Urbis et Orbis



Saint Paul é o centro do meu universo ficcional, uma cidade-Estado algures a meio caminho entre a Europa e as Américas, e essa é uma das razões principais pela qual as personagens que nela vivem têm nomes anglo-saxónicos, eslavos, escandinavos, germânicos ou latinos. Situar histórias numa cidade fictícia é algo que já foi feito por vultos da literatura maiores do que eu, que sou ainda um mero vislumbre: Lovecraft tinha Arkham, Garcia Márquez Macondo e Faulkner o Condado de Yoknapatawpha.

São Paulo, a cidade onde nasci, e o Barreiro, a minha «capital da memória», com Lisboa ali tão perto e tão longe, fundiram-se numa só e deram origem à ciclópica e megalómana Saint Paul. A Nova Iorque da América do Sul, «a cidade que nunca pára», emprestou a sua dimensão de metrópole e pouco mais: a ela regressei uma única vez em adulto, embora mantenha ligações familiares e afectivas com ela. O Barreiro, por outro lado, está muito mais presente naquilo que escrevo; por exemplo, o Festival City of Industry, referido no conto Kronenburg, incluído no livro O motor do caos e da destruição, deve a sua existência a duas mui nobres instituições barreirenses: o Barreiro Rocks e o OUT.FEST – Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro. O primeiro concerto de Ty Segall em solo europeu não foi em Berlim ou Londres, foi no Barreiro, na décima edição do Barreiro Rocks, e o OUT.FEST já trouxe, entre muitos outros, Mark E. Smith e os seus The Fall à «terra de sonho e futuro».

A nomenclatura utilizada no baptismo das minhas personagens tem também a ver com o facto de estar habituado a nomes diferentes. A minha avó materna era de ascendência italiana e chamava-se Rosa Del Favore. O meu padrinho de baptismo (nascido em Alexandria, Egipto, filho de pai jugoslavo e mãe italiana), chama-se Frank Kovac (e faz uma «aparição» especial no conto Androctonus), e o meu ex-cunhado é um macedónio muçulmano de origem turca cujo apelido (Mustafa) já lhe trouxe alguns dissabores quando quer viajar. Apesar de ter nascido no Brasil, tenho um nome até bastante normal; escapei por um triz a chamar-me Steve, e devo isso à circunstância feliz de a minha mãe gostar do compositor e músico Tom Jobim ( António Carlos).



A divisa de Saint Paul (Sancto Paulo spatium est urbis et orbis idem), foi decalcada da expressão latina cunhada por Ovídio, «Romanae spatium est urbis et orbis idem», o que, livremente traduzido, quer dizer que o mundo e a cidade de Roma partilham o mesmo espaço. Estudei latim na escola, mas via-me grego com as declinações, pelo que é bem possível que a minha adaptação contenha algum erro, o qual, se vier a ser apontado por alguém mais conhecedor do que eu, será justificado por mim como um arroubo de liberdade artística.

António Bizarro é o autor de O longo caminho de regresso e do mais recente O motor do caos e da destruição


Por opção do autor, este texto não segue o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
04.04.2017