A propósito do meu novo livro, foi-me sugerido um esclarecimento logo à partida: que sinistros pontos de contacto se poderão estabelecer entre a figura aparentemente simpática de um ouriço-cacheiro e uma coleção de contos aparentemente sobre o amor?

À partida nenhuns, dirão os leitores mais apressados, e com alguma razão, confirmo eu. O título de um livro de histórias de amor deveria incluir o nome de algum lugar romântico como Veneza, Paris ou Toscânia, ou de um lugar exótico como uma ilha deserta, um farol isolado ou o extremo oriente. Aí sim, existe amor. A ter nomes de animais, então deveriam ser nobres como os de algumas aves ou de grandes felinos.

Mas porquê um ouriço?

É verdade que tem uma aparência encantadora, inofensiva, confiável até. Um bichinho amoroso. Quase nos esquecemos que é um animal solitário, o maior mamífero insectívoro e que, quando se sente ameaçado, se enrola, formando uma bola de espinhos que põe à distância qualquer predador que o tenha confundido com o jantar.

O amor e um ouriço-cacheiro. Acreditem que não é fácil lidar com nenhum dos dois, como se poderá comprovar ao longo das nove histórias que compõem o livro. 


Humberto Duarte é o autor de Um anjo pela metade.
02-02-2018

¿O meu amor pela música começou cedo, e muito por influência dos meus amigos, a maioria deles mais velhos do que eu. As primeiras bandas que me cativaram foram Pink Floyd, Depeche Mode, U2 e Xutos e Pontapés. Destas, continuo a seguir atentamente os Depeche Mode, que têm sabido manter-se relevantes e actuais, o que não é de estranhar, já que estiveram sempre muito à frente do seu tempo.

O desejo de fazer música e de escrever surgiu com os Alice in Chains, dentre a cena grunge a banda que logo me cativou pela sua música mais pesada e letras que falavam de desespero e abandono. Comecei a tocar guitarra e a escrever letras porque queria imitar os meus ídolos, Layne Staley e Jerry Cantrell. Em paralelo, queria escrever histórias como o Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft, Borges e J.G. Ballard, dando por mim a pensar, por vezes, quando estava a ler, que, se tivesse sido eu a escrever aquela história, o teria feito de maneira distinta. 

Mais tarde, uma vez mais por influência de amigos mais velhos e conhecedores, fui exposto à música industrial, o meu género de eleição pelas possibilidades infinitas que oferece. Na música industrial há espaço para tudo: samples, guitarras, teclados, cordas, berbequins, field recordings e found sounds, gritos e sussurros. No princípio dos anos 00, adquiri software para fazer música, e desde então não parei. 

Em 2006, fui convidado a participar numa compilação da Thisco Records, juntamente com Tatsumaki e Devhour; na altura, fazia música sob o nome de City of Industry. Continuei a disponibilizar a minha música através do meu blog (Android:Apocalypse), paralelamente à publicação dos meus livros sob a chancela da Coolbooks. 

A crescente contaminação da minha música pela minha escrita, e vice-versa, levou a que, mais do que duas linhas, as duas actividades começassem a seguir a mesma; as faixas iam buscar nomes de contos e de personagens, servindo como banda-sonora para uns e para outros, e as minhas histórias iam buscar referências à minha actividade como músico, por exemplo, o Festival City of Industry, referido no conto Kronenburg, que foi buscar o nome ao meu antigo projecto, entretanto abandonado para dar lugar ao nome com que assino os meus livros.

2018 marca o princípio da minha associação com a EnoughRecords Netlabel, uma editora não-lucrativa de partilha de música online, presente em inúmeras plataformas, tais como  Scene.Org, Internet Archive, Sonic Squirrel, Free Music Archive, Bandcamp, Jamendo, LastFM, etc, com o lançamento do álbum City of Industry: Slow Gun, que espero ser o primeiro de muitos.

António Bizarro é o autor da Trilogia Cidade da Indústria, onde figuram os títulos: O longo caminho de regresso, O motor do caos e da destruição e O desejo e outros demónios.
23-01-2018



Capturados Os salteadores da Torre de Londres, procuramos a origem de Os Mosqueteiros, a coleção de Francisco Sousa Faria da Silva.

Das artes visuais rumou à literatura e dedicou-se a escrever para crianças e jovens. Porquê?

Cresci no meio dos livros e foi desde muito jovem que comecei a gostar de ler, escrever e desenhar. 
Em criança, no tempo livre que tinha, entre estudo, desporto e brincadeiras com os amigos, arranjei sempre lugar para a leitura e para o desenho. Gostava de escrever pequenas histórias e depois ilustrá-las. Mais tarde isso influenciou bastante os meus estudos em artes visuais e depois a licenciatura em cinema. Escrever e desenhar foram sempre atos essenciais para a minha vida e o público juvenil permite ligar de uma forma muito natural a ilustração e o texto.  
 
