O Homem Manso - Nota da Autora e Agradecimentos
                      

Ao Senhor Meu Pai, o meu agradecimento primeiro. Por sortes e acasos, cresci numa família de contadores de histórias familiares de uma família, como todas, aliás, repleta de histórias para contar. Da parte da Mãe, os relatos da existência peculiar de uma família nascida e criada num lugar com nome de coisa nenhuma por entre fantasmas e outras sobrenaturalidades. A(s) história(s) da vida da minha Avó Luísa, nascida Matilde, o mote para o romance Eu, do Nada, resposta a um desafio que me lançou o Pedro Rolo Duarte bem depois de esse lugar com nome de coisa nenhuma ter conhecido um palco inesperado num dos artigos de Miguel Esteves Cardoso que, como todos que não são o Nós de lá, não sabia, nem adivinhou, a razão do nome. Agora viro-me para o lado do Pai.

São dele algumas das aventuras que atribuo a D. Rodrigo. É parte da vida dele, passada nas propriedades alenquerenses dos meus avós, o que agora conto. Dele o vocabulário da ruralidade de um século XX cada vez mais distante da nossa modernidade e dele a informação para descrever as coisas que eu não sabia de quotidianos antigos e campestres, apesar de ter sempre vivido no campo de onde escrevo, à parte os hiatos temporais citadinos do meu nascimento estrangeiro, da minha educação e, na idade adulta, da minha profissão.

Ao Senhor D. Rui de Siqueira de São Martinho, agradeço as memórias que deixou naqueles que com ele tiveram a honra e o privilégio de privar. Não o conheci na fisicalidade dos vivos, mas é como se o conhecesse desde sempre porque é desde sempre que oiço dele. A quinta do D. Rui, como todos lhe chamam na familiaridade que desconhece castas, confinava com os terrenos dos meus avós que com ele mantinham o relacionamento da proximidade devida pela vizinhança e pela amizade. E que personalidade e personagem… Maior do que a vida. Fácil de adivinhar, portanto, que o D. Rodrigo manso e aventureiro, benemérito e ganadeiro, conde e alenquerense presente neste romance seja ficcionado a partir desse reflexo no mundo real. Contudo, não se pretenda ver em D. Rodrigo a biografia de D. Rui que, espero, um dia seja feita, a bem da justiça e da justeza para com os homens bons. 

D. Rodrigo é inteiramente ficcional, como são ficcionais todas as outras personagens deste romance. D. Rui, pelo temperamento da alma grande e amor devotado ao próximo, foi a inspiração para a criação de D. Rodrigo e D. Rodrigo a providencial oportunidade para lembrar um homem esquecido, rememorado apenas num círculo, cada vez mais circunscrito, de gente que vai partindo. Nem tão-pouco o D. Rui real coincide com o D. Rui de quem eu ouvi as histórias já caldeadas pela aura mítica que a morte proporciona a quem cá deixa os vestígios da vida. Conheci um D. Rui nas palavras saudosas dos homens, um D. Rui que quis conhecer apesar dessa impossibilidade. D. Rodrigo é talvez uma homenagem ao homem real que pregava partidas com toiros dentro de casa e mousses de chocolate servidas em penicos de porcelana e que se multiplicava em esmolas aos pobres e caridade para com todos. As coincidências, todavia, acabam aí, porque D. Rodrigo vive por si e é uma criação literária alheia a quaisquer outras particularidades da vida de D. Rui. 

Agradeço, por fim, mas não por último, à Fátima Porém que, tal como o Senhor Meu Pai, me contou histórias do D. Rui e de como se vivia na quinta dele quando ela também lá vivia e que, como todos os bem-aventurados que conheceram o D. Rui de boa memória, também lhe sente saudades.

O Homem Manso é, provavelmente acima de todas as razões, uma tentativa de fixação para tempos vindouros de um modo de vida de outras eras, uma história de gentes de Bem num Portugal que foi aquele Portugal. Que seja inspirado na realidade é apenas a constatação de que, ao fim e ao cabo, nenhuma ficção o é apenas e só.


Nada, 11 de Maio de 2016
Isabel Tallysha-Soares

21.09.2018