Em todos os dias em que fui feliz contigo, pelos ares nem sempre ecoaram cantos ou poesia. 

É certo que correram brisas honestas, sem remendos, quase todas estivais, embaladas pela indolência de uma maresia longínqua ou intuída. Mas embalaram-nos também outras brisas, pérfidas e encantadoras, tresmalhadas no cortejo de uma Primavera prenhe antes, sequer, das primeiras manifestações do desejo. 

Nos interstícios breves desse quotidiano ameno, desabaram espectaculares vendavais. Aguardámo-los, silentes. Antecipámos os estragos. Renovámos a ideia de que sobreviveríamos. Depois, escutámos as rajadas num sossego dormente.

 Ouvimos o mundo físico ranger, como se todas as articulações da Natureza se contorcessem, tão intemporais quanto ferrugentas. Nem a mais contumaz imaginação nos proporcionou a ansiada fuga, porque jamais igualaria tão viril manifestação congénita. Deixámo-nos estar. Usámos os nossos sentidos para garantirmos mutuamente que sobreviveríamos. 

Quando já só se vislumbrava a cauda de todo aquele caos, mantivemos os sentidos entrelaçados e rechaçámos aquela chantagem useira do temporal que partira com promessas de voltar. Não seriam promessas vãs. Vimo-lo regressar. Tantas e tantas vezes, apenas com nomes diferentes. Tratou-se de um simples artifício de novidade. 

Mas tu e eu sabemos. Sabemo-lo bem. Foi sempre a mesma tempestade que voltou e que voltará para nos fustigar.



Amar para além dos elementos é um conjunto de quatro crónicas, da autoria de Francisco Simões, que pretendem celebrar, quiçá estragar, o Dia dos Namorados: 

Amar para além dos elementos - Fogo



Francisco Simões é autor de Portismo à maneira curta.
11-02-2019


Em todos os dias em que fui feliz contigo, o sol não me veio saudar, batendo respeitosa continência militar ou fazendo acrobacias no céu, antes de cair fulminante de luz. 

Por vezes, foi apenas igual a si mesmo. Inundou praças e esplanadas, umas concretas, outras distantes, até já nem cabermos nelas ou em nós de contentamento. Mas também derreteu silêncios, estafou o vinho, mordeu conversas. Arrependido de tão planeada malvadez, soube sempre apresentar-se com outros modos, todo ele mavioso, todo ele gabarola. 

Foi então que nos convidou para as coordenadas fortuitas em que nos deparámos com versões irrepetíveis de espanto. Um esconderijo. Uma esquina. Uma tangente qualquer. Simples fragmentos de um instante, unidos uns aos outros à nossa passagem. Orgulhoso desses feitos, deixou-se estar, suspenso no pináculo do meio-dia ou sobre o ocaso, fosse onde fosse, simplesmente a assistir. Fez então passar-se por espectador e cúmplice do nosso deslumbramento. 

Quando, em contraponto, lhe pedimos recato, também soube respeitar-nos. Atento, ofereceu-nos sombras de toda a espécie. Sombras que realçaram o lado cintilante das paisagens. Sombras que dissimularam a imprecisão dos gestos. Sombras grossas, verdadeiras, impenetráveis, que recortaram palavras e as suas tribulações. 

Por fim, confiou-nos as sombras primordiais. A minha sombra. E a tua sombra. A minha sombra em ti. E a tua sombra em mim. Sombras destinadas a ficarem inscritas no passado. Tornaram-se recordações inteiras. Unas. Indivisíveis.


Francisco Simões é autor de Portismo à maneira curta.
08-02-2019

Gosto muito de rir.

O tempo foi permitindo retirar quase todas as dúvidas relativamente aos benefícios que rir consegue trazer. Estou absolutamente convencido de que rir ajuda a atenuar alguns males, ainda que em muitos dos casos não os consiga curar.

