Comecei a dar vida ao Diogo quando tinha a idade dele: dezassete anos. Aos poucos fui escrevinhando uma espécie de diário que, no século seguinte, veio a ser publicado como "Desencanto em dó menor". Quis que aquelas páginas fossem o reflexo de um adolescente prestes a deixar a adolescência e entrar no mundo adulto, com toda a carga que está subjacente a essa mudança. Criei um Diogo rebelde, cheio de ideias radicais e originais (pelo menos na cabeça dele), emprestando-lhe muita ironia e sentido de humor pelo caminho. O diário segue a cronologia da vida do Diogo, desde finalista de Liceu até aos primeiros anos como estudante universitário. 

Anos mais tarde, tinha eu abandonado a vida académica e dava os primeiros passos no maravilhoso mundo do trabalho, assaltou-me um pensamento: "como será o Diogo aos quarenta anos?". O Diogo que eu visualizei  foi aquele a que dei voz em "O diário do meu suicídio" e representa um homem que eu, na altura em que o escrevia, jurava a mim próprio jamais vir a ser. Se o Diogo adolescente tem muito do adolescente que fui, o Diogo quase quarentão é alguém que não reconheço de todo. 

Muitos anos mais tarde, a minha vida cruzou-se com a Coolbooks e o Diogo com quase quarenta anos foi publicado quando eu tinha essa exacta idade. Pareceu-me justo acrescentar-lhe o adolescente que ele tinha sido, o que me traz hoje, novamente, às primeiras páginas que escrevinhei, há já uma pequena eternidade. 

Na minha cabeça há um terceiro Diogo, reformado e a viver sozinho, às voltas com aquilo que a vida lhe deu e aquilo que ele conseguiu tirar de bom dela. Um dia, gostava de tirar este terceiro Diogo da cabeça e esparramá-lo em folhas de papel. Não há dois sem três? 

Rui Miguel Almeida é o autor de Desencanto em Dó menoro e O diário do meu suicídio.
30-04-2018


Dizem que não existem coincidências, que tudo acontece por uma razão. Eu discordo. E, até me provarem o contrário, permitam-me que o faça. E tenho uma justificação. 

Um dia, não sei bem por que razão (lá está!), ocorreu-me criar uma personagem que, pelo descrédito, pudesse dizer o que bem lhe apetecesse sobre aquilo que se passava em seu redor: uma espécie de ato purgatório. Notícias,  acontecimentos risíveis, assuntos do quotidiano: tudo alimentava a pena — ou o teclado. Nascia assim, sem razão aparente (e talvez por mera coincidência), o Onório, o poeta «bêbado» (no registo popular que tanto aprecia). A ebriedade conferia-lhe o descrédito desejado. A poesia — em quadra heptassilábica — era a arma de que se servia. 

Esse crítico social acabou por resultar no meu primeiro livro. Criei-lhe a história, fiz dele um castiço de Rubiães, Paredes de Coura (terra que conheço bem) — e escrevi, num tom ligeiro e divertido – como se quer –, o Onório, o poeta bêbado.

Terminada a obra, fiquei com a sensação de que havia mais a dizer, de que essa personagem tinha mais para contar, mas, acima de tudo, de que Rubiães tinha mais para revelar. 

Desde criança que me sinto deslumbrado por um solar que há em Rubiães: peça de luxo, em ruína há várias décadas. Achei que seria interessante, ao menos na ficção, alguém reerguer aquelas pedras e devolver-lhes imponência. Ora, para realizar tal proeza, poderia o Onório ser a pessoa indicada? Não, claro que não! E se fosse outra personagem da terra? E se fosse alguém ligado ao Onório e, simultaneamente, ao solar? E se uma catequista agente imobiliária se intrometesse no negócio? E se o coveiro da terra se apaixonasse por ela? É a todos esses «e ses» que O Herdeiro vai dar resposta, com bom humor. 

Que essas respostas – e todas as desventuras do Manuel – divirtam muito o leitor.


Fernando P. Fernandes é o autor de O herdeiro e Onório, o poeta bêbado.
10-04-2018

A Alice é uma homenagem.

