É tão bom estar de regresso à vida
                      

Encontrei a Rita numa esplanada, em Lisboa. Bonita, sorridente, bem-disposta, apreciava o modo desconcertante como o vento despenteava as árvores e enchia as ruas de ruidosas folhas estaladiças que as crianças pisavam com gosto.

Pedimos um longo chá e novos bolinhos, pois havia muita conversa para pôr em dia. Conheci a Rita em Paris, quando procurava na medicina de outro país uma notícia milagrosa que me arrancasse e libertasse do abismo em que caíra. De Paris não trouxe nenhuma libertação, mas, no meio daquela intempérie emocional, descobri o abraço da Rita.

Ela tinha o mesmo problema que eu, mas o seu estado de aceitação estava mais adiantado. Procurou confortar-me, mostrando-me carinhosamente algumas das rotinas a que teria de me habituar. Apesar de toda a bondade, percebi imediatamente como a condição de colostomizada tinha destruído a sua vida social. O saquinho era pesado e desconfortável, desaconselhando qualquer aventura, fosse ela uma saída com as amigas ou um passeio mais prolongado nas ruas comerciais da sua cidade.

Naquela tarde de novembro, enquanto o doce vento de Outono nos fazia cócegas no rosto e nos despenteava, encontrei uma Rita completamente diferente. Confiante, segura, determinada, embora continuasse colostomizada. Não precisei de esperar muito para descobrir o responsável por aquela mudança. 

Há alguns meses, a Rita tivera conhecimento, através do seu médico, de um invento simples e prodigioso, uma espécie de cinto para o seu saquinho. Esse cinto, que na verdade era um suporte de saco de colostomia, permitia a distribuição do peso do saco pela cintura, aumentando extraordinariamente o conforto e, sobretudo, a confiança da Rita. Essa confiança devolveu-lhe a vida social, que tanta falta lhe fazia. Recuperou a autoestima e a alegria no olhar. Contou-me que deixou de sentir nos amigos e nos pais aquela comiseração disfarçada que tanto a entristecia e revoltava. Confidenciou-me, por fim, que voltara a amar e a ser amada. 

A conversa continuou ainda mais alguns minutos e tivemos de pedir um novo chá e mais bolinhos. Quando chegou a sua hora, separamo-nos com a promessa de novo encontro, em breve, mas eu tinha ainda algum tempo para me perder naquele labirinto de ruas apertadas por gente com ânsia das primeiras compras de Natal. Levava a alma cheia de uma felicidade doce e apetecia-me saboreá-la.

O cinto que libertou a Rita e lhe trouxe de volta os amigos e o amor fora inventado por mim. O «meu» SSC fazia gente feliz, secando lágrimas e redescobrindo sorrisos. Não lhe falei da paternidade daquele miraculoso cinto; bastava a alegria do seu olhar. 

O vento espalhava mais alguns cabelos arruivados e envelhecidos dos plátanos enquanto eu sentia, novamente, aquela satisfação infantil de calcar as folhas de Outono. É tão bom estar de regresso à vida.


Léa Pinheiro é autora de Sentença ou Oportunidade?.
14.12.2018