Memórias de Natal

Eram tempos mágicos, aqueles. Tempos em que a magia acontecia sem que eu me apercebesse disso. A magia das coisas absurdamente simples, que sempre nos aconchega a alma e que vai construindo as nossas memórias de felicidade.
O pinheiro (natural) que eu ia comprar com o meu avô, sempre a 8 de Dezembro, numa venda junto da farmácia (e pergunto-me, agora, como seria a vida do vendedor de pinheiros durante o resto do ano…) e a areia, trazida da praia, para encher o vaso onde o pinheiro era colocado, para, vaidoso, se enfeitar com bolas de todas as cores, naquilo que hoje seria, sem qualquer dúvida, considerado um atentado aos cânones estéticos dominantes (e pergunto-me, agora, que raio podem os cânones estéticos perante a felicidade pura do brilho daquela árvore…).
E, junto ao vaso, o Presépio: musgo e figurinhas de loiça, toscas e coloridas, onde o sagrado convivia, alegremente, com o profano e a História se misturava, fazendo-nos acreditar que o Menino teria nascido numa qualquer aldeia beirã, onde os camelos constituíam fauna autóctone, a par com os burros e as ovelhas, e a lavadeira, eternamente ajoelhada junto ao regato de papel de prata, seria uma excelente confidente para a Virgem Mãe. 
Fazia, ainda, parte desta alegoria visual, um tocador de tambor, de fatiota garrida que, numa qualquer refrega com as crianças das sucessivas gerações, perdera uma mão, facto que, seguramente, limitaria o seu desempenho musical. Escusado será dizer que, dentre todas (e perdoe-se-me o desrespeito…), esta era a minha personagem favorita, e a quem, consequentemente, eu procurava, com empurrãozinhos discretos, dar lugar central no cortejo, mesmo, mesmo em frente da sagrada cabaninha (de telhado de palha) onde repousava o Menino, vigiado por seus pais e, certamente, tão ansioso como eu, pelos presentes de Natal que, no seu caso, lhe haveriam de ser trazidos pelos três Reis Magos e, no meu caso, me seriam trazidos pelo próprio Menino Jesus que, na noite de 24 de Dezembro, se haveria de levantar do conforto das suas palhinhas, para descer pela minha chaminé, transportando aquela exacta boneca, de cabelos loiros e olhos profundamente azuis, que me acenara numa montra do Chiado. 
Claro que, e certamente para aligeirar o esforço da empreitada de uma noite trabalhosa, o Menino parecia ter já deixado a caixa da boneca, embrulhada em papel brilhante e adornada com um laço de fita, no cimo do guarda-fatos do quarto de meus avós, o que poderia ser, apenas, interpretado como sinal de previdência e capacidade de antecipação do Menino…
Se a anarquia colorida das bolas do nosso pinheiro seria, hoje, capaz de chocar as pretensões decorativas das revistas de moda, a verdade é que ela tinha uma rival poderosa nas iluminações de Natal da cidade. Das árvores do Rossio e das fachadas da Baixa, penduravam-se lâmpadas coloridas: azuis, verdes, encarnadas, amarelas… Tão coloridas e brilhantes que os olhos teimavam em se arregalar de espanto e maravilhamento, como antes, durante a tarde, se tinham arregalado, de proporcional encantamento, na inevitável sessão de circo no Coliseu, ante o desajeitamento dos palhaços, os brilhos prateados dos fatos das trapezistas ou as habilidades dos cãezinhos amestrados, cuja actuação acabava por ficar injustamente apagada pela exuberância de gestos e carnes da sua dona/amestradora.
E esse dia, repetido ano após ano, era um dos momentos altos da quadra: o circo, o jantar de frango assado no Bonjardim e o passeio pelas ruas, onde o calor dos sorrisos se misturava com o aroma do bolo-rei acabado de cozer, sempre de mão dada com o meu avô, que, enquanto caminhávamos, me contava, como ninguém, nunca mais, as histórias inventadas mais reais de todos os tempos.
E hoje sei-o: eram tempos mágicos, aqueles!

Maria José da Silveira Núncio é a autora de Calor.

22.12.2017