Gostei particularmente da forma como os contos se ligam e desligam entre si a um ritmo intenso que para no auge da expectativa para recomeçar logo de seguida sem grande tempo para se refletir se há uma história entre contos e em que ponto estamos. O importante é continuar a leitura. Uma escrita muito original e cativante que deixa vontade de conhecer outros trabalhos do autor.

Não restam duvidas de que o que move o caos e a destruição são os instintos mais básicos e difíceis de controlar na humanidade, da vingança à ganância pelo poder absoluto, seguidos de muito perto pelos meios artificiais de fuga que pretendem fazer acreditar que são a solução, e pelo despertar de uma consciência, saturada do não chegar a lado nenhum no matter what.

É difícil parar de ler.



Helena de Macedo é a autora de Cartas com amor





É sempre difícil falar dos outros, das suas palavras, da sua escrita. E, trivial e fácil é dizer que não, que não foi o caso presente porque Calor se lê de um fôlego porque a escrita escorre na leitura ávida. Sigo o caminho fácil, enxotando a trivialidade da justificação do não, não foi o caso. Calor é um vira-páginas.

Maria José da Silveira Núncio habilmente constrói um enredo que tem por pano de fundo um episódio de bloqueio de escrita e no que nesse, e desse, bloqueio o escritor aprende de si, dos outros, do passado e do presente para decidir o (seu) futuro. Porém, e ademais, o bloqueio das letras que não aparecem no papel em branco tem

consequências. Quase que as vamos conseguindo adivinhar e lemos, e continuamos a ler, na tentativa de adivinhar. Calor é o futuro decidido pela falta das letras, pois a “única verdade”, para o escritor, “era um monte de folhas em branco à espera de palavras já esgotadas, por se terem esquecido de como dizer amor.”

Como leitora, Calor impressiona pela escrita fluída e límpida que convoca a rapidez da leitura e, por isso também, ser esta obra um virar de páginas contínuo para quem gosta de palavras e da sua disposição sobre o branco. A construção de um ritmo alternado entre o fluxo de consciência e a narrativa principal permite a criação de um suspense que leva o leitor em curiosidade permanente quanto ao desfecho, o tal, adivinhado sem nunca o ser totalmente.

Porque li e gostei, aqui deixo a sugestão deste Calor que fala “do abandono e da traição das palavras e das folhas em branco”, um Calor catalizador de acções e decisões, “tangível, que parecia poder fechar-se na mão, como na mão se fecharia um pássaro breve e cor de fogo”.

Boa leitura!



Nada, Abril de 2017 Isabel Tallysha-Soares

Por decisão da autora, este texto não segue as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
10-04-2017




Quando morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar. Sophia de Mello Breyner Andresen.

Não foi à beira-mar que li o Sudoeste da Olinda P. Gil. No entanto, foi a voz do mar que me levou de Oeiras à mesma casa, à mesma quinta, à mesma praia, à mesma falésia das personagens centrais dos três pequenos contos que compõem este livro. Percorri este Sudoeste no tempo de um banho de mar e saí de lá a tremer de frio, mas revigorada. Porque nesse espelho de água vi o reflexo do meu amor mais puro e ingénuo, da nostalgia dos encontros amorosos que não vivi, da coragem de assumir que no amor, como na vida, o está certo é aquilo que queremos, e não um ideal que buscamos ou das escolhas que esperam que façamos.

Um escrita despretensiosa e despojada cuja simplicidade contrasta com a de estórias complexas, porque amar é difícil - e não só na acepção romântica do verbo. Estórias com as quais, enquanto amantes, pais, irmãos ou filhos, encontramos facilmente uma identificação. Na rebeldia e revolta de Ema. Na culpa e impotência de Psyché. No chamamento do mundo do solitário de rosto trigueiro sentado na areia, abraçado aos joelhos (O Mar e as suas Brumas), no chamamento de Eros (Eros e Psyché), ou no de Dulce (Aniversário).

Saio da água e abraço-me a este excerto com que me identifiquei particularmente, mais uma vez porque espelha a minha forma de viver a paixão... no limite: «A meta terminava no caminho da falésia. Por isso, pensei, ao me apaixonar, que já não havia mais para onde ir, como se os caminhos terminassem quando o nosso desejo é perdermo-nos.»

Parabéns, Olinda Pina Gil! Estava bandeira vermelha, mas mergulhei na mesma. E fez-me bem. É esse também o poder dos livros. Obrigada.

03-04-2017




Tudo à minha volta se desenha à minha imagem. A mobília está arranhada e picada como o meu rosto ferido. No chão há tantos buracos quanto os do meu peito. Não há candeeiros no teto como não há luz dentro de mim. As loiças estão partidas. Eu também o estou. As prateleiras estão despidas como o meu corpo nu. A humidade imita o meu coração afogado.



Assim começa O nó da culpa pequeno grande livro de Filipe Batista, que recentemente foi vencedor do Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho 2016 – Jovens Talentos.

Estamos perante um excelente exercício de personificação do sentimento que lhe dá título e que vai acompanhar o protagonista, o misterioso Roberto, num crescente estado depressivo, uma espécie de descida aos abismos mais insondáveis da insanidade humana. Não obstante um ou outro momento em que se deixa enlear nas malhas quase inofensivas da descrição, muito comum num escritor em início de carreira, facilmente se solta deste fugaz enlaço e acaba por revelar um ritmo e uma firmeza na escrita pouco comuns num jovem autor.

A edificação criativa da Zona Norte - local onde decorre toda a ação do livro - como metáfora para o estado de espírito do personagem principal é extremamente convincente, e vai acompanhando a narrativa como se a própria cidade se transfigurasse numa extensão da mente de Roberto.

Vou-me habituando. E aqui sigo, amparado pelas rotinas secundárias que me descansam e pelas personagens principais que me despertam para esse objetivo no qual estou focado há quatro semanas: ser. Um verbo que me assusta, mas que anseio conjugar.

O nó da culpa, uma excelente surpresa; Filipe Batista, uma grande esperança e um nome a reter desde já no panorama dos novos escritores portugueses.

Fico à espera de novas aventuras literárias.

Humberto Duarte é o autor de Um anjo pela metade.
29-03-2017




Depois de O longo caminho de regresso, publicado pela Coolbooks em 2016, António Bizarro regressa à críptica Saint Paul, à procura de O motor do caos e da destruição, já disponível na livraria virtual Wook, na Bertrand.pt e no Espaço Professor da Porto Editora.

Permeada pela estranheza de um futuro industrial e apocalíptico, a megalópole de Saint Paul – onde passado e futuro colidem, transformando-se mutuamente - assume o protagonismo do fio condutor ao longo dos doze contos que compõem este livro.

O confronto pela Espada de Deus, uma palavra capaz de dizimar a Humanidade, a luta pela sobrevivência no vórtice do êxodo casa-trabalho-casa, psicopatologias que dominam o quotidiano da cidade: O motor do caos e da destruição é uma visão de um futuro distópico, numa obra de ficção-científica que expande um notável universo pessoal com referências que vão desde J.G. Ballard e Joy Division a David Cronenberg.

24-03-2017