O que o motivou a escrever sobre a origem de “Os Três Mosqueteiros”, de Alexandre Dumas?
O meu interesse nesta história deve-se principalmente ao meu avô. Lembro-me, no tempo da minha infância, de chegar a casa do infantário (princípios dos anos 90) e de me encantar com uma série de animação da RTP que era uma adaptação de Os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas. A minha mãe achava um piadão àqueles desenhos animados e pediu ao meu avô para me gravar a série. 
Entretanto também vi os filmes, com especial destaque para a versão de 1948 (com Gene Kelly e Lana Turner), Os Três Mosqueteiros de 1993 e O Homem da Máscara de Ferro (1998).
Foi sempre uma história que me interessou e com a qual me identifico bastante. Há valores intemporais que este universo transmite, tais como a amizade, a honra, a tolerância, a liberdade e a justiça social. Perguntei-me várias vezes qual seria a história que antecedia Os Três Mosqueteiros, numa reflexão bem ao estilo do que George Lucas fez com a saga de Star Wars.

Ao contrário da obra de Dumas, na coleção “Os mosqueteiros”, Richelieu é o herói. Porquê?
Em muitas adaptações ao cinema, televisão e livros, a visão de Dumas sobre este personagem histórico acaba sempre por ser muito demonizado. 
Adotei esta perspetiva de modo a poder explorar uma das personagens que considero mais fascinantes no livro de Dumas. Quero conhecê-lo, saber qual foi o seu percurso e o que lhe aconteceu para estar do lado oposto dos mosqueteiros. 
Nesta história conhecemos Richelieu na sua juventude. Tentei respeitar, sempre que possível, a sua biografia e adaptá-la à narrativa. 
Vai haver uma metamorfose deste personagem na próxima aventura da coleção e que vai culminar no antagonista que Dumas nos apresenta. 

A coleção é acompanhada de ilustrações da sua autoria. Que papel lhes atribui?
É um papel complementar que serve para reforçar a minha visão da história e visto que sou formado nessa área, prefiro ser eu a criar do que pedir a outra pessoa que implemente a sua visão. Por outro lado, defendo que um livro direcionado a crianças e jovens deve ter ilustrações. 

Depois de Paris, Florença e Londres, qual será o próximo destino de Richelieu?
O próximo destino de Richelieu vai ser Macau. Aproveito um facto verídico para dar asas à imaginação e desenvolver uma história no Oriente. Vamos também ter personagens portuguesas de grande relevância para a narrativa. Para além disso, no final do volume regressamos a França para desvendar a origem da famosa Milady de Winter. Um facto que vai estar sempre presente desde o início do livro.

Francisco Sousa Faria da Silva é o autor da coleção Os Mosqueteiros com os títulos A conspiração de sangue, O segredo de Leonardo da Vinci e Os salteadores da Torre de Londres.

19-01-2018

Ainda assim, chegámos. Sobrevivemos e isso não é uma atenuante. Talvez seja uma dádiva, embora não esteja certo. Sobrevivemos desencontrados do Natal e eu bem sei porquê. Talvez seja cobardia e uma medida idêntica de vigarice, mas já desisti de resolver essas contradições. Espero pelo Natal quando for possível. Este ano, ele prolonga-se desde o cúmulo do Verão.

No final daquele mês de Agosto, demoro-me pelo quintal da minha mãe, escondendo-me à vez de mim mesmo e na placidez das sombras. Pelo muro de pedra irradia a vinha, vergada pelo peso dos cachos e de um desalento que não compreendo. Procuro as uvas sob as folhas ásperas e nessa deambulação faço por ignorar aquela árvore. Infinitamente mais corajosa, a minha mãe não admite censuras e avança.

- Este ano vamos ter muitas tangerinas.

Cínico, sorrio. No ano passado, tinha sido a árvore do fruto solitário. Dera apenas uma tangerina, sumarenta e doce. Um acaso, portanto. A minha mãe insiste.

- Sim, este ano vamos ter muitas, mas mesmo muitas tangerinas!

A sua exclamação empurra-me para junto da tangerineira. Observo-lhe a copa desengonçada, ligeiramente inclinada para um dos lados, e continuo a desconfiar. Embora as flores despontem promissoras, opto, uma vez mais, pelo cinismo. Afianço à minha mãe todas as contrariedades: Setembro trará tempestades, Outubro variações de temperatura, Novembro o nevoeiro, logo a seguir ao São Martinho. Ela mantém-se irredutível na sua esperança e eu, tonto, não entendo aquela sua insistência.

