Gosto muito de rir.

O tempo foi permitindo retirar quase todas as dúvidas relativamente aos benefícios que rir consegue trazer. Estou absolutamente convencido de que rir ajuda a atenuar alguns males, ainda que em muitos dos casos não os consiga curar.

Uma das coisas mais preciosas do riso é que não necessita de ter horários marcados nem programação. Pode acontecer devagar ou depressa e a qualquer hora do dia. Por vezes, é previsível e, talvez por isso, menos intenso. Mais prazeroso, se inesperado. É comum uma boa dose de riso fazer esquecer a pequena artrose num dos joelhos ou a dor habitual numa cicatriz antiga que surge nas mudanças de lua. Uma gargalhada também pode conseguir transportar temporariamente um problema, adiando-o para um outro dia e, ao mesmo tempo, fazê-lo diminuir. Com sorte, pode até mesmo apagá-lo, deixando-nos mais felizes.

Com tanto benefício, não será difícil conseguirmos uma lista daquilo que nos foi fazendo rir ao longo da vida. Nela, estarão um conjunto de coisas e pessoas que queremos certamente manter perto no presente e também projetar no futuro, assegurando assim que possamos continuar a rir durante muito e muito tempo.

No entanto, mais do que inventariar o que nos envolve e do que focalizar o nosso olhar para o exterior, existe uma outra forma de riso não menos espetacular e que nos ajuda a encontrar um enorme equilíbrio interior. A meu ver, uma enorme qualidade: A capacidade de rirmos de nós mesmos!

No meio de uma rua cheia de gente, quando olhamos para os nossos pés ou vemos alguém que faz lembrar uma das muitas figurinhas que já fizemos na vida. No meio da leitura de um artigo ou enquanto esperamos uma consulta do médico e damos conta que trazemos a camisola do avesso. No meio do trânsito, quando mostramos os dentes ao espelho retrovisor e vemos que temos dificuldade em aproximar-nos por causa do cinto de segurança. Ou numa sapataria, quando experimentamos uns sapatos novos e damos conta que o dedão grande rompeu a ponta de uma das meias ou peúgas. 

Rir de nós mesmos, simplesmente por tudo e por nada. Por muito ou por pouco. Simplesmente rir, de nada nem de ninguém. Apenas de nós mesmos.


Ri-te! Se não tens motivo, olha bem para ti!


04-02-2019




Olhamos para um país pequenino, assim como uma espécie de pequeno rectângulo de terra: de um lado o mar, enorme como sempre são os mares, do outro lado, outro país, maior e mais extrovertido. 

Sim, porque o país dos pigmeus é tímido, embora tente disfarçá-lo, em momentos mais inebriados, geralmente associados ao futebol ou a recordes do Guiness, do género, o maior salpicão do mundo em Mirandela, fenómenos pujantes que, além de muito enriquecedores em matéria de entretenimento televisivo, se revelam particularmente galvanizadores da alma pigmeia.

Por serem pequenos, ou não fosse este o país dos pigmeus, manifesta-se, entre os nativos, uma peculiar tendência para os saltos altos (em sentido figurado, é claro, pelo menos no que aos elementos masculinos diz respeito, sempre prontos que estão, estes pequenos homens, a demonstrações da sua ampla virilidade). 

E é, não há como negá-lo, um gosto vê-los, aos pigmeus, desfilando nas pontinhas dos seus pequenos pés, pelas universidades, pela política ou pelas repartições de finanças: impantes, saltitantes, orgulhosos. Nasceram para o estrelato, os pigmeus. E merecem-no, porque, bem vistas as coisas, sabem sempre de tudo e sobre tudo. Abençoado e clarividente povo, este!

Em momentos mais frágeis – e quem os não tem, afinal? – os nativos pigmeus recordam a grandeza de seus ancestrais que, não sendo grandes, terão feito grande o Mundo, proeza digna de nota, e jamais igualada por outros, pese embora o seu vizinho do lado a reclame, também, na sua tradicional exuberância invejosa. 

