Como será o Diogo aos oitenta anos?

                      


Comecei a dar vida ao Diogo quando tinha a idade dele: dezassete anos. Aos poucos fui escrevinhando uma espécie de diário que, no século seguinte, veio a ser publicado como "Desencanto em dó menor". Quis que aquelas páginas fossem o reflexo de um adolescente prestes a deixar a adolescência e entrar no mundo adulto, com toda a carga que está subjacente a essa mudança. Criei um Diogo rebelde, cheio de ideias radicais e originais (pelo menos na cabeça dele), emprestando-lhe muita ironia e sentido de humor pelo caminho. O diário segue a cronologia da vida do Diogo, desde finalista de Liceu até aos primeiros anos como estudante universitário. 

Anos mais tarde, tinha eu abandonado a vida académica e dava os primeiros passos no maravilhoso mundo do trabalho, assaltou-me um pensamento: "como será o Diogo aos quarenta anos?". O Diogo que eu visualizei  foi aquele a que dei voz em "O diário do meu suicídio" e representa um homem que eu, na altura em que o escrevia, jurava a mim próprio jamais vir a ser. Se o Diogo adolescente tem muito do adolescente que fui, o Diogo quase quarentão é alguém que não reconheço de todo. 

Muitos anos mais tarde, a minha vida cruzou-se com a Coolbooks e o Diogo com quase quarenta anos foi publicado quando eu tinha essa exacta idade. Pareceu-me justo acrescentar-lhe o adolescente que ele tinha sido, o que me traz hoje, novamente, às primeiras páginas que escrevinhei, há já uma pequena eternidade. 

Na minha cabeça há um terceiro Diogo, reformado e a viver sozinho, às voltas com aquilo que a vida lhe deu e aquilo que ele conseguiu tirar de bom dela. Um dia, gostava de tirar este terceiro Diogo da cabeça e esparramá-lo em folhas de papel. Não há dois sem três? 

Rui Miguel Almeida é o autor de Desencanto em Dó menoro e O diário do meu suicídio.
30.04.2018