Apaixonei-me por Florença aos 17 anos, durante uma viagem de carro a Itália com a família. Tendo a sorte de desde então já ter viajado muito pelo mundo, continua a ser a minha cidade talismã. Foi lá que voltei numa inédita viagem solitária, com o meu primeiro subsídio de férias. Um presente que ofereci a mim próprio: voltar a ver o Duomo e passear nas margens do Arno.

Foi por isso sem surpresa que escolhi Florença para o cenário do primeiro romance que me aventurei a escrever. Surpresa acabou por ser receber um telefonema 15 anos depois com o anúncio de que Letizia ia ser publicado. 

Um amigo, Nuno Ferrão, com quem escrevi aquele que foi, para ambos, o primeiro romance publicado, Estórias Limbidinosas, decidiu ir ao baú recuperar Letizia e enviá-lo a uma editora, com o meu consentimento pouco entusiasta. A verdade é que a ele, e ao entusiasmo da Coolbooks, devo o prazer de ter redescoberto Letizia e de convosco poder partilhar a minha paixão por Florença e a atração pelo mistério e romance. 


André Curvelo Campos é o autor de Letizia.
06-03-2018




A propósito do meu novo livro, foi-me sugerido um esclarecimento logo à partida: que sinistros pontos de contacto se poderão estabelecer entre a figura aparentemente simpática de um ouriço-cacheiro e uma coleção de contos aparentemente sobre o amor?

À partida nenhuns, dirão os leitores mais apressados, e com alguma razão, confirmo eu. O título de um livro de histórias de amor deveria incluir o nome de algum lugar romântico como Veneza, Paris ou Toscânia, ou de um lugar exótico como uma ilha deserta, um farol isolado ou o extremo oriente. Aí sim, existe amor. A ter nomes de animais, então deveriam ser nobres como os de algumas aves ou de grandes felinos.

Mas porquê um ouriço?

É verdade que tem uma aparência encantadora, inofensiva, confiável até. Um bichinho amoroso. Quase nos esquecemos que é um animal solitário, o maior mamífero insectívoro e que, quando se sente ameaçado, se enrola, formando uma bola de espinhos que põe à distância qualquer predador que o tenha confundido com o jantar.

O amor e um ouriço-cacheiro. Acreditem que não é fácil lidar com nenhum dos dois, como se poderá comprovar ao longo das nove histórias que compõem o livro. 

Humberto Duarte é o autor de Um anjo pela metade.
02-02-2018

¿O meu amor pela música começou cedo, e muito por influência dos meus amigos, a maioria deles mais velhos do que eu. As primeiras bandas que me cativaram foram Pink Floyd, Depeche Mode, U2 e Xutos e Pontapés. Destas, continuo a seguir atentamente os Depeche Mode, que têm sabido manter-se relevantes e actuais, o que não é de estranhar, já que estiveram sempre muito à frente do seu tempo.

O desejo de fazer música e de escrever surgiu com os Alice in Chains, dentre a cena grunge a banda que logo me cativou pela sua música mais pesada e letras que falavam de desespero e abandono. Comecei a tocar guitarra e a escrever letras porque queria imitar os meus ídolos, Layne Staley e Jerry Cantrell. Em paralelo, queria escrever histórias como o Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft, Borges e J.G. Ballard, dando por mim a pensar, por vezes, quando estava a ler, que, se tivesse sido eu a escrever aquela história, o teria feito de maneira distinta. 

Mais tarde, uma vez mais por influência de amigos mais velhos e conhecedores, fui exposto à música industrial, o meu género de eleição pelas possibilidades infinitas que oferece. Na música industrial há espaço para tudo: samples, guitarras, teclados, cordas, berbequins, field recordings e found sounds, gritos e sussurros. No princípio dos anos 00, adquiri software para fazer música, e desde então não parei. 

Em 2006, fui convidado a participar numa compilação da Thisco Records, juntamente com Tatsumaki e Devhour; na altura, fazia música sob o nome de City of Industry. Continuei a disponibilizar a minha música através do meu blog (Android:Apocalypse), paralelamente à publicação dos meus livros sob a chancela da Coolbooks. 

A crescente contaminação da minha música pela minha escrita, e vice-versa, levou a que, mais do que duas linhas, as duas actividades começassem a seguir a mesma; as faixas iam buscar nomes de contos e de personagens, servindo como banda-sonora para uns e para outros, e as minhas histórias iam buscar referências à minha actividade como músico, por exemplo, o Festival City of Industry, referido no conto Kronenburg, que foi buscar o nome ao meu antigo projecto, entretanto abandonado para dar lugar ao nome com que assino os meus livros.

2018 marca o princípio da minha associação com a EnoughRecords Netlabel, uma editora não-lucrativa de partilha de música online, presente em inúmeras plataformas, tais como  Scene.Org, Internet Archive, Sonic Squirrel, Free Music Archive, Bandcamp, Jamendo, LastFM, etc, com o lançamento do álbum City of Industry: Slow Gun, que espero ser o primeiro de muitos.

António Bizarro é o autor da Trilogia Cidade da Indústria, onde figuram os títulos: O longo caminho de regresso, O motor do caos e da destruição e O desejo e outros demónios.
23-01-2018



Capturados Os salteadores da Torre de Londres, procuramos a origem de Os Mosqueteiros, a coleção de Francisco Sousa Faria da Silva.

Das artes visuais rumou à literatura e dedicou-se a escrever para crianças e jovens. Porquê?

