Não arrefeças, Natal

Sento-me no sofá com a caneca de chá sobre as pernas. O calor da água acabada de ferver queima e tenho de aliviar-lhe o peso a espaços. Um quase despertar do entorpecimento que sinto nesta tarde. Faltam poucos dias para o Natal. As luzes piscam numa sintonia que combina com as músicas da quadra. Todas iguais. Aposto que a cadência deste piscar é igual em todos os pacotes de luzinhas à venda. Das coloridas às brancas. Das que duram dez natais às que sobrevivem só um. O chá continua quente.  E eu continuo submergida nesta nostalgia que me embrulha o estômago. Já não sei se gosto de ti, Natal. Chegas cada vez mais depressa. De um salto. A árvore quase que se mantém como elemento decorativo anual. Chegas cheio de anúncios a perfumes, a brinquedos disparatados e inúteis, a promoções fictícias. Chegas sem o espírito característico de outros tempos. Sem o cheiro a Inverno, a lareiras acesas e a pinheiro apanhado, enfeitado a algodão. Eu sei, não podemos apanhar pinheiros. Mas, antes de tudo se tornar proibido, podíamos sair numa manhã de domingo, procurar um pinheiro redondo e não muito alto e fazer dele amigo durante o mês de Dezembro. O preferido e esperado Dezembro. Podíamos comer doces ao pequeno-almoço na manhã de vinte e cinco e esperávamos ansiosamente pela boneca que gargalhava, na noite de vinte e quatro. Agora, chegas depressa. Demasiado depressa. Carregado de uma quase obrigação de compra. Meio atrasado para a passagem de ano e a querer, à força, que o ano acabe e que mais um ciclo se feche. Obrigas-nos à reflexão anual. Obrigas-nos ao presente sem futuro, porque se compra o insignificante, em vez de se abraçar o muito e o que permanece. Estás desvirtuado, Natal. Estás perdido entre o consumismo exacerbado e a sofreguidão de te ver chegar em Outubro. Em Outubro já existes nas montras, Natal. Não achas demasiado? E, para mim que te amava, começo a perder o norte. A não saber a quantas ando. A repensar o conceito enquanto o chá me arrefece nas mãos. Não quero que as luzes se apaguem, mas pareces-me meio perdido e desorientado, também. Não era isto que querias, pois não? Eu prefiro a mesa farta. Os sonhos fritos e a pingar óleo.  Prefiro as fatias douradas e o tronco de Natal enfeitado com o pinheiro de plástico, versão miniatura. A fava no bolo rei. O brinde que era, quase sempre, uma chucha metálica a cheirar a ferro. Eu prefiro o Natal do antes de tudo ter glúten e lactose e excesso de calorias.  O Natal dos presentes ansiados e abertos em família. Comedidos e apreciados. Hoje, os miúdos nem sabem quem lhes deu o quê. É tudo efémero. Metáfora da vida. Mas eu tento. Eu ponho o Chris Rea no máximo e canto um Driving Home For Christmas, mesmo sem sair da minha sala. Monto o pinheiro e coloco a estrela no topo. Lembro-me do meu avô que chorava sempre que me via doida de emoção, não por comer bacalhau com grão, mas porque aquela noite tinha um sabor especial. A família. A encanto. À verdadeira magia. Mas eu tento. Não te quero deixar arrefecer sobre as pernas, mesmo que o chá vá sendo bebido. Não me deixes desistir de ti, porque tu podes viver em cada um de nós se assim quisermos. Se por isso fizermos. Se pararmos para pensar, nesta correria em que se tornou a vida, e nos ocuparmos menos com as escolhas das prendas e mais com a escolha das pessoas. Essas, sim, importam. E algumas já não se podem comover connosco em todos os Natais. A vida é rápida e escorregadia. Sê lento, Natal. Não tenhas pressa. Deixa-nos viver-te com amor.  

Susana Amaro Velho é autora de As últimas linhas destas mãos.
20.12.2017