Neste Natal, sobrevivemos, mas não sobrevivemos todos. Bem sei por que me desencontro dele, entre cobardias e vigarices, apenas porque é demasiado doloroso reconhecer todas as ausências. A árvore? Carregou-se de frutos, tangerinas doces e sumarentas. São todas as dádivas que, afinal, nos faltam na árvore artificial que permanece apagada, ao meio da sala.

Francisco Simões é o autor de Portismo à maneira curta.

22-12-2017

Eram tempos mágicos, aqueles. Tempos em que a magia acontecia sem que eu me apercebesse disso. A magia das coisas absurdamente simples, que sempre nos aconchega a alma e que vai construindo as nossas memórias de felicidade.
O pinheiro (natural) que eu ia comprar com o meu avô, sempre a 8 de Dezembro, numa venda junto da farmácia (e pergunto-me, agora, como seria a vida do vendedor de pinheiros durante o resto do ano…) e a areia, trazida da praia, para encher o vaso onde o pinheiro era colocado, para, vaidoso, se enfeitar com bolas de todas as cores, naquilo que hoje seria, sem qualquer dúvida, considerado um atentado aos cânones estéticos dominantes (e pergunto-me, agora, que raio podem os cânones estéticos perante a felicidade pura do brilho daquela árvore…).
E, junto ao vaso, o Presépio: musgo e figurinhas de loiça, toscas e coloridas, onde o sagrado convivia, alegremente, com o profano e a História se misturava, fazendo-nos acreditar que o Menino teria nascido numa qualquer aldeia beirã, onde os camelos constituíam fauna autóctone, a par com os burros e as ovelhas, e a lavadeira, eternamente ajoelhada junto ao regato de papel de prata, seria uma excelente confidente para a Virgem Mãe. 
Fazia, ainda, parte desta alegoria visual, um tocador de tambor, de fatiota garrida que, numa qualquer refrega com as crianças das sucessivas gerações, perdera uma mão, facto que, seguramente, limitaria o seu desempenho musical. Escusado será dizer que, dentre todas (e perdoe-se-me o desrespeito…), esta era a minha personagem favorita, e a quem, consequentemente, eu procurava, com empurrãozinhos discretos, dar lugar central no cortejo, mesmo, mesmo em frente da sagrada cabaninha (de telhado de palha) onde repousava o Menino, vigiado por seus pais e, certamente, tão ansioso como eu, pelos presentes de Natal que, no seu caso, lhe haveriam de ser trazidos pelos três Reis Magos e, no meu caso, me seriam trazidos pelo próprio Menino Jesus que, na noite de 24 de Dezembro, se haveria de levantar do conforto das suas palhinhas, para descer pela minha chaminé, transportando aquela exacta boneca, de cabelos loiros e olhos profundamente azuis, que me acenara numa montra do Chiado. 
Claro que, e certamente para aligeirar o esforço da empreitada de uma noite trabalhosa, o Menino parecia ter já deixado a caixa da boneca, embrulhada em papel brilhante e adornada com um laço de fita, no cimo do guarda-fatos do quarto de meus avós, o que poderia ser, apenas, interpretado como sinal de previdência e capacidade de antecipação do Menino…
Se a anarquia colorida das bolas do nosso pinheiro seria, hoje, capaz de chocar as pretensões decorativas das revistas de moda, a verdade é que ela tinha uma rival poderosa nas iluminações de Natal da cidade. Das árvores do Rossio e das fachadas da Baixa, penduravam-se lâmpadas coloridas: azuis, verdes, encarnadas, amarelas… Tão coloridas e brilhantes que os olhos teimavam em se arregalar de espanto e maravilhamento, como antes, durante a tarde, se tinham arregalado, de proporcional encantamento, na inevitável sessão de circo no Coliseu, ante o desajeitamento dos palhaços, os brilhos prateados dos fatos das trapezistas ou as habilidades dos cãezinhos amestrados, cuja actuação acabava por ficar injustamente apagada pela exuberância de gestos e carnes da sua dona/amestradora.
E esse dia, repetido ano após ano, era um dos momentos altos da quadra: o circo, o jantar de frango assado no Bonjardim e o passeio pelas ruas, onde o calor dos sorrisos se misturava com o aroma do bolo-rei acabado de cozer, sempre de mão dada com o meu avô, que, enquanto caminhávamos, me contava, como ninguém, nunca mais, as histórias inventadas mais reais de todos os tempos.
E hoje sei-o: eram tempos mágicos, aqueles!

Maria José da Silveira Núncio é a autora de Calor.

22-12-2017