Em todos os dias em que fui feliz contigo, o sol não me veio saudar, batendo respeitosa continência militar ou fazendo acrobacias no céu, antes de cair fulminante de luz. 
Por vezes, foi apenas igual a si mesmo. Inundou praças e esplanadas, umas concretas, outras distantes, até já nem cabermos nelas ou em nós de contentamento. Mas também derreteu silêncios, estafou o vinho, mordeu conversas. Arrependido de tão planeada malvadez, soube sempre apresentar-se com outros modos, todo ele mavioso, todo ele gabarola. 
Foi então que nos convidou para as coordenadas fortuitas em que nos deparámos com versões irrepetíveis de espanto. Um esconderijo. Uma esquina. Uma tangente qualquer. Simples fragmentos de um instante, unidos uns aos outros à nossa passagem. Orgulhoso desses feitos, deixou-se estar, suspenso no pináculo do meio-dia ou sobre o ocaso, fosse onde fosse, simplesmente a assistir. Fez então passar-se por espectador e cúmplice do nosso deslumbramento. 
Quando, em contraponto, lhe pedimos recato, também soube respeitar-nos. Atento, ofereceu-nos sombras de toda a espécie. Sombras que realçaram o lado cintilante das paisagens. Sombras que dissimularam a imprecisão dos gestos. Sombras grossas, verdadeiras, impenetráveis, que recortaram palavras e as suas tribulações. 
Por fim, confiou-nos as sombras primordiais. A minha sombra. E a tua sombra. A minha sombra em ti. E a tua sombra em mim. Sombras destinadas a ficarem inscritas no passado. Tornaram-se recordações inteiras. Unas. Indivisíveis.

Em todos os dias em que fui feliz contigo, pelos ares nem sempre ecoaram cantos ou poesia. 
É certo que correram brisas honestas, sem remendos, quase todas estivais, embaladas pela indolência de uma maresia longínqua ou intuída. Mas embalaram-nos também outras brisas, pérfidas e encantadoras, tresmalhadas no cortejo de uma Primavera prenhe antes, sequer, das primeiras manifestações do desejo. 
Nos interstícios breves desse quotidiano ameno, desabaram espectaculares vendavais. Aguardámo-los, silentes. Antecipámos os estragos. Renovámos a ideia de que sobreviveríamos. Depois, escutámos as rajadas num sossego dormente. Ouvimos o mundo físico ranger, como se todas as articulações da Natureza se contorcessem, tão intemporais quanto ferrugentas. Nem a mais contumaz imaginação nos proporcionou a ansiada fuga, porque jamais igualaria tão viril manifestação congénita. Deixámo-nos estar. Usámos os nossos sentidos para garantirmos mutuamente que sobreviveríamos. 
Quando já só se vislumbrava a cauda de todo aquele caos, mantivemos os sentidos entrelaçados e rechaçámos aquela chantagem useira do temporal que partira com promessas de voltar. Não seriam promessas vãs. Vimo-lo regressar. Tantas e tantas vezes, apenas com nomes diferentes. Tratou-se de um simples artifício de novidade. 
Mas tu e eu sabemos. Sabemo-lo bem. Foi sempre a mesma tempestade que voltou e que voltará para nos fustigar.

Em todos os dias em que fui feliz contigo, a maré não me encheu a alma como devia. 
Nas intermináveis horas de preia-mar, tentei. Juro que tentei. Tentei cobrir os mais tenebrosos abismos do espírito. Improvisei desculpas, simulei amnésias, reclamei ignorância. Falhei rotundamente. Sei como falhei e continuo a falhar. 
Como quero poupar-te a todos os precipícios cheios de gravidade que me atraem para a queda em mim mesmo, até ser destroço ou ruína! Quero-te a salvo, rodeada por uma língua da areia ou na altitude de um promontório qualquer, onde possas observar-me na distância, apenas. Como não consegui, viste-me recuar até ao sabugo, roído pelo desmazelo, pela memória incerta, pela distância meditabunda que não é só distracção, pela avareza de todos os dias. E mesmo assim, resististe. 
Demorámos até flutuarmos ou nos vermos dentro da perene e transparente agitação marítima. Demorámos tanto. Mas agora encontramo-nos na intercepção exacta das linhas de água com uma promessa. Continuaremos a ser três. 