Por ser pequeno, o país pigmeu é governado por um grupo, naturalmente reduzido, de pequenas luminárias, numa espécie de sucessão dinástica, só que republicana (embora seja de acreditar que, lá bem no fundo da alma pigmeia, habitem sonhos sebastiânicos de uma monarquia grandiosa – ela sim, capaz de honrar os tais ancestrais que fizeram grande o Mundo).

E são preocupados, os pigmeus! Desengane-se quem, baseado apenas numa observação superficial, afirma o contrário. Preocupados sim, só que em pequena escala, o que é compreensível dado que, e apenas por motivos de estatura, é escasso o alcance da sua visão.

Preocupa-os, sobretudo, o tamanho dos saltos dos outros pigmeus, porque, afinal, há que manter a identidade pigmeia e um pigmeu maior é, claramente, uma séria ameaça à nação. Por isso, o melhor é que os pigmeus que, por infortúnio, miscigenação ou deformação genética, nascem grandes, sejam convidados a sair, não se vá dar o caso de confundirem a pequenez nacional.

Algumas destas criaturas, com a idade e por boa utilização dos saltos altos, tornam-se verdadeiros senadores do país pigmeu. E é um gosto vê-los e ouvi-los: pequeninos, é certo, mas bem-apessoados e fluentes, desdobrando-se em dissertações flatulentas, sobre o tanto que há para fazer para que o país pequeno se faça grande. 

Tão grande que, a par do salpicão de Mirandela, ainda há-de ganhar um lugar no Livro Guiness de Recordes.

11-01-2019

O que me leva a escrever algumas linhas sobre Isabel Tallysha-Soares são duas razões. A primeira é que é sempre um gosto descobrir um novo autor e, ainda por cima, da nossa terra. No entanto, não estaria aqui a gastar o meu tempo de fim de ano se a segunda razão não existisse. Pois é... a segunda razão é que esta é uma autora que surgiu na cena literária para nos perturbar o sossego. Pelo menos o meu sossego perturbou durante alguns dias e uma noite inteira.

Não falarei do segundo livro porque tenho de o reler, é um texto intimista, de memórias, penso que profundamente autobiográfico, que fala do “Ela”, do “Ele” e do “Eu”, necessitando de uma leitura mais concentrada do que aquela que lhe dediquei, uma vez que foi o último a ser lido, encontrando-me com a mente muito inflamada pela leitura dos outros dois. Direi apenas que está muito bem escrito, como aliás os outros, apresentado uma narrativa fluida e profunda com uma maturidade e sensibilidade raras.
Bem, mas falemos então dos outros.

O primeiro que li foi O homem manso, não por escolha consciente, mas por engano: pensando que lia o primeiro, comecei no último; pensando que lia o segundo, continuei no primeiro; só quando iniciei Da gaveta, o segundo, me apercebi que tinha trocado a ordem, esta é a minha sina com os números... Adiante.

"O homem manso é um daqueles textos raros."

Classifico-o como romance, mas um romance que nos remete para fora deste tempo. Retoma a estrutura do romance clássico, cheirando a uma mistura entre o romantismo e o realismo não deixando de ser contemporâneo. Lendo este texto, lembrei-me, nos poucos momentos que consegui abstrair-me da narrativa, dos meus romancistas de eleição, quase todos de outras épocas. Depois, a autora apresenta-nos a história através de um discurso umas vezes divertido, outras vezes profundamente triste, sustentado por uma ironia fina, testemunho profundo de uma inteligência refinada. Mas não é tudo: o texto apresenta-se com um discurso fluente que junta palavras e expressões eruditas a palavras e expressões populares, algumas pouco ou nada usadas, justificando o domínio altíssimo de um vocabulário diversificado ajustado aos ambientes narrativos vividos ao longo da história, mas nós, leitores, não nos apercebemos durante a leitura desta característica, pois ela surge de forma que parece natural. 

Encontramos também jogos lindíssimos de linguagem construídos com uma mestria sintática absolutamente genial (esta característica é também aplicável ao Eu, do Nada). Finalmente, encontramos uma ação, que mais não é (e já não é pouco) do que a busca constante de família, afetos e justiça, desenvolvida por personagens com uma força extraordinária, muito bem construídas do ponto de vista psicológico, social e mesmo simbólico. E não falo apenas da fabulosa personagem principal, mas também de todas as outras, mesmo as personagens-tipo que representam a religião e a falsidade religiosa; as classes sociais e a superioridade balofa de alguns; a educação e as pedagogias rançosas... tudo isto é contado e descrito com sinceridade. E quem assim escreve com sinceridade e mestria linguística só pode ser um grande escritor.