Uma das coisas mais preciosas do riso é que não necessita de ter horários marcados nem programação. Pode acontecer devagar ou depressa e a qualquer hora do dia. Por vezes, é previsível e, talvez por isso, menos intenso. Mais prazeroso, se inesperado. É comum uma boa dose de riso fazer esquecer a pequena artrose num dos joelhos ou a dor habitual numa cicatriz antiga que surge nas mudanças de lua. Uma gargalhada também pode conseguir transportar temporariamente um problema, adiando-o para um outro dia e, ao mesmo tempo, fazê-lo diminuir. Com sorte, pode até mesmo apagá-lo, deixando-nos mais felizes.

Com tanto benefício, não será difícil conseguirmos uma lista daquilo que nos foi fazendo rir ao longo da vida. Nela, estarão um conjunto de coisas e pessoas que queremos certamente manter perto no presente e também projetar no futuro, assegurando assim que possamos continuar a rir durante muito e muito tempo.

No entanto, mais do que inventariar o que nos envolve e do que focalizar o nosso olhar para o exterior, existe uma outra forma de riso não menos espetacular e que nos ajuda a encontrar um enorme equilíbrio interior. A meu ver, uma enorme qualidade: A capacidade de rirmos de nós mesmos!

No meio de uma rua cheia de gente, quando olhamos para os nossos pés ou vemos alguém que faz lembrar uma das muitas figurinhas que já fizemos na vida. No meio da leitura de um artigo ou enquanto esperamos uma consulta do médico e damos conta que trazemos a camisola do avesso. No meio do trânsito, quando mostramos os dentes ao espelho retrovisor e vemos que temos dificuldade em aproximar-nos por causa do cinto de segurança. Ou numa sapataria, quando experimentamos uns sapatos novos e damos conta que o dedão grande rompeu a ponta de uma das meias ou peúgas. 

Rir de nós mesmos, simplesmente por tudo e por nada. Por muito ou por pouco. Simplesmente rir, de nada nem de ninguém. Apenas de nós mesmos.


Ri-te! Se não tens motivo, olha bem para ti!


04-02-2019




Olhamos para um país pequenino, assim como uma espécie de pequeno rectângulo de terra: de um lado o mar, enorme como sempre são os mares, do outro lado, outro país, maior e mais extrovertido. 

Sim, porque o país dos pigmeus é tímido, embora tente disfarçá-lo, em momentos mais inebriados, geralmente associados ao futebol ou a recordes do Guiness, do género, o maior salpicão do mundo em Mirandela, fenómenos pujantes que, além de muito enriquecedores em matéria de entretenimento televisivo, se revelam particularmente galvanizadores da alma pigmeia.

Por serem pequenos, ou não fosse este o país dos pigmeus, manifesta-se, entre os nativos, uma peculiar tendência para os saltos altos (em sentido figurado, é claro, pelo menos no que aos elementos masculinos diz respeito, sempre prontos que estão, estes pequenos homens, a demonstrações da sua ampla virilidade). 

E é, não há como negá-lo, um gosto vê-los, aos pigmeus, desfilando nas pontinhas dos seus pequenos pés, pelas universidades, pela política ou pelas repartições de finanças: impantes, saltitantes, orgulhosos. Nasceram para o estrelato, os pigmeus. E merecem-no, porque, bem vistas as coisas, sabem sempre de tudo e sobre tudo. Abençoado e clarividente povo, este!

Em momentos mais frágeis – e quem os não tem, afinal? – os nativos pigmeus recordam a grandeza de seus ancestrais que, não sendo grandes, terão feito grande o Mundo, proeza digna de nota, e jamais igualada por outros, pese embora o seu vizinho do lado a reclame, também, na sua tradicional exuberância invejosa. 

Por ser pequeno, o país pigmeu é governado por um grupo, naturalmente reduzido, de pequenas luminárias, numa espécie de sucessão dinástica, só que republicana (embora seja de acreditar que, lá bem no fundo da alma pigmeia, habitem sonhos sebastiânicos de uma monarquia grandiosa – ela sim, capaz de honrar os tais ancestrais que fizeram grande o Mundo).

