Há uma ilha em cada um de nós
                      


Há uma ilha em cada um de nós. Um imenso lugar secreto onde as ondas nascem, a espuma se forma e as correntes se despregam em todas as direções. 
Não tenho a competência para me dedicar a processos introspectivos, a psicoterapias profundas, a leituras psicológicas de perfis complexos, mas desconfio que todos dávamos uma história, um romance intemporal, uma novela intricada de tramas e enredos. Passamos grande parte da vida em busca de algo, dentro ou fora do nosso ser, como se tivéssemos certeza de que seria aquilo o antídoto, a resposta às nossas preces, o caminho para a felicidade. E quando menos se espera a vida faz-nos a vontade, o milagre acontece – alcançamos o que procurávamos. Eureka! Poder-se-ia pensar que seria nesta altura que sinos tocariam do alto dos céus, qual celebração de fortuna suprema. Ironicamente, e não rara a vez, tudo se passa de forma diferente. Somos confrontados com um qualquer desencanto, o desinteresse, a desilusão, a necessidade de encetar uma outra busca. O vento começa então a soprar, as marés sobem, as ondas rebentam-se contra a ilha e de novo nos tornamos em correntes insatisfeitas, insaciáveis de tudo aquilo que não temos. 
Ao escrever este romance tive esse chamamento intimista de viajar pela natureza humana, pelas suas idiossincrasias, de tentar perceber que lutas nos movem, que adamastores podemos criar de cada vez que olhamos o horizonte. Ou até que ponto as nossas convicções se mantém inabaláveis, mesmo quando o mundo e as circunstâncias as decidem colocar à prova. Há em toda esta estória uma luta profunda pela verdade, pela coerência, pelo manter à tona aquilo que somos e aquilo em que acreditamos. A interpretação do romance, o percurso das suas personagens, o desfecho, dependerá sempre daquilo que quisermos ver, da perspetiva escolhida, do lado em que nos posicionarmos. Não há receitas para a felicidade, não há fórmulas para a verdade, e dois opostos podem estar rigorosamente certos. 
Assim como a ilha é um elemento auto-sustentado no meio de um oceano, também o ser humano tem essa capacidade. Por vezes iludimo-nos na busca de um qualquer farol que nos possa conduzir, ansiamos por outras ilhas com quem possamos estabelecer qualquer tipo de ligação, uma âncora confortável, mas é no isolamento da nossa que invariavelmente tudo se decide. 

Somos pedaços de sonhos rodeados de realidade. 

Uma insularidade de vontades contraditórias.


10.12.2018