Este livro é uma viagem que nos transporta no tempo

 

O livro de Isabel Tallysha Soares, O Homem Manso, é uma obra que narra a história de vida de D. Rodrigo, 8º conde de Monte-Chão, fidalgo de puro-sangue Lusitano. Mas é mais do que isso, é também a história da mulher da sua vida, temida e amada, Dona Mariazinha. Fiel ao princípio de que viver não custa, o que custa é saber viver, como é desde logo citada no início da narrativa, acompanha todos os desmandos do marido.

Este livro pode ser lido como um romance em que a personagem do Conde de Monte-Chão vai passando pela sua vida aventurosa, repleta de episódios contados numa escrita envolvente, fluída e jovial, rica em apontamentos de cultura, que agarra o leitor e nos faz apreciar esse Homem Manso.

Mas penso que deve ser lido para além da narrativa da vida aventurosa de D. Rodrigo.

Este livro é uma viagem que nos transporta no tempo, nos mostra a vida, os hábitos, a nobiliárquica elite e a vontade dos mais afortunados em ascender a ela pelo casamento. Mostra-nos ainda uma aristocracia rural, rica nos seus hábitos, e fala-nos desse convívio de homens e mulheres.

Narra essa necessidade que os machos têm em mostrar que são homens de peito feito para todos os desafios, quer partam costelas e arranquem queixais, ou simplesmente fiquem por um inglório buraco de bala em terras distantes.

Mas também encontramos nas páginas de O Homem Manso a vida de algumas mulheres e das suas existências numa época em que o peso educacional, social e religioso moldava as suas vidas e sentidos, privando-as muitas vezes da vontade própria. Mas todas encontravam refúgio na fé como aconteceu a Dona Mariazinha, passo a citar:

 

Tinha ganas de escorraçar o marido, mas não tinha forças para tal porque tal não era o que o coração lhe ditava. Refugiava-se no abrigo que sempre conhecera na fé e nas escrituras. A oração. A confiança numa força Maior.

 

Aliás, há um Deus presente em toda a narrativa, ou melhor, uma religião que as mulheres, mais do que os homens, seguiam escrupulosamente e que por força do desmando do Conde se irá confrontar com outra fé em terras de África. Algo que Dona Mariazinha nunca compreenderá e será mesmo resiliente, tentando evangelizar uma moura que apareceu na casa da Bella Vista.

Adivinhe-se porquê!

Encontramos no Homem Manso o humor, e a ironia fina, numa escrita que nos envolve desde o primeiro momento.

Esse envolvimento diria simplesmente que começa logo com a exposição das ceroulas de D. Rodrigo na varanda do primeiro andar da centenária casa da Bella Vista! Essa exposição significava que o homem que enfrentava toiros em terreno aberto, ia sofrer as consequências e a condessa Maria da Penitência van Diemen de Carvalho Vasconcellos Freixioso Tortosendo Sabugosa de Brito de Cormorão e Pesanha, lhe ia chegar a roupa ao pêlo por qualquer coisa que entendia que havia acontecido…

E este qualquer coisa estava mesmo a ver-se o que seria. Permitam-me que leia apenas um parágrafo deste início de livro:

 

Ao longo do desenrolar daquele casamento para a vida fora sempre ele que arcara com as contas dos diversos arraiais que a mulher lhe preparava. Umas vezes tinham sido merecidas, e bem merecidas, caramba, que um homem é um homem e o sangue ferve e assoma à mente, e a outos lados, macho que é macho deixa de ver e contar com o tino.

 

Respeitando os gostos e a liberdade de cada um, permitam-me que diga que, na minha opinião, logo nas primeiras páginas somos desafiados a continuar a conhecer D. Rodrigo e a sua amantíssima esposa Maria da Penitência. Penitência nome dado pela mãe mas não completamente seguida por ela. Logo após as primeiras linhas o leitor é levado a querer conhecer mais, pois advinham-se muitos outros enredos e circunstâncias que nos irão envolver nas restantes páginas e também porque quer aprender como se pode saber viver num casamento para a vida cheio de peripécias, ausências e dúvidas de traições devidamente apadrinhadas, e, principalmente, numa benevolência mútua, bem humorada e irónica.

