Dizem que não existem coincidências, que tudo acontece por uma razão. Eu discordo. E, até me provarem o contrário, permitam-me que o faça. E tenho uma justificação. 

Um dia, não sei bem por que razão (lá está!), ocorreu-me criar uma personagem que, pelo descrédito, pudesse dizer o que bem lhe apetecesse sobre aquilo que se passava em seu redor: uma espécie de ato purgatório. Notícias,  acontecimentos risíveis, assuntos do quotidiano: tudo alimentava a pena — ou o teclado. Nascia assim, sem razão aparente (e talvez por mera coincidência), o Onório, o poeta «bêbado» (no registo popular que tanto aprecia). A ebriedade conferia-lhe o descrédito desejado. A poesia — em quadra heptassilábica — era a arma de que se servia. 

Esse crítico social acabou por resultar no meu primeiro livro. Criei-lhe a história, fiz dele um castiço de Rubiães, Paredes de Coura (terra que conheço bem) — e escrevi, num tom ligeiro e divertido – como se quer –, o Onório, o poeta bêbado.

Terminada a obra, fiquei com a sensação de que havia mais a dizer, de que essa personagem tinha mais para contar, mas, acima de tudo, de que Rubiães tinha mais para revelar. 

Desde criança que me sinto deslumbrado por um solar que há em Rubiães: peça de luxo, em ruína há várias décadas. Achei que seria interessante, ao menos na ficção, alguém reerguer aquelas pedras e devolver-lhes imponência. Ora, para realizar tal proeza, poderia o Onório ser a pessoa indicada? Não, claro que não! E se fosse outra personagem da terra? E se fosse alguém ligado ao Onório e, simultaneamente, ao solar? E se uma catequista agente imobiliária se intrometesse no negócio? E se o coveiro da terra se apaixonasse por ela? É a todos esses «e ses» que O Herdeiro vai dar resposta, com bom humor. 

Que essas respostas – e todas as desventuras do Manuel – divirtam muito o leitor.


Fernando P. Fernandes é o autor de O herdeiro e Onório, o poeta bêbado.
10-04-2018

O Ninho completou cinquenta anos em Portugal. Mais dois do que aqueles que eu tenho de vida. Se outras razões não existissem (e existem tantas) esta longevidade e o reconhecimento, pelos mais amplos e variados sectores da sociedade portuguesa, merecem todas as homenagens.

Mas há, de facto, outras razões (as mais importantes): as tantas vidas que esta Associação tocou, apoiou e ajudou a tornar outras. As tantas vidas a quem esta Associação fez acreditar que o futuro existe e que pode ser diferente.

Tive o imenso privilégio de aqui aprender o que é o trabalho na área social, de aqui aprender o que é estar com o OUTRO e sentir com o OUTRO. Jamais poderei retribuir estes ensinamentos! 

Este livro, O que se cala é como se não existisse, é um romance e, pelo tema e pela causa, será doada parte dos direitos autorais à IPSS O Ninho, num modesto contributo pessoal, para um trabalho já cinquentenário e unanimemente reconhecido na sociedade portuguesa, de luta contra a prostituição e a exploração sexual.

Maria José da Silveira Núncio é a autora de O que se cala é como se não existisse e Calor.

14-03-2018

A Alice é uma homenagem.

A muitas mulheres sofridas, silenciosas, resignadas de quem pouco se fala. Mulheres que se querem esquecidas e que querem esquecer-se. Porque sofrem, e o sofrimento incomoda. Incomoda-as a elas, que o calam, mas incomoda-nos sobretudo a nós, que, simplesmente, olhamos para o lado. 

Mulheres que beberam, ainda no leite materno, a passividade (e aqui, que me perdoe o meu muito estimado Editor, mas vou parafraseá-lo: uma passividade quase irritante). Só que esta é a passividade de quem nunca teve o privilégio da opção. E, acreditem, há MESMO quem não tenha o privilégio da opção.

