Como nasce "O herdeiro"?


Dizem que não existem coincidências, que tudo acontece por uma razão. Eu discordo. E, até me provarem o contrário, permitam-me que o faça. E tenho uma justificação. 

Um dia, não sei bem por que razão (lá está!), ocorreu-me criar uma personagem que, pelo descrédito, pudesse dizer o que bem lhe apetecesse sobre aquilo que se passava em seu redor: uma espécie de ato purgatório. Notícias,  acontecimentos risíveis, assuntos do quotidiano: tudo alimentava a pena — ou o teclado. Nascia assim, sem razão aparente (e talvez por mera coincidência), o Onório, o poeta «bêbado» (no registo popular que tanto aprecia). A ebriedade conferia-lhe o descrédito desejado. A poesia — em quadra heptassilábica — era a arma de que se servia. 

Esse crítico social acabou por resultar no meu primeiro livro. Criei-lhe a história, fiz dele um castiço de Rubiães, Paredes de Coura (terra que conheço bem) — e escrevi, num tom ligeiro e divertido – como se quer –, o Onório, o poeta bêbado.

Terminada a obra, fiquei com a sensação de que havia mais a dizer, de que essa personagem tinha mais para contar, mas, acima de tudo, de que Rubiães tinha mais para revelar. 

Desde criança que me sinto deslumbrado por um solar que há em Rubiães: peça de luxo, em ruína há várias décadas. Achei que seria interessante, ao menos na ficção, alguém reerguer aquelas pedras e devolver-lhes imponência. Ora, para realizar tal proeza, poderia o Onório ser a pessoa indicada? Não, claro que não! E se fosse outra personagem da terra? E se fosse alguém ligado ao Onório e, simultaneamente, ao solar? E se uma catequista agente imobiliária se intrometesse no negócio? E se o coveiro da terra se apaixonasse por ela? É a todos esses «e ses» que O Herdeiro vai dar resposta, com bom humor. 

Que essas respostas – e todas as desventuras do Manuel – divirtam muito o leitor.


Fernando P. Fernandes é o autor de O herdeiro e Onório, o poeta bêbado.
10.04.2018