Em todos os dias em que fui feliz contigo, não caminhei sobre a certeza de que ficaremos juntos. 
Encontrei esse chão demasiado instável e a minha vontade fendida de um lado ao outro pelo rasgo telúrico da impossibilidade. Mas sabes que mais? Avancei. E continuarei a avançar, sem vacilar, apenas seguro de que sob os meus pés se abrirão inesperados vales e depressões.
Avancei e tu avançaste comigo. Sem condições, interesses ou dúvidas. Fundamos alicerces, estendemos raízes, prendemo-nos a esse chão imprevisível como pudemos, sabendo desde o primeiro instante que não iríamos ficar juntos para todo o sempre. Haverá maior prova de irracionalidade do que essa de nos entregarmos um ao outro para um dia nos separarmos? Para mim, não há e isso é simplesmente amar. 
É por isso que em todos os dias em que avancei, estejam os elementos reunidos a nosso favor ou conspirando contra nós, não podia ter sido mais feliz.  


Amar para além dos elementos é um conjunto de quatro textos, de Francisco Simões, que procuram celebrar, quiçá estragar, o Dia dos Namorados.
Francisco Simões é autor de Portismo à maneira curta.
15-02-2019


Em todos os dias em que fui feliz contigo, não caminhei sobre a certeza de que ficaremos juntos.
 
Encontrei esse chão demasiado instável e a minha vontade fendida de um lado ao outro pelo rasgo telúrico da impossibilidade. Mas sabes que mais? Avancei. E continuarei a avançar, sem vacilar, apenas seguro de que sob os meus pés se abrirão inesperados vales e depressões.

Avancei e tu avançaste comigo. Sem condições, interesses ou dúvidas. Fundamos alicerces, estendemos raízes, prendemo-nos a esse chão imprevisível como pudemos, sabendo desde o primeiro instante que não iríamos ficar juntos para todo o sempre.

Haverá maior prova de irracionalidade do que essa de nos entregarmos um ao outro para um dia nos separarmos? Para mim, não há e isso é simplesmente amar. 

É por isso que em todos os dias em que avancei, estejam os elementos reunidos a nosso favor ou conspirando contra nós, não podia ter sido mais feliz.  



Amar para além dos elementos é um conjunto de quatro textos, de Francisco Simões, que procuram celebrar, quiçá estragar, o Dia dos Namorados. 



Amar para além dos elementos - Água


Francisco Simões é autor de Portismo à maneira curta.
14-02-2019


Em todos os dias em que fui feliz contigo, a maré não me encheu a alma como devia. 

Nas intermináveis horas de preia-mar, tentei. Juro que tentei. Tentei cobrir os mais tenebrosos abismos do espírito. Improvisei desculpas, simulei amnésias, reclamei ignorância. Falhei rotundamente. Sei como falhei e continuo a falhar.

Como quero poupar-te a todos os precipícios cheios de gravidade que me atraem para a queda em mim mesmo, até ser destroço ou ruína! Quero-te a salvo, rodeada por uma língua da areia ou na altitude de um promontório qualquer, onde possas observar-me na distância, apenas. Como não consegui, viste-me recuar até ao sabugo, roído pelo desmazelo, pela memória incerta, pela distância meditabunda que não é só distracção, pela avareza de todos os dias. E mesmo assim, resististe.
 
Demorámos até flutuarmos ou nos vermos dentro da perene e transparente agitação marítima. Demorámos tanto. 

Mas agora encontramo-nos na interseção exacta das linhas de água com uma promessa. Continuaremos a ser três. 



