Está tudo bem!

Falemos do Natal...

Não da perspetiva católica; daquilo que seria suposto ser o Natal e tal...
Todos sabemos que o Natal, tal como a Páscoa, o São Valentim e tantos outros, por esse mundo fora, transformaram-se em algo completamente diferente das suas origens; hoje são profundos apelos ao consumismo disfarçados de algo maior...
Mas está tudo bem!  Desde que tenhamos consciência disso; está tudo bem. Alguns dos maiores males do mundo nasceram de atos inconscientes, por isso, enquanto estivermos conscientes, nenhum mal maior há de vir. Mas o que é que isto quer dizer?
Quer dizer que desde que não acreditemos que as prendas que estamos a comprar são para celebrar o nascimento do menino Jesus, não há qualquer problema.
Podem dizer que é porque é Natal; é a mais pura das verdades. Hoje, e já há muitos anos, há a tradição de se oferecerem prendas no Natal; em tempos, essas prendas eram simbólicas e pretendiam, apenas, relembrar o momento em que os Reis Magos haviam ofertado coisas simples, como a mirra, ao menino nas palhinhas. Entretanto tudo evoluiu para este esparrame de dinheiro que se gasta em prendas e prendinhas... Se há dinheiro, está tudo bem, também. O pior é quando não há e quando as pessoas usam o cartão de crédito para comprar as prendas que - em boa verdade - não podem comprar.
E é nesta altura que se ouvem os arautos das boas virtudes dizerem que as pessoas deveriam viver o Natal pelo que ele é, pelos símbolos que ele evoca, e não sucumbirem aos apelos do consumismo. No entanto, o Natal já não é só isso há muito tempo; o Natal é hoje muito mais do que aquilo. O Natal é, hoje, esta festa enorme para a qual o nascimento de menino Jesus serve de justificação.
Peço aos crentes - profundos - que me desculpem. Não pretendo ofender ninguém. Mas a verdade é que, para a maioria das pessoas, o peso que o nascimento do Deus menino tem no Natal, é irrelevante.
Alguns de vós devem estar a perguntar-se: então, onde é que este está a querer chegar; é a favor do quê?
Eu não estou a querer chegar a lado algum. Estou apenas a constatar como são as coisas. Para alguns - muito poucos - o Natal tem tudo que ver com a sua origem, o nascimento de Jesus Cristo; para outros, tem tudo que ver com a alegria da festa, as prendas, as luzes, a Árvore e o Pai de Natal... E está tudo bem!
Está tudo bem, porque o Natal deve acima de tudo ser uma época de tolerância, paz, harmonia, luz e prosperidade; tudo valores importantes que devem ser vividos da melhor maneira por cada um de nós. Por isso, se preferes o lado mais eucarístico da época, pois deverá ser por esse lado que os vivas; se preferes o lado mais profano, que seja por esse. E está sempre tudo bem... Desde que tenhamos consciência disso.
O mais importante de tudo é sermos sempre conscientes, termos consciência das motivações das nossas opções, porque somente isso nos poderá dar paz de espírito; e isto é um conselho para a vida, não é só para o Natal.
Talvez seja por isso que eu, todos os anos, no Natal - na noite, para ser mais concreto -, goste de me retirar dos festejos por alguns minutos; isolar-me do espírito profano que tomou conta do mundo. Procuro sair para a rua, ou, na impossibilidade, ir para uma varanda ou quintal, levantar os olhos para as estrelas, sentir o frio, e ouvir o silêncio que caiu sobre mundo naqueles instantes antes da meia-noite; é aquele o verdadeiro som da Terra, é naquele momento que sinto o espírito-santo e é naquela altura que eu celebro o Natal - o meu Natal.
Tudo o resto, as prendas e prendinhas, faz parte do folclore; eu gosto - e muito - mas tenho consciência de que não é só aquilo, o Natal.
Há 2017 anos aconteceu algo muito importante para todos nós; ninguém sabe ao certo o que foi, mas dizem-nos que foi só o nascimento de uma criança. E, no entanto, eis-nos aqui, 2017 anos depois, um planeta inteiro a celebrar o aniversário dessa criança...
Há que ter consciência de o que o Natal é muito mais do que prendas e prendinhas e que, entretanto, se tornou muito mais, também, do que o nascimento dessa criança.
Se tivermos essa consciência... Está tudo bem!


PJ Vulter é o autor de Marta.
18.12.2017