O país dos pigmeus: anotações socio-antropológicas




Olhamos para um país pequenino, assim como uma espécie de pequeno rectângulo de terra: de um lado o mar, enorme como sempre são os mares, do outro lado, outro país, maior e mais extrovertido. 

Sim, porque o país dos pigmeus é tímido, embora tente disfarçá-lo, em momentos mais inebriados, geralmente associados ao futebol ou a recordes do Guiness, do género, o maior salpicão do mundo em Mirandela, fenómenos pujantes que, além de muito enriquecedores em matéria de entretenimento televisivo, se revelam particularmente galvanizadores da alma pigmeia.

Por serem pequenos, ou não fosse este o país dos pigmeus, manifesta-se, entre os nativos, uma peculiar tendência para os saltos altos (em sentido figurado, é claro, pelo menos no que aos elementos masculinos diz respeito, sempre prontos que estão, estes pequenos homens, a demonstrações da sua ampla virilidade). 

E é, não há como negá-lo, um gosto vê-los, aos pigmeus, desfilando nas pontinhas dos seus pequenos pés, pelas universidades, pela política ou pelas repartições de finanças: impantes, saltitantes, orgulhosos. Nasceram para o estrelato, os pigmeus. E merecem-no, porque, bem vistas as coisas, sabem sempre de tudo e sobre tudo. Abençoado e clarividente povo, este!

Em momentos mais frágeis – e quem os não tem, afinal? – os nativos pigmeus recordam a grandeza de seus ancestrais que, não sendo grandes, terão feito grande o Mundo, proeza digna de nota, e jamais igualada por outros, pese embora o seu vizinho do lado a reclame, também, na sua tradicional exuberância invejosa. 

Por ser pequeno, o país pigmeu é governado por um grupo, naturalmente reduzido, de pequenas luminárias, numa espécie de sucessão dinástica, só que republicana (embora seja de acreditar que, lá bem no fundo da alma pigmeia, habitem sonhos sebastiânicos de uma monarquia grandiosa – ela sim, capaz de honrar os tais ancestrais que fizeram grande o Mundo).

E são preocupados, os pigmeus! Desengane-se quem, baseado apenas numa observação superficial, afirma o contrário. Preocupados sim, só que em pequena escala, o que é compreensível dado que, e apenas por motivos de estatura, é escasso o alcance da sua visão.

Preocupa-os, sobretudo, o tamanho dos saltos dos outros pigmeus, porque, afinal, há que manter a identidade pigmeia e um pigmeu maior é, claramente, uma séria ameaça à nação. Por isso, o melhor é que os pigmeus que, por infortúnio, miscigenação ou deformação genética, nascem grandes, sejam convidados a sair, não se vá dar o caso de confundirem a pequenez nacional.

Algumas destas criaturas, com a idade e por boa utilização dos saltos altos, tornam-se verdadeiros senadores do país pigmeu. E é um gosto vê-los e ouvi-los: pequeninos, é certo, mas bem-apessoados e fluentes, desdobrando-se em dissertações flatulentas, sobre o tanto que há para fazer para que o país pequeno se faça grande. 

Tão grande que, a par do salpicão de Mirandela, ainda há-de ganhar um lugar no Livro Guiness de Recordes.

11.01.2019