"Eu, do nada é uma história fortíssima, contada na primeira pessoa, que vai ao fundo do sofrimento humano, 
num mundo marcadamente rural, protagonizado por personagens que estão entre a ruralidade e a urbanidade"

Seguidamente, ainda com o cansaço emocional de O homem manso, comecei a ler a novela Eu, do Nada, pensando que seria impossível que a autora tivesse outro texto que (re)mexesse tanto com as minhas emoções como tinha acontecido com o anterior. Enganei-me. É uma história fortíssima, contada na primeira pessoa, que vai ao fundo do sofrimento humano, num mundo marcadamente rural, protagonizado por personagens que estão entre a ruralidade e a urbanidade; entre a terra e o céu. E se a Luísa ou Matilde (personagem principal) é de uma força admirável, a Mãe é fascinante: como é que uma personagem tão etérea, que quase não vive enquanto personagem, pode ser, pelo menos para mim, e duvido que o não seja para outros, tão presente? É ela que nos liga ao simbólico, à religião, ao firmamento... e sendo tão erudita e requintada não deixa de fazer a ligação entre a terra e o céu: o telúrico e a espiritualidade. 

Tudo isto, e muito mais, é-nos apresentado através de um discurso ainda mais imaculado, com expressões tão belas que dá vontade de voltar a ler, a ler, a ler... com um domínio de vocabulário específico do mundo rural, e do próprio mundo rural, que impressiona qualquer um. Mais uma vez há aqui a busca feroz pela família, pelos afetos e pela justiça, tendo como pano de fundo um lugar (ou um não-lugar que é lugar, uma vez que é Nada, mas é tudo) através de um diálogo intenso com a morte. A morte tudo vence, mas não a resistência desmedida de Luísa nem a insubstancialidade da Mãe nem a força produtiva do Nada. Luísa é uma rapariga que se faz mulher naquele tempo (Primeira República e Estado Novo), desafiando normas enraizadas pelos costumes, mostrando que a mulher pode ser tão forte como o homem e comandar a sua vida, bastando para isso quebrar as forças instituídas que só existem para servir os poderes do masculino em detrimento do feminino.

A força desmedida das personagens femininas (mulher-Mãe) é comum nas duas obras:

Em Eu, do Nada, o cenário é dominado por duas mulheres fortíssimas do ponto de vista espiritual, a Mãe, e do ponto de vista psicológico e físico, a Luísa; em O homem manso, apesar de D. Rodrigo ser fascinante enquanto personagens principal, temos a D. Mariazinha e mesmo a Sifym que se apresentam com uma força espantosa. Tudo fazem (apesar do abismo que as separa, abismo cultural e geográfico, bem entendido), quebrando convicções enraizadas, na empreitada de salvar um bem maior do que tudo: os filhos e, em última análise, a família.

E no fim disto tudo, ou talvez no início, temos as Memórias, porque é de Memórias que afinal estes livros tratam, Memórias enraizadas num “Eu” que as eternizará, Memórias que são a fundação do presente e do futuro:

“Esta memória é como medular, arreigada inconscientemente em mim; é a lembrança viva de qualquer coisa de que eu própria tivesse saído, ou de que me tivesse profundamente alimentado” (Irene Lisboa, ‘Começa uma vida’, Editorial Presença, 1992, p. 30).

Do ponto de vista literário, não podia ter acabado o ano da melhor forma: descobrir uma autora que vai dar que falar. 
Obrigado, Isabel. Espero pelo próximo. 


Jorge da Cunha, escritor.
08-01-2019


Sendo amiga da Isabel, tornei-me sua leitora quando adquiri Eu, do Nada, em Junho de 2017, na Feira do Livro de Lisboa. Li-o em Agosto. Comecei a lê-lo na praia, achava que o olho azul e a foto de tons claros da capa combinavam na perfeição com o azul do mar e com a cor da areia. Estava longe de imaginar o que significava o olho azul. 

