Amar para além dos elementos - Fogo


Em todos os dias em que fui feliz contigo, o sol não me veio saudar, batendo respeitosa continência militar ou fazendo acrobacias no céu, antes de cair fulminante de luz. 

Por vezes, foi apenas igual a si mesmo. Inundou praças e esplanadas, umas concretas, outras distantes, até já nem cabermos nelas ou em nós de contentamento. Mas também derreteu silêncios, estafou o vinho, mordeu conversas. Arrependido de tão planeada malvadez, soube sempre apresentar-se com outros modos, todo ele mavioso, todo ele gabarola. 

Foi então que nos convidou para as coordenadas fortuitas em que nos deparámos com versões irrepetíveis de espanto. Um esconderijo. Uma esquina. Uma tangente qualquer. Simples fragmentos de um instante, unidos uns aos outros à nossa passagem. Orgulhoso desses feitos, deixou-se estar, suspenso no pináculo do meio-dia ou sobre o ocaso, fosse onde fosse, simplesmente a assistir. Fez então passar-se por espectador e cúmplice do nosso deslumbramento. 

Quando, em contraponto, lhe pedimos recato, também soube respeitar-nos. Atento, ofereceu-nos sombras de toda a espécie. Sombras que realçaram o lado cintilante das paisagens. Sombras que dissimularam a imprecisão dos gestos. Sombras grossas, verdadeiras, impenetráveis, que recortaram palavras e as suas tribulações. 

Por fim, confiou-nos as sombras primordiais. A minha sombra. E a tua sombra. A minha sombra em ti. E a tua sombra em mim. Sombras destinadas a ficarem inscritas no passado. Tornaram-se recordações inteiras. Unas. Indivisíveis.


Francisco Simões é autor de Portismo à maneira curta.
08.02.2019