Cresci no meio dos livros e foi desde muito jovem que comecei a gostar de ler, escrever e desenhar. 
Em criança, no tempo livre que tinha, entre estudo, desporto e brincadeiras com os amigos, arranjei sempre lugar para a leitura e para o desenho. Gostava de escrever pequenas histórias e depois ilustrá-las. Mais tarde isso influenciou bastante os meus estudos em artes visuais e depois a licenciatura em cinema. Escrever e desenhar foram sempre atos essenciais para a minha vida e o público juvenil permite ligar de uma forma muito natural a ilustração e o texto.  
 
O que o motivou a escrever sobre a origem de “Os Três Mosqueteiros”, de Alexandre Dumas?
O meu interesse nesta história deve-se principalmente ao meu avô. Lembro-me, no tempo da minha infância, de chegar a casa do infantário (princípios dos anos 90) e de me encantar com uma série de animação da RTP que era uma adaptação de Os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas. A minha mãe achava um piadão àqueles desenhos animados e pediu ao meu avô para me gravar a série. 
Entretanto também vi os filmes, com especial destaque para a versão de 1948 (com Gene Kelly e Lana Turner), Os Três Mosqueteiros de 1993 e O Homem da Máscara de Ferro (1998).
Foi sempre uma história que me interessou e com a qual me identifico bastante. Há valores intemporais que este universo transmite, tais como a amizade, a honra, a tolerância, a liberdade e a justiça social. Perguntei-me várias vezes qual seria a história que antecedia Os Três Mosqueteiros, numa reflexão bem ao estilo do que George Lucas fez com a saga de Star Wars.

Ao contrário da obra de Dumas, na coleção “Os mosqueteiros”, Richelieu é o herói. Porquê?
Em muitas adaptações ao cinema, televisão e livros, a visão de Dumas sobre este personagem histórico acaba sempre por ser muito demonizado. 
Adotei esta perspetiva de modo a poder explorar uma das personagens que considero mais fascinantes no livro de Dumas. Quero conhecê-lo, saber qual foi o seu percurso e o que lhe aconteceu para estar do lado oposto dos mosqueteiros. 
Nesta história conhecemos Richelieu na sua juventude. Tentei respeitar, sempre que possível, a sua biografia e adaptá-la à narrativa. 
Vai haver uma metamorfose deste personagem na próxima aventura da coleção e que vai culminar no antagonista que Dumas nos apresenta. 

A coleção é acompanhada de ilustrações da sua autoria. Que papel lhes atribui?
É um papel complementar que serve para reforçar a minha visão da história e visto que sou formado nessa área, prefiro ser eu a criar do que pedir a outra pessoa que implemente a sua visão. Por outro lado, defendo que um livro direcionado a crianças e jovens deve ter ilustrações. 

Depois de Paris, Florença e Londres, qual será o próximo destino de Richelieu?
O próximo destino de Richelieu vai ser Macau. Aproveito um facto verídico para dar asas à imaginação e desenvolver uma história no Oriente. Vamos também ter personagens portuguesas de grande relevância para a narrativa. Para além disso, no final do volume regressamos a França para desvendar a origem da famosa Milady de Winter. Um facto que vai estar sempre presente desde o início do livro.

Francisco Sousa Faria da Silva é o autor da coleção Os Mosqueteiros com os títulos A conspiração de sangue, O segredo de Leonardo da Vinci e Os salteadores da Torre de Londres.

19-01-2018

Ainda assim, chegámos. Sobrevivemos e isso não é uma atenuante. Talvez seja uma dádiva, embora não esteja certo. Sobrevivemos desencontrados do Natal e eu bem sei porquê. Talvez seja cobardia e uma medida idêntica de vigarice, mas já desisti de resolver essas contradições. Espero pelo Natal quando for possível. Este ano, ele prolonga-se desde o cúmulo do Verão.

No final daquele mês de Agosto, demoro-me pelo quintal da minha mãe, escondendo-me à vez de mim mesmo e na placidez das sombras. Pelo muro de pedra irradia a vinha, vergada pelo peso dos cachos e de um desalento que não compreendo. Procuro as uvas sob as folhas ásperas e nessa deambulação faço por ignorar aquela árvore. Infinitamente mais corajosa, a minha mãe não admite censuras e avança.

- Este ano vamos ter muitas tangerinas.

Cínico, sorrio. No ano passado, tinha sido a árvore do fruto solitário. Dera apenas uma tangerina, sumarenta e doce. Um acaso, portanto. A minha mãe insiste.

- Sim, este ano vamos ter muitas, mas mesmo muitas tangerinas!

A sua exclamação empurra-me para junto da tangerineira. Observo-lhe a copa desengonçada, ligeiramente inclinada para um dos lados, e continuo a desconfiar. Embora as flores despontem promissoras, opto, uma vez mais, pelo cinismo. Afianço à minha mãe todas as contrariedades: Setembro trará tempestades, Outubro variações de temperatura, Novembro o nevoeiro, logo a seguir ao São Martinho. Ela mantém-se irredutível na sua esperança e eu, tonto, não entendo aquela sua insistência.

Neste Natal, sobrevivemos, mas não sobrevivemos todos. Bem sei por que me desencontro dele, entre cobardias e vigarices, apenas porque é demasiado doloroso reconhecer todas as ausências. A árvore? Carregou-se de frutos, tangerinas doces e sumarentas. São todas as dádivas que, afinal, nos faltam na árvore artificial que permanece apagada, ao meio da sala.

Francisco Simões é o autor de Portismo à maneira curta.

22-12-2017