Na apresentação do seu segundo livro, Da Gaveta, a Isabel referiu que toda a obra de um escritor é sempre autobiográfica, mesmo que se trate de uma história ficcionada. Por isso considero, salvo melhor opinião, que, da mesma forma que assim é para quem escreve, também o pode ser para quem lê. A interpretação, a forma de olhar, de pensar e de se sentir atraído mais por este ou aquele detalhe também tem que ver com a “biografia” de quem lê. Podem, por isso existir diversas leituras/interpretações para um mesmo livro. 

Mas afinal o que é para mim este Eu, do Nada, escrito na 1ª pessoa do singular, por uma narradora tão participante e dona do Nada? O Nada? O Nada é tudo, é terra, é família, são afectos, são ganhos e perdas, é resiliência, é a vida, a morte e a ressurreição do seu varão. E o que é o varão? De acordo com o dicionário é o Homem, o sujeito adulto, aquele do sexo masculino, e é, também, quem age sem medo, viril.
Mas, em Eu, do Nada, o varão fez-se mulher, Luísa umas vezes, Matilde outras, numa sociedade de base marcadamente patriarcal “em que as mulheres só existiam como filhas ou esposas” (p. 82). Aqui, encontramo-nos perante uma história sobre a personificação da emancipação feminina:


Mais do que Luísa do Nada eu era “a” Luísa do Nada, como se o artigo definido me desse a autoridade distanciada da minha pessoa. 
A Luísa do Nada, um nome por inteiro, sem ser filha ou mulher de alguém. Eu era a pessoa, aquela pessoa.  Naqueles tempos patriarcais eu era uma quase aberração. 
Sem marido, sem irmãos e sem pai eu era inteiramente dona de mim. […] Apenas o Nada me possuía como esposo. E era ao Nada que eu me dava na plenitude de mim (p. 122).


Além de Luísa, há também a Mãe, Máxima, personagem que, ao longo da narrativa, vai sendo lentamente descoberta, quer pelo leitor, quer pela personagem principal, sua filha. Máxima revela-se tão rica do ponto de vista psicológico e possui características tão mais humanas do que à partida nos (a)parece. Tem uma sensibilidade tão surpreendente que quando acabei de ler o livro apetecia-me saber mais sobre ela. Aliás, achei que talvez merecesse um livro para contar a sua história.

Máxima é alguém que parece estar sempre ausente em relação à convivência com as outras personagens. Porém, está bastante presente, tendo uma forma de sentir e de se expressar muito próprias e especiais. Em conversa com a Isabel sobre o que eu tinha achado do livro, foi precisamente este um dos aspectos que mais me marcou. Muito embora, sendo um livro de certo modo autobiográfico, como se refere na nota final, não sei efectivamente quais são as personagens nele referidas que são seus familiares, e em que grau, e quais as que são ficcionadas. Ficamos a pensar…

É a partir do Capítulo II que entramos concretamente na história do Nada, na vida de Luísa/Matilde e restantes personagens. A narrativa inicia-se na primeira década do Séc. XIX, com as Invasões Francesas e segue até aos nossos dias. Várias são as referências a factos históricos, quer mundiais, quer nacionais: a I Guerra Mundial e a batalha de La Lys, o Estado Novo, a Guerra Civil Espanhola, a II Guerra Mundial, a Guerra Colonial, o 25 de Abril de 1974. O Nada testemunhou tudo isto e foi resistindo, tal como resistiu a calamidades como a tempestade de Fevereiro de 1941 que chegou a atingir rajadas de cerca de 127km/hora. Na zona do estuário do Tejo provocou mais de cem mortos e, já que estamos em Arruda dos Vinhos, na imprensa da altura foi dado destaque à queda da chaminé da Igreja de Arruda. 

