Sendo amiga da Isabel, tornei-me sua leitora quando adquiri Eu, do Nada, em Junho de 2017, na Feira do Livro de Lisboa. Li-o em Agosto. Comecei a lê-lo na praia, achava que o olho azul e a foto de tons claros da capa combinavam na perfeição com o azul do mar e com a cor da areia. Estava longe de imaginar o que significava o olho azul. 

Na apresentação do seu segundo livro, Da Gaveta, a Isabel referiu que toda a obra de um escritor é sempre autobiográfica, mesmo que se trate de uma história ficcionada. Por isso considero, salvo melhor opinião, que, da mesma forma que assim é para quem escreve, também o pode ser para quem lê. A interpretação, a forma de olhar, de pensar e de se sentir atraído mais por este ou aquele detalhe também tem que ver com a “biografia” de quem lê. Podem, por isso existir diversas leituras/interpretações para um mesmo livro. 

Mas afinal o que é para mim este Eu, do Nada, escrito na 1ª pessoa do singular, por uma narradora tão participante e dona do Nada? O Nada? O Nada é tudo, é terra, é família, são afectos, são ganhos e perdas, é resiliência, é a vida, a morte e a ressurreição do seu varão. E o que é o varão? De acordo com o dicionário é o Homem, o sujeito adulto, aquele do sexo masculino, e é, também, quem age sem medo, viril.
Mas, em Eu, do Nada, o varão fez-se mulher, Luísa umas vezes, Matilde outras, numa sociedade de base marcadamente patriarcal “em que as mulheres só existiam como filhas ou esposas” (p. 82). Aqui, encontramo-nos perante uma história sobre a personificação da emancipação feminina:


Mais do que Luísa do Nada eu era “a” Luísa do Nada, como se o artigo definido me desse a autoridade distanciada da minha pessoa. 
A Luísa do Nada, um nome por inteiro, sem ser filha ou mulher de alguém. Eu era a pessoa, aquela pessoa.  Naqueles tempos patriarcais eu era uma quase aberração. 
Sem marido, sem irmãos e sem pai eu era inteiramente dona de mim. […] Apenas o Nada me possuía como esposo. E era ao Nada que eu me dava na plenitude de mim (p. 122).


Além de Luísa, há também a Mãe, Máxima, personagem que, ao longo da narrativa, vai sendo lentamente descoberta, quer pelo leitor, quer pela personagem principal, sua filha. Máxima revela-se tão rica do ponto de vista psicológico e possui características tão mais humanas do que à partida nos (a)parece. Tem uma sensibilidade tão surpreendente que quando acabei de ler o livro apetecia-me saber mais sobre ela. Aliás, achei que talvez merecesse um livro para contar a sua história.

Máxima é alguém que parece estar sempre ausente em relação à convivência com as outras personagens. Porém, está bastante presente, tendo uma forma de sentir e de se expressar muito próprias e especiais. Em conversa com a Isabel sobre o que eu tinha achado do livro, foi precisamente este um dos aspectos que mais me marcou. Muito embora, sendo um livro de certo modo autobiográfico, como se refere na nota final, não sei efectivamente quais são as personagens nele referidas que são seus familiares, e em que grau, e quais as que são ficcionadas. Ficamos a pensar…

É a partir do Capítulo II que entramos concretamente na história do Nada, na vida de Luísa/Matilde e restantes personagens. A narrativa inicia-se na primeira década do Séc. XIX, com as Invasões Francesas e segue até aos nossos dias. Várias são as referências a factos históricos, quer mundiais, quer nacionais: a I Guerra Mundial e a batalha de La Lys, o Estado Novo, a Guerra Civil Espanhola, a II Guerra Mundial, a Guerra Colonial, o 25 de Abril de 1974. O Nada testemunhou tudo isto e foi resistindo, tal como resistiu a calamidades como a tempestade de Fevereiro de 1941 que chegou a atingir rajadas de cerca de 127km/hora. Na zona do estuário do Tejo provocou mais de cem mortos e, já que estamos em Arruda dos Vinhos, na imprensa da altura foi dado destaque à queda da chaminé da Igreja de Arruda. 