E são preocupados, os pigmeus! Desengane-se quem, baseado apenas numa observação superficial, afirma o contrário. Preocupados sim, só que em pequena escala, o que é compreensível dado que, e apenas por motivos de estatura, é escasso o alcance da sua visão.

Preocupa-os, sobretudo, o tamanho dos saltos dos outros pigmeus, porque, afinal, há que manter a identidade pigmeia e um pigmeu maior é, claramente, uma séria ameaça à nação. Por isso, o melhor é que os pigmeus que, por infortúnio, miscigenação ou deformação genética, nascem grandes, sejam convidados a sair, não se vá dar o caso de confundirem a pequenez nacional.

Algumas destas criaturas, com a idade e por boa utilização dos saltos altos, tornam-se verdadeiros senadores do país pigmeu. E é um gosto vê-los e ouvi-los: pequeninos, é certo, mas bem-apessoados e fluentes, desdobrando-se em dissertações flatulentas, sobre o tanto que há para fazer para que o país pequeno se faça grande. 

Tão grande que, a par do salpicão de Mirandela, ainda há-de ganhar um lugar no Livro Guiness de Recordes.

11-01-2019

O que me leva a escrever algumas linhas sobre Isabel Tallysha-Soares são duas razões. A primeira é que é sempre um gosto descobrir um novo autor e, ainda por cima, da nossa terra. No entanto, não estaria aqui a gastar o meu tempo de fim de ano se a segunda razão não existisse. Pois é... a segunda razão é que esta é uma autora que surgiu na cena literária para nos perturbar o sossego. Pelo menos o meu sossego perturbou durante alguns dias e uma noite inteira.

Não falarei do segundo livro porque tenho de o reler, é um texto intimista, de memórias, penso que profundamente autobiográfico, que fala do “Ela”, do “Ele” e do “Eu”, necessitando de uma leitura mais concentrada do que aquela que lhe dediquei, uma vez que foi o último a ser lido, encontrando-me com a mente muito inflamada pela leitura dos outros dois. Direi apenas que está muito bem escrito, como aliás os outros, apresentado uma narrativa fluida e profunda com uma maturidade e sensibilidade raras.
Bem, mas falemos então dos outros.

O primeiro que li foi O homem manso, não por escolha consciente, mas por engano: pensando que lia o primeiro, comecei no último; pensando que lia o segundo, continuei no primeiro; só quando iniciei Da gaveta, o segundo, me apercebi que tinha trocado a ordem, esta é a minha sina com os números... Adiante.

"O homem manso é um daqueles textos raros."

Classifico-o como romance, mas um romance que nos remete para fora deste tempo. Retoma a estrutura do romance clássico, cheirando a uma mistura entre o romantismo e o realismo não deixando de ser contemporâneo. Lendo este texto, lembrei-me, nos poucos momentos que consegui abstrair-me da narrativa, dos meus romancistas de eleição, quase todos de outras épocas. Depois, a autora apresenta-nos a história através de um discurso umas vezes divertido, outras vezes profundamente triste, sustentado por uma ironia fina, testemunho profundo de uma inteligência refinada. Mas não é tudo: o texto apresenta-se com um discurso fluente que junta palavras e expressões eruditas a palavras e expressões populares, algumas pouco ou nada usadas, justificando o domínio altíssimo de um vocabulário diversificado ajustado aos ambientes narrativos vividos ao longo da história, mas nós, leitores, não nos apercebemos durante a leitura desta característica, pois ela surge de forma que parece natural. 

