A Isabel entre a Tallysha e a Soares
                      


Há uma rábula da saudosa Ivone Silva que associo aos meus primeiros tempos nesta língua e neste país e que, de certa forma, tem a ver com esta coisa da Isabel Soares e da Isabel Tallysha: a Olívia Patroa e a Olívia Costureira. Tanto a Olívia patroa como a Olívia costureira são uma e a mesma pessoa, o mesmo se passa com a Tallysha e a Soares. Têm, no entanto, afazeres diferentes e, por isso, como as duas Olívias, desmultiplicam-se naquilo que são. Durante o dia a Soares é uma profissional da academia, nas horas vagas a Tallysha escreve umas coisas. No entrementes, a Isabel convive com ambas.

Um pseudónimo é um nome outro que esconde o nosso. A Isabel Tallysha-Soares não é um pseudónimo da Isabel Soares pela simples razão de que a Isabel é Tallysha e é Soares. Tal como a Olívia patroa e a Olívia costureira, para umas coisas a Isabel é Soares e, para outras, é Tallysha-Soares, a identidade hifenizada por justaposição e não por quebra e/ou diferenciação. Então, perguntarão, e porque é que a Isabel não é só Soares para tudo ou Tallysha ou Tallysha-Soares? Porque a Isabel, que manda na Tallysha e na Soares como super-patroa, gosta de cada coisa arrumada no seu lugar. A Soares faz ciência e dedica-se ao ensino, a Tallysha gosta de letras e do silêncio da escrita. A Isabel, por sua vez, compartimentaliza a Tallysha e a Soares.

A compartimentalização é uma aprendizagem de vida, uma utilidade que me vem de uma língua que não o Português, de uma cultura que não a portuguesa. “In zeitdichten Schotten denken”, escreveu-me num papelinho há muitos, muitos, anos uma das minhas tias. Explicou-me naquela língua o que é que aquilo queria dizer e fez-me prometer que viveria a vida assim. Prometi. Não consigo traduzir mas é algo como pensar a vida como um navio com os seus compartimentos estanques que o mantêm à tona em caso de iminente naufrágio. E aqui está uma das heranças dessa língua: raramente adjectivo à latina. Poderia e, para os puristas, talvez devesse dizer “naufrágio iminente” mas, na cabeça, soa-me melhor a iminência do naufrágio do que o naufrágio estar iminente. 

A língua portuguesa foi-me outra aprendizagem e, provavelmente, a primeira imposição a que me sujeitei na vida. Não gostei muito. Um ano depois de começar a aprender Português, comecei a aprender Francês e logo no ano seguinte Inglês que era para ler o David Attenborough sem precisar de tradução (e, sim, disse-lhe dessa sua culpa umas décadas depois). Posteriormente, o Inglês agigantou-se e, como é um filho do Alemão, o meu cérebro deu-se bem com ele. Hoje vivo entre o Português, que dominei com obstinada persistência, e o Inglês, que me apareceu com sadia naturalidade. Sonho em Alemão, num Alemão perfeito que já não falo e de que vou ganhando mais e maiores saudades porque os alemães da minha vida me vão morrendo e a saudade é tão intrinsecamente portuguesa. Já me tem acontecido não me dar conta da língua que estou a falar e os episódios caricatos só assumem a sua faceta cómica depois de eu passar o embaraço envergonhado da realização (esse anglicismo) de que estou a falar a língua errada para as circunstâncias. Também entremeio palavras “estrangeiras” no meu discurso quotidiano. Ou porque não me lembro de como se dizem em Português, ou porque a tradução portuguesa é uma artificialidade, ou porque não existem em Português ou, pura e simplesmente, porque são as primeiras que me vêm à mente quando estou a falar e eu quero é despachar as ideias. Não me apercebo conscientemente desse facto a não ser nas vezes em que tenho de falar em público ou com interlocutores com quem devo mesmo falar em Português e me custa encontrar as palavras rapidamente. A única coisa que me molesta é quando dizem que tenho um “ligeiro” sotaque, colocando a ênfase no “ligeiro” com receio da minha reacção. Não tenho nem nunca tive. Tenho apenas, e às vezes, umas ligeiras dúvidas de pronúncia, nada mais do que isso. Já o meu querido Pedro Rolo Duarte dizia que eu falo um “Português antigo”. Explicarei isso numa próxima ocasião…

Na vida real, e talvez por as línguas terem vindo ter comigo desde cedo, sou uma adepta do multilinguismo como património cultural inestimável. As línguas enformam as culturas e o modo de ser dos povos e a sua visão do mundo. O multilinguismo é tolerância. Os portugueses, sendo nostálgicos, desenvolveram uma língua que consiga pronunciar esse sentimento cálido e melancólico que é a saudade. Também são despachados a resolver problemas quando parece não haver recursos ou soluções. Que outra língua diria melhor o “desenrasque” luso? Viver no meio de línguas diferentes entre si é, acima de tudo, um privilégio, dou-me conta. É ter as ferramentas para articular na mente verbal as especificidades do que a alma sente e a alma de cada povo sente na multiplicidade da nossa humanidade. 

No momento em que a Tallysha está entretida a escrevinhar estas linhas, a Soares anda ocupada a escrever uma peça académica em Francês apesar de o Inglês ser a língua habitual de trabalho. Contudo, a Tallysha também vive em Inglês, tal como a Soares habita no Português. O Alemão, por tremenda ironia da vida, ficou para a saudade. É-me língua de afectos e língua primeira e só me apercebo que a minha “normalidade” linguística possa ser um exotismo quando me perguntam, como agora, se eu não escreveria um pouco sobre esta coisa de viver entre línguas. Aqui está. Nunca tinha pensado (muito) nisso…


Nada, 22 de Setembro de 2018.
Isabel Tallysha-Soares   

28.09.2018