Contra o hífen ou nem por isso!

Muros. Vedações. Grades. Contra tantas formas de desunir se protesta hoje, mas nem uma alminha se insurge contra o hífen. Sim, o hífen. Entre os sinais de pontuação, nenhum conspira como ele. Nas palavras compostas, separa substantivo de substantivo, substantivo de adjetivo, adjetivo de adjetivo, numeral de substantivo, verbo de substantivo, verbos ou substantivos repetidos. Não contente, dedica-se o dito-cujo (até aqui já ele se intrometeu) a isolar pronomes átonos, seja antes, depois ou entre os verbos como quem separa progenitores e crias.

Confio mais no discernimento das crianças em relação ao projeto do hífen para a humanidade do que no cinismo dos linguistas. Confrontados com os referidos pronomes átonos, os mais pequenos formulam a pergunta certa: escreve-se junto ou separado? Onde os especialistas da língua propõem uma ponte, uma criança reconhecerá o mais fundo abismo entre as palavras, aberto por ele mesmo: sim, se se escreve separado, leva hífen.  

Urge, portanto, resistir às investidas do hífen. O pequeno portista já o começou a fazer. Há dias, apanhou o seu educador meio sonolento, já para lá do tempo regulamentar, com uma mensagem de texto, a partir do telemóvel da mãe. “Sou o Pedro. Amote” escreveu ele. Enterneceu-me com as respectivas intenções. O sentimento assim escrito, sem contracções ou dúvidas, nunca me terá parecido tão distinto, sincero ou apertadinho. Lembrei-me logo da história relatada por António Mega Ferreira, no seu guia de Itália, sobre uma criança que, com a ajuda de uma professora visionária, inventou uma nova forma de descrever uma flor: petalosa, com muitas pétalas. Os sábios da academia da língua italiana vergaram-se, maravilhados, e incluíram-na no léxico. A mensagem do pequeno portista e a história transalpina despertaram-me, deram-me esperanças. Iniciar um movimento. Sim, um movimento, contra todas as formas de divisão. Sejam muros, vedações e, sobretudo, hífens. Começaria pela professora do rapaz, faria dela nossa aliada. Em breve, os doutos sábios da língua portuguesa também se revoltariam com as injustiças perpetradas pelo hífen. Sonhava assim, cábula do menino italiano, é bem verdade, embora movido por essa ambição de uma união completa e universal dos povos e da língua, quando volto à mensagem. Na continuação do sentimento, encontro as perguntas a necessitarem de respostas urgentes:

- Quando é que o Porto joga? E não é com o Tondela?

Reconsidero: pensando bem, há coisas que se devem manter separadas, seja por hífens ou caixas de segurança. Ou até pela linha divisória. Caramba, não será coincidência o meio-campo ser uma linha e, para que não restem dúvidas, ele próprio se escrever com hífen, pois não?


Francisco Simões é autor de Portismo à maneira curta.
22.03.2019