Outra calamidade que assolou o território nacional e à qual Arruda não passou imune, foram as cheias de Novembro de 1967 que também assolaram o Nada. De acordo com os jornais regionais da época, estas cheias provocaram, pelo menos doze mortos, danos severos no abastecimento de água e nos esgotos, ficando Arruda completamente isolada, sem acesso a água e electricidade durante dois dias.
Voltando ao início com que comecei, escolho um outro destaque do livro pela minha própria “biografia” ou história de vida, método de recolha de informação muito usado pelos antropólogos. Este detalhe prende-se, precisamente, com as cheias de 1967 e a importância do despertar para um olhar político por parte da personagem principal:


Se a Mãe ainda cá estivesse certamente teia coleccionado os recortes de jornais que escondiam a real dimensão da tragédia sob o lápis azul da censura. 
Depois das quatro centenas, o Governo impediu a publicitação do número de mortos. 
Só os soubemos depois, muito depois, noutra nova era, quando a liberdade nos permitiu falar. […]
Face àquela ignomínia tive consciência política pela primeira vez. E, como eu, muita gente a deve ter tido também. 
Talvez que seja verdade dos males que vêm por bem. Os alicerces do Governo começaram a ruir com a fúria da enxurrada que tudo varrera e destruíra. […] 
É talvez uma probabilidade de destino colectivo que tenham sido necessárias aquelas cheias devastadoras na sua fatalidade para que, menos de dez anos depois, a conjuntura política se desmoronasse (pp. 156-157).


Este destaque de carácter político em Eu, do Nada relaciono-o biograficamente com o facto de a minha família paterna ter sido perseguida pela PIDE, com invasões à casa dos meus bisavós e o meu avô e tios-avós terem de fugir para casa dos vizinhos. O meu bisavô acabaria por ser detido e enviado para o Tarrafal, Cabo Verde. Faleceu, de embolia pulmonar, aos 54 anos em consequência dos dias que passou na “Frigideira”, como era conhecida a câmara de tortura da Colónia Penal do Tarrafal. Esta alusão serve para reforçar o que disse anteriormente sobre a interpretação de um texto, dado que cada leitor pode dar maior ou menor relevância a determinados aspectos quando lê um livro e cada um pode identificar-se com diferentes pormenores. 

Por fim, queria salientar que há frases, detalhes cujo pleno significado e respectiva profundidade só conseguimos abarcar depois da leitura de todo o livro. É preciso lermos Eu, do Nada para percebermos quão marcante é para a história uma frase dita numa fase ainda embrionária da narrativa: “De cada vez que vivi, morri. A morte foi sempre uma omnipresença pelo que, morrer na fisicalidade deste corpo, me é uma ideia confortável ou, pelo menos, apaziguadora, e talvez seja por isso que ainda aqui estou” (p. 28). Tal como aqui estaremos para a perceber.



Paula Bártolo, antropóloga, apresentou Eu, do nada, o romance de estreia de Isabel Tallysha-Soares, também autora de da Gaveta e O homem manso
08-01-2019



E é chegada a época dos votos de Paz, Harmonia e Amor. Benditos sejam, todos eles, tão absolutamente necessários, nestes tempos estranhos em que recrudescem ódios, se marcam diferenças e se ignora a dor.
 
Os tempos estranhos que juráramos, enquanto humanidade, não deixar que se repetissem. Os tempos difíceis que tentam roubar-nos a candura, a compaixão e a confiança. Os tempos duros que apelam mais à dúvida do que à fé. Os tempos amargos que nos centram em nós e nos fecham ao outro. 

Os tempos em que sempre nos falta o tempo. O tempo de um olhar, ainda que breve. O tempo de um toque, ainda que leve. O tempo de um sorriso, ainda que tímido. O tempo de um abraço, dado a tempo.

Os tempos da insatisfação permanente, em que o tudo sabe sempre a nada. Porque o tudo é nada, quando as almas se esvaziam. Porque esquecemos esses pequenos nadas, que, para tantos outros, sabem a tudo.