A muitas mulheres sofridas, silenciosas, resignadas de quem pouco se fala. Mulheres que se querem esquecidas e que querem esquecer-se. Porque sofrem, e o sofrimento incomoda. Incomoda-as a elas, que o calam, mas incomoda-nos sobretudo a nós, que, simplesmente, olhamos para o lado. 

Mulheres que beberam, ainda no leite materno, a passividade (e aqui, que me perdoe o meu muito estimado Editor, mas vou parafraseá-lo: uma passividade quase irritante). Só que esta é a passividade de quem nunca teve o privilégio da opção. E, acreditem, há MESMO quem não tenha o privilégio da opção.

Mas além de ser uma mulher, a Alice é também um país, desde o Alentejo explorado, miserável e tirano que a viu nascer, onde a desonra se faz morte, que baloiça nas árvores ao amanhecer, até uma Lisboa onde a miséria se esconde em bares de sofás de veludo gasto, em que a noite se confunde com o dia, e a solidão se amortece em bebidas baratas, que hão de acabar, escada acima, em quartos de lençóis sujos e paredes rachadas. 
A miséria em que os sonhos de vida se arrancam dos ventres e se despejam, transformados numa massa informe, em baldes de lata.
Mas a Alice é, também, redenção. É a força das memórias que se querem fazer outras, e se querem dizer outras e que, por isso, se hão de gritar outras.
A Alice é, não uma, mas muitas mulheres que me ensinaram a humildade. E ele há lá coisa mais bonita!

Maria José da Silveira Núncio é a autora de O que se cala é como se não existisse e Calor.
09-03-2018



Apaixonei-me por Florença aos 17 anos, durante uma viagem de carro a Itália com a família. Tendo a sorte de desde então já ter viajado muito pelo mundo, continua a ser a minha cidade talismã. Foi lá que voltei numa inédita viagem solitária, com o meu primeiro subsídio de férias. Um presente que ofereci a mim próprio: voltar a ver o Duomo e passear nas margens do Arno.

Foi por isso sem surpresa que escolhi Florença para o cenário do primeiro romance que me aventurei a escrever. Surpresa acabou por ser receber um telefonema 15 anos depois com o anúncio de que Letizia ia ser publicado. 

Um amigo, Nuno Ferrão, com quem escrevi aquele que foi, para ambos, o primeiro romance publicado, Estórias Limbidinosas, decidiu ir ao baú recuperar Letizia e enviá-lo a uma editora, com o meu consentimento pouco entusiasta. A verdade é que a ele, e ao entusiasmo da Coolbooks, devo o prazer de ter redescoberto Letizia e de convosco poder partilhar a minha paixão por Florença e a atração pelo mistério e romance. 


André Curvelo Campos é o autor de Letizia.
06-03-2018




A propósito do meu novo livro, foi-me sugerido um esclarecimento logo à partida: que sinistros pontos de contacto se poderão estabelecer entre a figura aparentemente simpática de um ouriço-cacheiro e uma coleção de contos aparentemente sobre o amor?

À partida nenhuns, dirão os leitores mais apressados, e com alguma razão, confirmo eu. O título de um livro de histórias de amor deveria incluir o nome de algum lugar romântico como Veneza, Paris ou Toscânia, ou de um lugar exótico como uma ilha deserta, um farol isolado ou o extremo oriente. Aí sim, existe amor. A ter nomes de animais, então deveriam ser nobres como os de algumas aves ou de grandes felinos.

Mas porquê um ouriço?

É verdade que tem uma aparência encantadora, inofensiva, confiável até. Um bichinho amoroso. Quase nos esquecemos que é um animal solitário, o maior mamífero insectívoro e que, quando se sente ameaçado, se enrola, formando uma bola de espinhos que põe à distância qualquer predador que o tenha confundido com o jantar.

O amor e um ouriço-cacheiro. Acreditem que não é fácil lidar com nenhum dos dois, como se poderá comprovar ao longo das nove histórias que compõem o livro. 

Humberto Duarte é o autor de Um anjo pela metade.
02-02-2018