Texto, fotografia e emoções.



¿Não deixo de pensar na importância dos afetos e dos efeitos da memória na nossa vida. Faço por isso questão de incluir na vida de cada personagem que crio, bem como na forma em como cada um deles se relaciona dentro da própria história, temas que pretendo que não sejam estranhos para a própria vida e experiências do leitor, convidando-os assim à leitura. 

"Voltar a ti", o meu segundo romance, problematiza a perda e a transformação. Parte substancial do romance conta uma história de mudança e de aceitação difícil do risco que todas as transformações e perdas podem causar. Ao mesmo tempo, o amor sobrepõe-se a todos os sentimentos expostos na narrativa, valorizando-o como uma das maiores fontes da felicidade humana. 
Cada capítulo é acompanhado por uma fotografia. Todas elas, parecem ter nascido de uma forma especialmente concebida para cada palavra, para cada parágrafo, parecendo decorar cada um dos sentimentos e sensações transmitidos ao leitor. 
A Sara Augusto consegue juntar emoções a todas as fotografias que escolheu para o "Voltar a ti". Na verdade, as suas fotografias são como ela mesma. Mais emoção que razão. Mais sentir do que pensar. Conheço a Sara Augusto há mais de 30 anos. Entrámos no mesmo dia para a universidade, para faculdades diferentes e rapidamente nos tornámos amigos. Não imaginávamos que, 30 anos depois, iriamos juntar as suas fotografias aos meus textos. De facto, depois de "O rio de Esmeralda", confirmámos que o seu talento sem fim, exposto em cada uma das suas fotos, completaria exemplarmente o "Voltar a ti".
O romance divide-se entre o espaço do interior do país, o espaço da cidade e a paisagem à beira mar, entre o exterior das emoções e o interior dos corpos, a quietude da perda e da dor ao movimento da descoberta e da viagem. As fotografias que a Sara escolheu para cada um dos cenários trouxeram ao livro toda a sua qualidade como fotógrafa, mas também a sensibilidade que lhe conheço há mais de três dezenas de anos.
O "Voltar a ti", à medida que foi sendo construído, foi sendo recheado com sugestões fotográficas que a Sara me ia enviado de Macau, cidade onde ensina literatura no ensino superior. Na verdade, não existe distância que consiga impedir a química que pode acontecer entre o texto e a fotografia. Tal como a amizade que nos liga desde 1986.

12.12.2017