Mãe e filha

Olhei para ti, tão pequena e delicada, tão frágil, pouco depois de teres saído de dentro de mim. Mamavas no meu peito com uma força e sofreguidão que me deram a esperança de seres forte e resolvida no futuro.

Aconteceu tudo outra vez. Apesar de ter sido diferente, e seria sempre diferente – tinha comigo a tranquilidade da natureza saber fazer o seu trabalho, de eu ter feito o meu trabalho, de tu encheres um dos braços do meu colo. Mais tarde o mano haveria de nos fazer visita, encostar-se no outro braço, e eu sentir-me plena, de colo cheio.

Olhei para ti. És a corrente que me liga ao passado e ao futuro: esse milagre da vida que é os ventres dentro dos ventres.

Sangrei de vida, plena de felicidade. Mas sabes, Sofia, este mundo não é fácil. E hei-de falar muito disso contigo e com o teu irmão.



Olinda P. Gil é autora de Sudoeste e Sobreviventes
20.03.2019