O tempo de (nos) darmos



E é chegada a época dos votos de Paz, Harmonia e Amor. Benditos sejam, todos eles, tão absolutamente necessários, nestes tempos estranhos em que recrudescem ódios, se marcam diferenças e se ignora a dor.
 
Os tempos estranhos que juráramos, enquanto humanidade, não deixar que se repetissem. Os tempos difíceis que tentam roubar-nos a candura, a compaixão e a confiança. Os tempos duros que apelam mais à dúvida do que à fé. Os tempos amargos que nos centram em nós e nos fecham ao outro. 

Os tempos em que sempre nos falta o tempo. O tempo de um olhar, ainda que breve. O tempo de um toque, ainda que leve. O tempo de um sorriso, ainda que tímido. O tempo de um abraço, dado a tempo.

Os tempos da insatisfação permanente, em que o tudo sabe sempre a nada. Porque o tudo é nada, quando as almas se esvaziam. Porque esquecemos esses pequenos nadas, que, para tantos outros, sabem a tudo.

E, no entanto, ainda há tempo: para o Amor, para a Harmonia, para a Paz: não os dos discursos grandiloquentes nas palavras e ocos na intenção, mas os outros: aqueles que se fazem de gestos pequenos e de olhares amáveis. E, se ainda há tempo, assim nos chegue a vontade!


Maria José da Silveira Núncio é autora de Calor e O que se cala é como se não existisse
21.12.2018