Para além da narrativa da vida aventurosa, bem disposta e direi mesmo por vezes galhofeira do Conde, repleta de episódios cheios de humor, ou não fosse dado a todo o tipo de folganças, para além da ironia subtil da autora no que diz respeito a alguns hábitos ou pretensas virtudes. Vamos encontrar neste livro uma maior riqueza na descrição da vida e costumes da fidalguia daqueles tempos. Vamos encontrar retratos de vida rural ribatejana, da cultura da época, das relações com serviçais, neste caso num respeito romântico e benévolo em muitos outros casos inexistente. Neste livro temos mais, temos os hábitos senhoriais, o religioso intrometido em cada dia e entre cada personagem, os medos e crenças de uma época passada e que hoje merecem ser recordados mesmo que nos façam sorrir.

O que fica escrito é memória futura.

Assim diria que o livro de uma leitura convidativa, bem humorada e recheada de peripécias de um homem manso mas destemido, vai para além da narrativa simples, e deixa ficar memórias de outros tempos e a liberdade de cada leitor as sentir à sua maneira. Basta recordar a forma como são narradas, por exemplo, as fugas dos toiros. Ou como Miss Talking num dos seus dias de trekking quando mostrava o prazer de passear nos pastos aos seus educandos, os ia metendo no meio dos toiros. Hoje é impensável, mas nas primeiras décadas do século passado trabalhadores, homens e mulheres quando andavam em campo aberto temiam encontrar um boi tresmalhado. Casos houve em que crianças e adultos passaram horas em cima de uma oliveira ou figueira até que o animal fosse para outras bandas. Hoje isso não nos passa pela cabeça.

Não era o caso do D. Rodrigo que não temia estes animais e assim o demonstrava no corpo e no casamento em que a mulher candidamente aceitava que tinha sido um casamento a três. Eles e os toiros. Não fora outros interlúdios de ceroulas expostas na varanda. Claro!

Recordam-se hábitos e mezinhas como curar costelas partidas com casca de ovo partida e dissolvida em sumo de limão, seguramente tão eficaz como o Calcitrim e com muito menos efeitos secundários.

Mais interessante é a descrição dos motivos que levaram D. Rodrigo para a guerra do Rife. É sublime, não a decisão, mas o facto desta ser devida à falta de filhos e por isso à necessidade de mostrar que era homem. A masculinidade sempre ligada ao impensado, destemido e despreocupado ímpeto de demonstrar bravura. Uma prova que o leva a descobrir a tolerância religiosa, que o leva a descobrir humanidade mesmo durante a guerra, sentimentos que a autora nos descreve e estes sim, desprovidos de humor ou ironia, são reflexões sentidas que enriquecem a narrativa.

Aliás na leitura deste livro a forma despreocupada como o Conde encara a vida, desde os touros que lhe vão partindo costelas e deixando cicatrizes, até à destruição da sala para assustar um cunhado medroso e pretensioso ou a decisão de ir para a guerra, deixa-nos uma visão da fidalguia desafogada, impensada, cabendo a cada um encontrar hoje, na plebe, exemplos encapotados sobre o gosto da adrenalina.

Por tudo isto O Homem Manso é um livro que pode ser lido de várias formas, pode ser lido para reter hábitos, costumes que não podem ser esquecidos, pode ser lido para percebermos até onde o religioso infundia medo e marcava a vida das pessoas. Mas em terras africanas o homem destemido e manso descobre outra religião e juntamente com o Imam de uma mesquita descobrem a tolerância das religiões e um Deus que não é de todos e não é de ninguém. Pode ser lido porque há sempre uma Dona Mariazinha que foge aos terrores culturais, educacionais e aprende o que a vida tem para dar. Mulher de muita sabedoria, mas que mesmo naquele início de século já sabia ser mulher.

Estou seguro de que os leitores vão passar momentos muito agradáveis de leitura e vão chegar ao fim do livro com vontade de conhecer o próximo.

 

Helder Trindade (Médico e Escritor)

 

 

 

 

14.03.2019