Outra calamidade que assolou o território nacional e à qual Arruda não passou imune, foram as cheias de Novembro de 1967 que também assolaram o Nada. De acordo com os jornais regionais da época, estas cheias provocaram, pelo menos doze mortos, danos severos no abastecimento de água e nos esgotos, ficando Arruda completamente isolada, sem acesso a água e electricidade durante dois dias.
Voltando ao início com que comecei, escolho um outro destaque do livro pela minha própria “biografia” ou história de vida, método de recolha de informação muito usado pelos antropólogos. Este detalhe prende-se, precisamente, com as cheias de 1967 e a importância do despertar para um olhar político por parte da personagem principal:


Se a Mãe ainda cá estivesse certamente teia coleccionado os recortes de jornais que escondiam a real dimensão da tragédia sob o lápis azul da censura. 
Depois das quatro centenas, o Governo impediu a publicitação do número de mortos. 
Só os soubemos depois, muito depois, noutra nova era, quando a liberdade nos permitiu falar. […]
Face àquela ignomínia tive consciência política pela primeira vez. E, como eu, muita gente a deve ter tido também. 
Talvez que seja verdade dos males que vêm por bem. Os alicerces do Governo começaram a ruir com a fúria da enxurrada que tudo varrera e destruíra. […] 
É talvez uma probabilidade de destino colectivo que tenham sido necessárias aquelas cheias devastadoras na sua fatalidade para que, menos de dez anos depois, a conjuntura política se desmoronasse (pp. 156-157).


Este destaque de carácter político em Eu, do Nada relaciono-o biograficamente com o facto de a minha família paterna ter sido perseguida pela PIDE, com invasões à casa dos meus bisavós e o meu avô e tios-avós terem de fugir para casa dos vizinhos. O meu bisavô acabaria por ser detido e enviado para o Tarrafal, Cabo Verde. Faleceu, de embolia pulmonar, aos 54 anos em consequência dos dias que passou na “Frigideira”, como era conhecida a câmara de tortura da Colónia Penal do Tarrafal. Esta alusão serve para reforçar o que disse anteriormente sobre a interpretação de um texto, dado que cada leitor pode dar maior ou menor relevância a determinados aspectos quando lê um livro e cada um pode identificar-se com diferentes pormenores. 

Por fim, queria salientar que há frases, detalhes cujo pleno significado e respectiva profundidade só conseguimos abarcar depois da leitura de todo o livro. É preciso lermos Eu, do Nada para percebermos quão marcante é para a história uma frase dita numa fase ainda embrionária da narrativa: “De cada vez que vivi, morri. A morte foi sempre uma omnipresença pelo que, morrer na fisicalidade deste corpo, me é uma ideia confortável ou, pelo menos, apaziguadora, e talvez seja por isso que ainda aqui estou” (p. 28). Tal como aqui estaremos para a perceber.



Paula Bártolo, antropóloga, apresentou Eu, do nada, o romance de estreia de Isabel Tallysha-Soares, também autora de da Gaveta e O homem manso
08-01-2019



E é chegada a época dos votos de Paz, Harmonia e Amor. Benditos sejam, todos eles, tão absolutamente necessários, nestes tempos estranhos em que recrudescem ódios, se marcam diferenças e se ignora a dor.
 
Os tempos estranhos que juráramos, enquanto humanidade, não deixar que se repetissem. Os tempos difíceis que tentam roubar-nos a candura, a compaixão e a confiança. Os tempos duros que apelam mais à dúvida do que à fé. Os tempos amargos que nos centram em nós e nos fecham ao outro. 

Os tempos em que sempre nos falta o tempo. O tempo de um olhar, ainda que breve. O tempo de um toque, ainda que leve. O tempo de um sorriso, ainda que tímido. O tempo de um abraço, dado a tempo.

Os tempos da insatisfação permanente, em que o tudo sabe sempre a nada. Porque o tudo é nada, quando as almas se esvaziam. Porque esquecemos esses pequenos nadas, que, para tantos outros, sabem a tudo.

E, no entanto, ainda há tempo: para o Amor, para a Harmonia, para a Paz: não os dos discursos grandiloquentes nas palavras e ocos na intenção, mas os outros: aqueles que se fazem de gestos pequenos e de olhares amáveis. E, se ainda há tempo, assim nos chegue a vontade!


Maria José da Silveira Núncio é autora de Calor e O que se cala é como se não existisse
21-12-2018