Amar para além dos elementos é um conjunto de quatro crónicas, da autoria de Francisco Simões, que pretendem celebrar, quiçá estragar, o Dia dos Namorados: 

Amar para além dos elementos - Fogo

Amar para além dos elementos - Ar



Francisco Simões é autor de Portismo à maneira curta.
13-02-2019

Em todos os dias em que fui feliz contigo, pelos ares nem sempre ecoaram cantos ou poesia. 

É certo que correram brisas honestas, sem remendos, quase todas estivais, embaladas pela indolência de uma maresia longínqua ou intuída. Mas embalaram-nos também outras brisas, pérfidas e encantadoras, tresmalhadas no cortejo de uma Primavera prenhe antes, sequer, das primeiras manifestações do desejo. 

Nos interstícios breves desse quotidiano ameno, desabaram espectaculares vendavais. Aguardámo-los, silentes. Antecipámos os estragos. Renovámos a ideia de que sobreviveríamos. Depois, escutámos as rajadas num sossego dormente.

 Ouvimos o mundo físico ranger, como se todas as articulações da Natureza se contorcessem, tão intemporais quanto ferrugentas. Nem a mais contumaz imaginação nos proporcionou a ansiada fuga, porque jamais igualaria tão viril manifestação congénita. Deixámo-nos estar. Usámos os nossos sentidos para garantirmos mutuamente que sobreviveríamos. 

Quando já só se vislumbrava a cauda de todo aquele caos, mantivemos os sentidos entrelaçados e rechaçámos aquela chantagem useira do temporal que partira com promessas de voltar. Não seriam promessas vãs. Vimo-lo regressar. Tantas e tantas vezes, apenas com nomes diferentes. Tratou-se de um simples artifício de novidade. 

Mas tu e eu sabemos. Sabemo-lo bem. Foi sempre a mesma tempestade que voltou e que voltará para nos fustigar.



Amar para além dos elementos é um conjunto de quatro crónicas, da autoria de Francisco Simões, que pretendem celebrar, quiçá estragar, o Dia dos Namorados: 

Amar para além dos elementos - Fogo



Francisco Simões é autor de Portismo à maneira curta.
11-02-2019


Em todos os dias em que fui feliz contigo, o sol não me veio saudar, batendo respeitosa continência militar ou fazendo acrobacias no céu, antes de cair fulminante de luz. 

Por vezes, foi apenas igual a si mesmo. Inundou praças e esplanadas, umas concretas, outras distantes, até já nem cabermos nelas ou em nós de contentamento. Mas também derreteu silêncios, estafou o vinho, mordeu conversas. Arrependido de tão planeada malvadez, soube sempre apresentar-se com outros modos, todo ele mavioso, todo ele gabarola. 

Foi então que nos convidou para as coordenadas fortuitas em que nos deparámos com versões irrepetíveis de espanto. Um esconderijo. Uma esquina. Uma tangente qualquer. Simples fragmentos de um instante, unidos uns aos outros à nossa passagem. Orgulhoso desses feitos, deixou-se estar, suspenso no pináculo do meio-dia ou sobre o ocaso, fosse onde fosse, simplesmente a assistir. Fez então passar-se por espectador e cúmplice do nosso deslumbramento. 

Quando, em contraponto, lhe pedimos recato, também soube respeitar-nos. Atento, ofereceu-nos sombras de toda a espécie. Sombras que realçaram o lado cintilante das paisagens. Sombras que dissimularam a imprecisão dos gestos. Sombras grossas, verdadeiras, impenetráveis, que recortaram palavras e as suas tribulações. 

Por fim, confiou-nos as sombras primordiais. A minha sombra. E a tua sombra. A minha sombra em ti. E a tua sombra em mim. Sombras destinadas a ficarem inscritas no passado. Tornaram-se recordações inteiras. Unas. Indivisíveis.


Francisco Simões é autor de Portismo à maneira curta.
08-02-2019