O nascimento do Western Sardinhada
                      


O inglês serve de plataforma comunicacional entre pessoas de todo o mundo sobretudo por ser uma língua pobre. Um machado é um axe, um boi é um ox. Está feito! Assim, sem emoção. “Arte” ou “ofício” – palavras de contorno elegante – resultam em craft, que mais parece uma marca de mini-eletrodomésticos.

Não me move nenhuma antipatia pessoal por aquele idioma. São apenas reflexões de quem não tem mais nada que fazer. Por acaso, até tenho, mas não consigo evitar, volta e meia, um olhar perscrutador sobre o que vem ter comigo. Esta disposição levou-me, há muito, a constatar também que, segundo o cinema americano, toda a criatura que comunique entre si, seja deste planeta ou de uma galáxia distante, o faz em inglês. Dos extraterrestres às legiões romanas, passando pelas cortes francesas ou as formiguinhas da Disney, toda aquela malta fala inglês.

A minha surpresa foi maior quando me dei conta que até os portugueses eram anglófonos! Temos andado enganados estes anos todos. Vejam os jesuítas que viajaram até ao Japão, segundo Scorcese; o pescador de atum em Tiger Shark representado por Edward G. Robinson; ou o Robert de Niro n’A Missão. Mas mais esmagador ainda: pelas mãos do realizador John Brahm, ficamos a saber que a língua oficial em Fátima, em 1917, era também o inglês: “Who’re you talking to, Lúcia?”, pergunta o pastorinho Francisco à prima; “A lady”, responde esta candidamente, de olhos postos na oliveira.

Num assomo refratário, ocorreu-me subverter isto tudo. Sendo Portugal depositário de uma secular vocação universalista, e estando hoje, como nunca, na moda, há que aproveitar esta convergência de ondas e projetá-lo para dimensões ainda mal exploradas. Comecemos por algum sítio: toca a reinventar o Velho Oeste americano, convertendo aquele país num futuro membro da CPLP. Para tal, dêmos-lhe um enredo, respeitando clichês holliwoodescos para facilitar a mensagem, e ponhamos heróis, vilões e demais figurantes a falar português, condescendendo apenas na toponímia e nos nomes dos personagens – por força da origem das famílias que para ali emigravam e fundavam as primeiras cidades, nos séculos XVIII e XIX – e admitindo uma ou outra expressão coloquial em inglês, único vestígio bilingue na obra.

Paulo Selva é o autor de No fim, o herói foge com a rapariga
21.05.2018