Ninguém escreve a partir do vazio
                      


Comecei a escrever o "Quarto da Mãe" no dia 24 de novembro de 2011. Foram muitas as versões russas e portuguesas. Algumas atravessavam cinco gerações e três épocas distintas. Resistiram alguns versos da minha mãe, resistiram algumas memórias à lareira e nos campos da aldeia onde vivi, resistiram os discos e as canções do meu pai, resistiram algumas histórias da minha professora de piano, resistiram algumas frases limpas, resistiram alguns versos do "Pintor de Álamos", resistiram as confissões de um miúdo da casa do Gaiato, resistiu a minha loucura de querer terminar este livro com pouco mais de 200 páginas.


Para mim, o cerne da obra reside em Celanova e nas vivências do filho em volta do quarto da mãe. Reside nas mulheres e homens de ação que dão a vida pela liberdade e igualdade. Reside nos mais simples que, no trabalho de cada dia, fazem mais do que muitos pensadores resignados. Reside na celebração da Mãe revelada na natureza, fonte de toda a beleza e harmonia.
Reside no cantar dos poetas e compositores caídos. Reside na loucura dos que sofrem, por não conseguirem ser lúcidos diante da luz de cada dia. Reside na infância à lareira. Reside na emoção do prelúdio para a mão esquerda, com mãe e filho de mãos dadas. Reside nas sombras dos álamos na sala. Reside nos acordes mágicos que hão de redimir todo o afastamento e sofrimento da humanidade.

Foram sete anos de escrita. Sete anos a acordar de madrugada e a escrever antes do início das aulas. Sete anos a viver em Leninegrado e em Celanova. Sete anos de revisão, suor e lágrimas.

Muitos capítulos desapareceram, outros fundiram-se num único parágrafo. No final, o essencial da narrativa foi preservado através do poder da visão de uma criança sobre as vivências desalinhadas (saídas constantes e presença de vários homens) e desequilibradas da mãe, no sentido de esta vencer a vida precária e superar as perturbações emocionais. No essencial, ficou a vontade de permanecer humano, apesar da fome, apesar do medo e do barulho da morte, quer em Leninegrado, quer em Celanova; ficou o silêncio entre mãe e filhos, voz do sentimento e do indizível; ficou o amor incondicional entre mãe e filho (a mãe transmite a herança do seu passado à única pessoa que a acompanha); ficou a inversão dos papéis familiares (o filho acaba por assumir o papel do homem da casa, o defensor da figura feminina); ficou a presença constante das memórias (importantes na construção de cada ser humano como ser único e  individual).

Se me perguntassem qual a coisa mais importante deste livro, diria que é regressar à infância, depois de ler toda a poesia do mundo. É perceber que não há nada mais belo do que um abraço da mãe, mesmo que seja de um animal ferido ou de uma mulher enlouquecida pela vida. É o regresso ao ventre onde a luz se estreitou, para renascer no meu corpo.

Sérgio Mendes é o autor de O quarto da mãe
15.06.2018