Encontramos também jogos lindíssimos de linguagem construídos com uma mestria sintática absolutamente genial (esta característica é também aplicável ao Eu, do Nada). Finalmente, encontramos uma ação, que mais não é (e já não é pouco) do que a busca constante de família, afetos e justiça, desenvolvida por personagens com uma força extraordinária, muito bem construídas do ponto de vista psicológico, social e mesmo simbólico. E não falo apenas da fabulosa personagem principal, mas também de todas as outras, mesmo as personagens-tipo que representam a religião e a falsidade religiosa; as classes sociais e a superioridade balofa de alguns; a educação e as pedagogias rançosas... tudo isto é contado e descrito com sinceridade. E quem assim escreve com sinceridade e mestria linguística só pode ser um grande escritor.

"Eu, do nada é uma história fortíssima, contada na primeira pessoa, que vai ao fundo do sofrimento humano, 
num mundo marcadamente rural, protagonizado por personagens que estão entre a ruralidade e a urbanidade"

Seguidamente, ainda com o cansaço emocional de O homem manso, comecei a ler a novela Eu, do Nada, pensando que seria impossível que a autora tivesse outro texto que (re)mexesse tanto com as minhas emoções como tinha acontecido com o anterior. Enganei-me. É uma história fortíssima, contada na primeira pessoa, que vai ao fundo do sofrimento humano, num mundo marcadamente rural, protagonizado por personagens que estão entre a ruralidade e a urbanidade; entre a terra e o céu. E se a Luísa ou Matilde (personagem principal) é de uma força admirável, a Mãe é fascinante: como é que uma personagem tão etérea, que quase não vive enquanto personagem, pode ser, pelo menos para mim, e duvido que o não seja para outros, tão presente? É ela que nos liga ao simbólico, à religião, ao firmamento... e sendo tão erudita e requintada não deixa de fazer a ligação entre a terra e o céu: o telúrico e a espiritualidade. 

Tudo isto, e muito mais, é-nos apresentado através de um discurso ainda mais imaculado, com expressões tão belas que dá vontade de voltar a ler, a ler, a ler... com um domínio de vocabulário específico do mundo rural, e do próprio mundo rural, que impressiona qualquer um. Mais uma vez há aqui a busca feroz pela família, pelos afetos e pela justiça, tendo como pano de fundo um lugar (ou um não-lugar que é lugar, uma vez que é Nada, mas é tudo) através de um diálogo intenso com a morte. A morte tudo vence, mas não a resistência desmedida de Luísa nem a insubstancialidade da Mãe nem a força produtiva do Nada. Luísa é uma rapariga que se faz mulher naquele tempo (Primeira República e Estado Novo), desafiando normas enraizadas pelos costumes, mostrando que a mulher pode ser tão forte como o homem e comandar a sua vida, bastando para isso quebrar as forças instituídas que só existem para servir os poderes do masculino em detrimento do feminino.

A força desmedida das personagens femininas (mulher-Mãe) é comum nas duas obras:

Em Eu, do Nada, o cenário é dominado por duas mulheres fortíssimas do ponto de vista espiritual, a Mãe, e do ponto de vista psicológico e físico, a Luísa; em O homem manso, apesar de D. Rodrigo ser fascinante enquanto personagens principal, temos a D. Mariazinha e mesmo a Sifym que se apresentam com uma força espantosa. Tudo fazem (apesar do abismo que as separa, abismo cultural e geográfico, bem entendido), quebrando convicções enraizadas, na empreitada de salvar um bem maior do que tudo: os filhos e, em última análise, a família.

E no fim disto tudo, ou talvez no início, temos as Memórias, porque é de Memórias que afinal estes livros tratam, Memórias enraizadas num “Eu” que as eternizará, Memórias que são a fundação do presente e do futuro:

“Esta memória é como medular, arreigada inconscientemente em mim; é a lembrança viva de qualquer coisa de que eu própria tivesse saído, ou de que me tivesse profundamente alimentado” (Irene Lisboa, ‘Começa uma vida’, Editorial Presença, 1992, p. 30).

Do ponto de vista literário, não podia ter acabado o ano da melhor forma: descobrir uma autora que vai dar que falar. 
Obrigado, Isabel. Espero pelo próximo. 


Jorge da Cunha, escritor.
08-01-2019