E, no entanto, ainda há tempo: para o Amor, para a Harmonia, para a Paz: não os dos discursos grandiloquentes nas palavras e ocos na intenção, mas os outros: aqueles que se fazem de gestos pequenos e de olhares amáveis. E, se ainda há tempo, assim nos chegue a vontade!


Maria José da Silveira Núncio é autora de Calor e O que se cala é como se não existisse
21-12-2018
                      ¿

Perco mais uma vez o transporte e nunca sei se chego cedo ou se chego tarde. Se chego tarde, perco-o. Se chego cedo, perco-o na mesma pois não tenho paciência para o esperar. Vou a pé para casa. É já ali de qualquer forma.

- Vá a correr para casa! Abrigue-se o mais depressa que puder! – diz um homem que se abeira de mim com um guarda-chuva aberto sobre as nossas cabeças. – Quer que a abrigue a qualquer lado? Mora perto?
- Sim, a minha casa é já ali… Mas não está a chover.
- Mas vai chover! Daqui a pouco, poucochinho, vai cair uma chuva pesada, daquela furiosa, e não vem sozinha! Com a chuva vêm raios, trovoada, da que grita! O vento vai arrastar telhados e a saraiva vai partir vidros! Não é prudente andar na rua. Vou andando, está bem? Corra, corra para casa!

Dobra uma esquina e desaparece na noite quente, tão quente como se fosse de dia. O trânsito caótico também cá anda como se fosse hora de ponta. Durante o dia é um silêncio fino, as ruas estão desertas em dormência profunda. Mas agora, a esta hora já tardia, a orquestra urbana usa todos os instrumentos que tem: carros, autocarros, motos, aviões, helicópteros, pessoas e pessoas que, por serem tantas, nem se veem umas às outras.

Um casamento a esta hora… Convidados elegantes e formais esperam os noivos à porta da igreja, nesta atmosfera noturna que ferve de tão quente que está. As flores estão fechadinhas, afinal é durante a noite que dormem. Mas as pessoas apresentam-se despertas, com os olhos vivos e brilhantes, com a pele fresca como se fosse de manhã.

Abeiro-me de um quiosque para ler os títulos dos jornais. Ao ler os títulos não leio as notícias, ao ler as notícias não percebo os seus títulos. Mas… estes jornais são de amanhã… Como sabem as notícias de amanhã se ainda é hoje?
- Deite o relógio fora – diz a senhora que vende os jornais.
Olho para o pulso. O relógio funciona.
- A não ser que marque o tempo certo para si. Cada um de nós tem o seu tempo – diz pensativa.

Afasto-me e continuo a caminhar para casa. Não chove nem troveja e o vento também não apareceu. Até me custam os passos lentos ao empurrar esta nuvem densa de calor que me prende os pés, pesadas pegadas invisíveis que vou deixando para trás. 

Consigo chegar a casa, arrastando-me contra o tempo longo de tão lento que está. Abro a caixa do correio. Encontro uma carta com um selo de outro país, de um país longínquo onde agora é inverno, onde talvez seja de dia, um dia de ontem ou de amanhã, mas a morada do remetente fica aqui perto, pertence à cidade onde vivo.

Ana Gil Campos é autora de As impertinências do Cupido
21-12-2018
                      


Tenho uma amiga que não sabe de onde veio, ou de quem veio, mais precisamente. Veio ter comigo assim, de repente, do nada, como terá vindo ter com ela mesma. 

Depois de algumas conversas, e percebendo que, embora perdidos na encruzilhada de sentidos que a vida nos aponta, ambos vivíamos em nós mesmos, e por isso nos entendíamos, confidenciou-me que o segredo da sua génese lhe fora sonegado desde que mostrou curiosidade sobre ele. Fê-lo, claro, porque faltavam cartas na mesa. Desorientada, naturalmente, disparou em todos os sentidos, como uma mãe que procura um filho desaparecido, tocando nos ombros de cada oportunidade, à espera de que ela se vire e a cara lhe sorria. 

