Corajoso entrei numa Zona Norte marginal, disposto a assistir à distância, de poltrona, ao drama de Roberto. Sem bater à porta nem pedir autorização, entrei-lhe em casa, conheci-lhe colegas de trabalho, percorri com ele o caminho casa-trabalho, trabalho-casa. Foi uma dessas viagens, numa situação rotineira, embora reveladora de uma aparente ousadia, que tudo mudou. E com essa mudança fui agarrado pelos colarinhos e mergulhado no remorso, no conflito emocional, no dilema que dilacera este homem. E adorei.
A fluência narrativa, o ritmo alternado, a cadência que nos empurra sem mãos para o precipício emocional de Roberto angustiam «em bom», envolvem e carregam para o interior da nossa própria consciência.

Que Nó bom de desatar.

Obrigado, Filipe Batista.

Fernando P. Fernandos é autor de Onório, o poeta bêbado.

19-05-2017






No pós-25 de Abril, uma pequena vila alentejana fervilha com o embate entre a liberdade recentemente conquistada e a manutenção de privilégios seculares. É neste Alentejo que se situa E ficou a terra, o segundo romance de Carla Ramalho, disponível a partir de hoje (em formato físico e digital) na livraria virtual Wook, na Bertrand.pt e no Espaço Professor da Porto Editora .

Num tempo em que a posse da terra se afigurava como bem maior e fonte de conflito constante entre os poderes instalados e os que clamavam por igualdade, uma história de amor cresce entre a filha de um latifundiário e um desconhecido que encontra num bar. Pela voz destes dois protagonistas, Carla Ramalho explora magistralmente a relação com a terra e os sonhos de um futuro melhor proporcionado pela revolução.

Após a publicação, em 2015, de Pelas ruas de uma cidade sem nome, a Coolbooks lança agora esta nova incursão da autora eborense pelo romance.

19-05-2017



Concederam-me o privilégio de mergulhar no estranho mundo do António Bizarro. Um mundo dark de tão gótico. Tivesse eu aptidões cinematográficas ou de esboçar traços sobre o papel, teria material para um filme em ‘modus Memento’ ou uma novela gráfica.

O motor do caos e da destruição é uma bula às minhas limitações criativas. Não tenho rodagem para adaptar o que é tão fértil.

A rodagem do António Bizarro tem alta voltagem. Rima e é tão verdade. Passamos por metamorfoses, enredos policiais, seleções artificiais da espécie humana, tudo numa violenta crueza, que nos inflama a derme.

Cada parte de cada capítulo é um ‘stomach punch’. A certa altura, encosta-nos às cordas. Adoptamos uma defensiva, que não nos serve de nada, tal o manancial de pancada.

A história está desestruturada, o que nos afinca o foco (perdoem a cacofonia). Perdi-me muitas vezes. Tive de recuar para me reencontrar. Histórias de histórias, que antes semearam outras histórias e que se desmultiplicam em outras histórias.

As personagens multiplicam-se, desencaixam-se para se voltarem a enquadrar lá mais para a frente.

Uma história diferente e nada cronológica. É um desassossego que nos vincula até à última linha. Fiquei fã.

Nuno Ferrão, futuro autor Coolbooks
16-05-2017





Gostei particularmente da forma como os contos se ligam e desligam entre si a um ritmo intenso que para no auge da expectativa para recomeçar logo de seguida sem grande tempo para se refletir se há uma história entre contos e em que ponto estamos. O importante é continuar a leitura. Uma escrita muito original e cativante que deixa vontade de conhecer outros trabalhos do autor.

Não restam duvidas de que o que move o caos e a destruição são os instintos mais básicos e difíceis de controlar na humanidade, da vingança à ganância pelo poder absoluto, seguidos de muito perto pelos meios artificiais de fuga que pretendem fazer acreditar que são a solução, e pelo despertar de uma consciência, saturada do não chegar a lado nenhum no matter what.

É difícil parar de ler.



Helena de Macedo é a autora de Cartas com amor





É sempre difícil falar dos outros, das suas palavras, da sua escrita. E, trivial e fácil é dizer que não, que não foi o caso presente porque Calor se lê de um fôlego porque a escrita escorre na leitura ávida. Sigo o caminho fácil, enxotando a trivialidade da justificação do não, não foi o caso. Calor é um vira-páginas.

Maria José da Silveira Núncio habilmente constrói um enredo que tem por pano de fundo um episódio de bloqueio de escrita e no que nesse, e desse, bloqueio o escritor aprende de si, dos outros, do passado e do presente para decidir o (seu) futuro. Porém, e ademais, o bloqueio das letras que não aparecem no papel em branco tem

consequências. Quase que as vamos conseguindo adivinhar e lemos, e continuamos a ler, na tentativa de adivinhar. Calor é o futuro decidido pela falta das letras, pois a “única verdade”, para o escritor, “era um monte de folhas em branco à espera de palavras já esgotadas, por se terem esquecido de como dizer amor.”

Como leitora, Calor impressiona pela escrita fluída e límpida que convoca a rapidez da leitura e, por isso também, ser esta obra um virar de páginas contínuo para quem gosta de palavras e da sua disposição sobre o branco. A construção de um ritmo alternado entre o fluxo de consciência e a narrativa principal permite a criação de um suspense que leva o leitor em curiosidade permanente quanto ao desfecho, o tal, adivinhado sem nunca o ser totalmente.

Porque li e gostei, aqui deixo a sugestão deste Calor que fala “do abandono e da traição das palavras e das folhas em branco”, um Calor catalizador de acções e decisões, “tangível, que parecia poder fechar-se na mão, como na mão se fecharia um pássaro breve e cor de fogo”.

Boa leitura!



Nada, Abril de 2017 Isabel Tallysha-Soares

Por decisão da autora, este texto não segue as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
10-04-2017