haver recursos ou soluções. Que outra língua diria melhor o “desenrasque” luso? Viver no meio de línguas diferentes entre si é, acima de tudo, um privilégio, dou-me conta. É ter as ferramentas para articular na mente verbal as especificidades do que a alma sente e a alma de cada povo sente na multiplicidade da nossa humanidade. 

No momento em que a Tallysha está entretida a escrevinhar estas linhas, a Soares anda ocupada a escrever uma peça académica em Francês apesar de o Inglês ser a língua habitual de trabalho. Contudo, a Tallysha também vive em Inglês, tal como a Soares habita no Português. O Alemão, por tremenda ironia da vida, ficou para a saudade. É-me língua de afectos e língua primeira e só me apercebo que a minha “normalidade” linguística possa ser um exotismo quando me perguntam, como agora, se eu não escreveria um pouco sobre esta coisa de viver entre línguas. Aqui está. Nunca tinha pensado (muito) nisso…


Nada, 22 de Setembro de 2018.
Isabel Tallysha-Soares   

28-09-2018