Desenvolveu a fé. Falhou, falhou, falhou. Foi aprendendo, por razões de sobrevivência tão intimamente ligadas a quem tem algo de fundamental para encontrar, mesmo não sabendo o que seja ou não tendo pistas sobre onde esteja, a retirar de cada falhanço a ilação certa, o aspecto bom. Reverteu em amor o que para quase todos seria medo e ódio, uma vida amarga, um mar de espinhos. Como a roda de um carro, ou talvez de uma bicicleta, dada a sua propensão, de raiz dedutível, para as coisas mais transparentes, menos engenhosas, foi acima e abaixo, ao oito e ao oitenta, e entre ambos chegou a deixar de rodar, por uns tempos. Ou seja, tentou tudo. O aconselhável e o impensável, o sensato e o louco, a diluição no colectivo e o radicalismo individual. E os tons do meio, tantos quantos pôde, até hoje, coleccionar. 

Quando, numa dessas vagas, deu comigo, era como se quase não lhe faltassem peças do puzzle mas não soubesse onde as pousar, como se não tivesse chão. Propus-lhe um uso incerto do meu, algures entre a realidade e a fantasia, um meio conto. Parecia decidida a ficar, a permanecer, mas acabou por deixar o meio conto a meio, não sem antes se fazer valer da experiência acumulada na sua busca pessoal para me desbloquear uma veia criativa, uma via construtiva, e acender mais uma luz no sentido da minha vida, ironia de um destino que ela, então, não reconhecia como tal, ou não reconhecia de todo. Foi para casa, para Óbidos, a terra onde nasceu. 

Ter-se-ão passado dois meses. Hoje recebi uma carta dela. Lá dentro, li que não lhe importava já outro sentido na vida do que estar bem e em paz, e sorrir, com dignidade, esteja onde estiver, faça o que fizer, seja qual for o desafio que lhe aparecer pela frente. A questão terá deixado de ser descobrir o sentido da existência para passar a ser existir em todos os sentidos. Nos dela e nos dos outros, como existe, de facto, no meu. Pensando nisto, aliás, perguntei-me se o verdadeiro sentido da vida dela, por paradoxal e até algo triste que enganadoramente se afigure, não seria ajudar os outros a encontrar o sentido da vida deles. Varrendo com uma mão os pensamentos e já quase a guardar, com a outra, o envelope, estremeci de surpresa quando, ao passar os olhos pelo remetente, li: Rua do Cemitério. Então, não me perguntem porquê, tive a certeza de que a minha amiga estava bem, como que renascida. 

Aquela carta era uma certidão de nascimento. E, por nova ironia do destino, uma certidão de Óbidos.


Marcos Cruz é autor de Os pés pelas mãos.
21-12-2018
                      


 ‘Outubro Negro’ é um thriller psicológico que beneficia grandemente da formação em Psicologia, bem como do seu exercício profissional, por parte da autora.
             
 É, porém, quando a história diverge, levando-nos para o reino do sobrenatural, que se revela a veia de ficcionista de Catarina Janeiro, com uma escrita segura que nos apresenta uma trama bem construída, entretecida com analepses que ajudam a caracterizar as personagens e a marcar o tom (negro) da obra, sem resvalar para o pastiche ou o cliché, algo demasiado frequente neste tipo de livros.
             
Tal como em inúmeras histórias de banda desenhada, Albano e Augusto começam por ser melhores amigos, até que se dá a ruptura e a amizade dá lugar a uma rivalidade que transcende as leis da natureza.
              
Balizando-me nas minhas leituras, Augusto trouxe-me à memória outra personagem memorável, Heathcliff, de ‘O Monte dos Vendavais’, pela sua obstinação e orgulho, e pela sua obsessão encarniçada que ultrapassa a fronteira entre a vida e a morte.
              
Um livro excelente, para ser lido em qualquer altura do ano, não obstante o título.

Opinião de António Bizarro, autor da Trilogia Cidade da Indústria, com os títulos: O longo caminho de regresso, O motor do caos e da destruição e O desejo e outros demónios
19-12-2018