As Coisas Que Eles Carregam
«Não posso levar o meu triciclo, mas Golias tem de ir,» disse eu, «Não vou sem o meu urso,» e a mãe repetiu que tínhamos de ser muito leves para entrarmos na Europa. «Olha para mim», disse ela, «Eu também não levo nada». Eu olhei e era verdade, porque a mãe só tinha os olhos azuis muito grandes e o saco com os meus remédios, o boletim das vacinas, duas camisolas, um par de sapatilhas e a escova dos dentes. «Mas eu não vou sem o Golias,» repeti, e agarrei o meu urso com força e compus-lhe o chapéu de palha que nunca parava de lhe cair.

As bombas começaram a rebentar quando nós corríamos no fundo da rua Al Warsha. Lembrei-me do Zeytun, o ganso velho que tínhamos no quintal, e gritei ao tio Malek que tínhamos de voltar atrás porque ele era feito de penas e as penas não pesam nem uma migalha, mas ele abanou a cabeça, gritou-me que na Europa não podiam entrar animais, «Na Europa só entram as pessoas,» disse e ele e continuou a correr.

Foi na terceira noite no deserto que eu vi o que os outros carregavam. O primo Omran, que tem dez e é um ano e dois meses mais velho que eu, trazia um sabonete, dois lápis de cor, um saco de amêndoas de chocolate e a camisola que tem um leão desenhado na frente; a prima Yasmina, que já tem desassete, trazia o gel e o shampô para o cabelo, o telemóvel, uma camisola para o frio com quadrados vermelhos e azuis e um par de sapatilhas; a tia Nadia dava voltas e voltas ao anel de noivado que tinha no dedo porque não tinha conseguido trazer mais nada; a avó Muna trazia as chaves de casa e os documentos numa saca plástica muito pequena; O avô Malek trazia o dinheiro para pagarmos aos homens do barco e um Corão embrulhado em jornais velhos.

Quando entrámos no mar, éramos todos tão leves que o barco não parava de subir e descer, e havia alturas em que ficava lá em cima, a pairar no ar salgado por não ter peso para voltar a cair. Uma vez, veio uma onda que nos quis afundar, e começámos todos a tirar água muito depressa porque de repente tínhamos ficado muito pesados. Depois vieram as horas em que o sol batia de uma maneira que quase não nos víamos. Era como se estivessem todos a desaparecer de tão leves que tínhamos ficado outra vez. Nessa altura, eu agarrei o Golias ainda com mais força, não fosse ele desaparecer por entre as nuvens e nunca mais poder chegar comigo à Europa.

Éramos tão leves que o vento nos atirou para esta praia. Durante muito tempo fiquei a pensar no que aconteceu. Por que razão não me consigo mexer, nem respirar, nem abrir os olhos que tenho enterrados na areia. Mas agora acho que sei, e até sei porque não largo o Golias que tenho apertado na mão direita. Só pode ser porque a Europa é tão leve que sobe, sobe sempre sem parar, e ao subir sempre, sempre, não consegue parar de me levar com ela, de tão leve que eu também sou.

Gilberto Pinto é autor de A rapariga que veio do frio.
23.04.2019