Mas além de ser uma mulher, a Alice é também um país, desde o Alentejo explorado, miserável e tirano que a viu nascer, onde a desonra se faz morte, que baloiça nas árvores ao amanhecer, até uma Lisboa onde a miséria se esconde em bares de sofás de veludo gasto, em que a noite se confunde com o dia, e a solidão se amortece em bebidas baratas, que hão de acabar, escada acima, em quartos de lençóis sujos e paredes rachadas. 
A miséria em que os sonhos de vida se arrancam dos ventres e se despejam, transformados numa massa informe, em baldes de lata.
Mas a Alice é, também, redenção. É a força das memórias que se querem fazer outras, e se querem dizer outras e que, por isso, se hão de gritar outras.
A Alice é, não uma, mas muitas mulheres que me ensinaram a humildade. E ele há lá coisa mais bonita!

Maria José da Silveira Núncio é a autora de O que se cala é como se não existisse e Calor.
09-03-2018


A existência da dúvida dá resposta à pergunta. Verdade é que, mais de 100 anos após a primeira celebração do dia da mulher, os desequilíbrios que se faziam notar na altura, continuam. Alguns mais dissimulados, disfarçados ou escondidos, mas vivos, muito vivos. Diferenças salariais, preconceitos de género ou oportunidades de emprego, são realidades viscerais na sociedade ocidental. Se viajarmos mais longe, (ainda) encontramos cenários bizarros de casamentos programados pelo patriarcado, abusos sexuais ou  sonegação de direitos básicos.

Há uma imperiosa necessidade de mudança e a educação deve assumir o comando. Vamos abandonar os estigmas do que cabe ao menino ou à menina fazer. As diferenças biológicas neste enquadramento da realidade são certas, o que não podemos é recorrer a estas para validar comportamentos sexistas. A maior certeza que podemos alcançar é a de que tudo se relativiza quando começamos a ver o indivíduo fora das estatísticas e das presunções sociais. 

A luta pelos direitos das mulheres não deve ser encarada como uma luta contra os homens, até porque o preconceito começa muitas vezes (para não entrar no radicalismo de dizer quase sempre) entre elas próprias. Vamos educar diferente, descriminar menos, aceitar mais. Antes de nos definirmos como homem ou mulher, sejamos humanos. Justos, livres e dignos.


Inês Pinheiro é a autora de A última viagem.
08-03-2018


No Dia Internacional da Mulher, a Coolbooks publica O que se cala é como se não existisse, uma homenagem às mulheres sofridas, resignadas e condenadas ao silêncio, da autoria de Maria José da Silveira Núncio.
 
O retrato de um país nas memórias e vivências de uma mulher cuja vida ficou marcada por histórias de medo, violência, sonhos e perdas.

Para Alice, o livre arbítrio surgiu demasiado tarde na sua vida. Nascida no Alentejo austero e tirano, a desonra obrigou-a a rumar à capital. Aí, sozinha num quarto onde apenas cabia uma cama de uma pessoa só, a prostituição não se apresentou como uma escolha, mas como uma fatalidade.

Depois de em 2014 se ter estreado na ficção com Calor, publicado em ebook e agora editado em formato físico, Maria José da Silveira Núncio regressa com um romance em que a realidade e a fantasia se cruzam, e os sentimentos das personagens se estendem aos leitores.    
   
No dia 16 de março (sexta-feira), às 19:00, a Fábrica Braço de Prata (Lisboa) recebe a autora e as suas obras, num evento que contará com a presença e intervenção de Inês Fontinha, ex-diretora da associação O Ninho, nomeada para o Prémio Nobel da Paz, condecorada com Grau de Comendador da Ordem de Mérito e homenageada com o Prémio de Direitos Humanos pelo seu trabalho na reinserção social das pessoas que se prostituem.


Saiba mais sobre O que se cala é como se não existisse
08-03-2018