Autores em leituras: «O motor do caos e da destruição» por Nuno Ferrão



Concederam-me o privilégio de mergulhar no estranho mundo do António Bizarro. Um mundo dark de tão gótico. Tivesse eu aptidões cinematográficas ou de esboçar traços sobre o papel, teria material para um filme em ‘modus Memento’ ou uma novela gráfica.

O motor do caos e da destruição é uma bula às minhas limitações criativas. Não tenho rodagem para adaptar o que é tão fértil.

A rodagem do António Bizarro tem alta voltagem. Rima e é tão verdade. Passamos por metamorfoses, enredos policiais, seleções artificiais da espécie humana, tudo numa violenta crueza, que nos inflama a derme.

Cada parte de cada capítulo é um ‘stomach punch’. A certa altura, encosta-nos às cordas. Adoptamos uma defensiva, que não nos serve de nada, tal o manancial de pancada.

A história está desestruturada, o que nos afinca o foco (perdoem a cacofonia). Perdi-me muitas vezes. Tive de recuar para me reencontrar. Histórias de histórias, que antes semearam outras histórias e que se desmultiplicam em outras histórias.

As personagens multiplicam-se, desencaixam-se para se voltarem a enquadrar lá mais para a frente.

Uma história diferente e nada cronológica. É um desassossego que nos vincula até à última linha. Fiquei fã.

Nuno Ferrão, futuro autor Coolbooks
16.05.2017