Amar para além dos elementos - Ar

Em todos os dias em que fui feliz contigo, pelos ares nem sempre ecoaram cantos ou poesia. 

É certo que correram brisas honestas, sem remendos, quase todas estivais, embaladas pela indolência de uma maresia longínqua ou intuída. Mas embalaram-nos também outras brisas, pérfidas e encantadoras, tresmalhadas no cortejo de uma Primavera prenhe antes, sequer, das primeiras manifestações do desejo. 

Nos interstícios breves desse quotidiano ameno, desabaram espectaculares vendavais. Aguardámo-los, silentes. Antecipámos os estragos. Renovámos a ideia de que sobreviveríamos. Depois, escutámos as rajadas num sossego dormente.

 Ouvimos o mundo físico ranger, como se todas as articulações da Natureza se contorcessem, tão intemporais quanto ferrugentas. Nem a mais contumaz imaginação nos proporcionou a ansiada fuga, porque jamais igualaria tão viril manifestação congénita. Deixámo-nos estar. Usámos os nossos sentidos para garantirmos mutuamente que sobreviveríamos. 

Quando já só se vislumbrava a cauda de todo aquele caos, mantivemos os sentidos entrelaçados e rechaçámos aquela chantagem useira do temporal que partira com promessas de voltar. Não seriam promessas vãs. Vimo-lo regressar. Tantas e tantas vezes, apenas com nomes diferentes. Tratou-se de um simples artifício de novidade. 

Mas tu e eu sabemos. Sabemo-lo bem. Foi sempre a mesma tempestade que voltou e que voltará para nos fustigar.



Amar para além dos elementos é um conjunto de quatro crónicas, da autoria de Francisco Simões, que pretendem celebrar, quiçá estragar, o Dia dos Namorados: 

Amar para além dos elementos - Fogo



Francisco Simões é autor de Portismo à maneira curta.
11.02.2019