Amar para além dos elementos - Água


Em todos os dias em que fui feliz contigo, a maré não me encheu a alma como devia. 

Nas intermináveis horas de preia-mar, tentei. Juro que tentei. Tentei cobrir os mais tenebrosos abismos do espírito. Improvisei desculpas, simulei amnésias, reclamei ignorância. Falhei rotundamente. Sei como falhei e continuo a falhar.

Como quero poupar-te a todos os precipícios cheios de gravidade que me atraem para a queda em mim mesmo, até ser destroço ou ruína! Quero-te a salvo, rodeada por uma língua da areia ou na altitude de um promontório qualquer, onde possas observar-me na distância, apenas. Como não consegui, viste-me recuar até ao sabugo, roído pelo desmazelo, pela memória incerta, pela distância meditabunda que não é só distracção, pela avareza de todos os dias. E mesmo assim, resististe.
 
Demorámos até flutuarmos ou nos vermos dentro da perene e transparente agitação marítima. Demorámos tanto. 

Mas agora encontramo-nos na interseção exacta das linhas de água com uma promessa. Continuaremos a ser três. 



Amar para além dos elementos é um conjunto de quatro crónicas, da autoria de Francisco Simões, que pretendem celebrar, quiçá estragar, o Dia dos Namorados: 

Amar para além dos elementos - Fogo

Amar para além dos elementos - Ar



Francisco Simões é autor de Portismo à maneira curta.
13.02.2019