A árvore dos frutos

Ainda assim, chegámos. Sobrevivemos e isso não é uma atenuante. Talvez seja uma dádiva, embora não esteja certo. Sobrevivemos desencontrados do Natal e eu bem sei porquê. Talvez seja cobardia e uma medida idêntica de vigarice, mas já desisti de resolver essas contradições. Espero pelo Natal quando for possível. Este ano, ele prolonga-se desde o cúmulo do Verão.

No final daquele mês de Agosto, demoro-me pelo quintal da minha mãe, escondendo-me à vez de mim mesmo e na placidez das sombras. Pelo muro de pedra irradia a vinha, vergada pelo peso dos cachos e de um desalento que não compreendo. Procuro as uvas sob as folhas ásperas e nessa deambulação faço por ignorar aquela árvore. Infinitamente mais corajosa, a minha mãe não admite censuras e avança.

- Este ano vamos ter muitas tangerinas.

Cínico, sorrio. No ano passado, tinha sido a árvore do fruto solitário. Dera apenas uma tangerina, sumarenta e doce. Um acaso, portanto. A minha mãe insiste.

- Sim, este ano vamos ter muitas, mas mesmo muitas tangerinas!

A sua exclamação empurra-me para junto da tangerineira. Observo-lhe a copa desengonçada, ligeiramente inclinada para um dos lados, e continuo a desconfiar. Embora as flores despontem promissoras, opto, uma vez mais, pelo cinismo. Afianço à minha mãe todas as contrariedades: Setembro trará tempestades, Outubro variações de temperatura, Novembro o nevoeiro, logo a seguir ao São Martinho. Ela mantém-se irredutível na sua esperança e eu, tonto, não entendo aquela sua insistência.

Neste Natal, sobrevivemos, mas não sobrevivemos todos. Bem sei por que me desencontro dele, entre cobardias e vigarices, apenas porque é demasiado doloroso reconhecer todas as ausências. A árvore? Carregou-se de frutos, tangerinas doces e sumarentas. São todas as dádivas que, afinal, nos faltam na árvore artificial que permanece apagada, ao meio da sala.

Francisco Simões é o autor de Portismo à maneira curta.

22.12.2017