Nuvem densa de calor
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Perco mais uma vez o transporte e nunca sei se chego cedo ou se chego tarde. Se chego tarde, perco-o. Se chego cedo, perco-o na mesma pois não tenho paciência para o esperar. Vou a pé para casa. É já ali de qualquer forma.

- Vá a correr para casa! Abrigue-se o mais depressa que puder! – diz um homem que se abeira de mim com um guarda-chuva aberto sobre as nossas cabeças. – Quer que a abrigue a qualquer lado? Mora perto?
- Sim, a minha casa é já ali… Mas não está a chover.
- Mas vai chover! Daqui a pouco, poucochinho, vai cair uma chuva pesada, daquela furiosa, e não vem sozinha! Com a chuva vêm raios, trovoada, da que grita! O vento vai arrastar telhados e a saraiva vai partir vidros! Não é prudente andar na rua. Vou andando, está bem? Corra, corra para casa!

Dobra uma esquina e desaparece na noite quente, tão quente como se fosse de dia. O trânsito caótico também cá anda como se fosse hora de ponta. Durante o dia é um silêncio fino, as ruas estão desertas em dormência profunda. Mas agora, a esta hora já tardia, a orquestra urbana usa todos os instrumentos que tem: carros, autocarros, motos, aviões, helicópteros, pessoas e pessoas que, por serem tantas, nem se veem umas às outras.

Um casamento a esta hora… Convidados elegantes e formais esperam os noivos à porta da igreja, nesta atmosfera noturna que ferve de tão quente que está. As flores estão fechadinhas, afinal é durante a noite que dormem. Mas as pessoas apresentam-se despertas, com os olhos vivos e brilhantes, com a pele fresca como se fosse de manhã.

Abeiro-me de um quiosque para ler os títulos dos jornais. Ao ler os títulos não leio as notícias, ao ler as notícias não percebo os seus títulos. Mas… estes jornais são de amanhã… Como sabem as notícias de amanhã se ainda é hoje?
- Deite o relógio fora – diz a senhora que vende os jornais.
Olho para o pulso. O relógio funciona.
- A não ser que marque o tempo certo para si. Cada um de nós tem o seu tempo – diz pensativa.

Afasto-me e continuo a caminhar para casa. Não chove nem troveja e o vento também não apareceu. Até me custam os passos lentos ao empurrar esta nuvem densa de calor que me prende os pés, pesadas pegadas invisíveis que vou deixando para trás. 

Consigo chegar a casa, arrastando-me contra o tempo longo de tão lento que está. Abro a caixa do correio. Encontro uma carta com um selo de outro país, de um país longínquo onde agora é inverno, onde talvez seja de dia, um dia de ontem ou de amanhã, mas a morada do remetente fica aqui perto, pertence à cidade onde vivo.

Ana Gil Campos é autora de As impertinências do Cupido
21.12.2018