Maria João e a raposa

Entre as naves de pedra da aldeia do Marvão e Monsanto, existe um paraíso a oriente de Castelo Branco – Belgais. O dia era azul, manhã clara de abril, águias planando, searas sussurrando, sobreiros chamejando, e uma entrada de bétulas para a casa de artes que reabriu em dezembro de 2018. Estacionamos debaixo do sobreiro que dava para um campo de oliveiras. Entramos à vontade, como se fosse a nossa casa de infância. Deram-nos uma chave de ferro forjado e o programa da tarde. Maria João ensaiava ao longo do Danúbio, no belíssimo salão habitado por um piano de meia cauda. Maria João tocava uma sonata de Beethoven, opus 31. Saboreamos aquele momento, sem tecer uma única palavra. Sentamo-nos no banco de jardim virado para um pequeno lago povoado por rãs e peixes coloridos; ânforas e laranjeiras enfeitavam aquele retângulo coberto de nenúfares. Encostei a cabeça à parede, naveguei à bolina dos andamentos da sonata. Mesmo sem vê-la, senti que estava diante da Maria João Pires que sempre escutei. Para sempre. Depois do ensaio, cumprimentou-nos com um sorriso, um gesto cortês, um olhar amigo. Levantámo-nos, preparamos a fuga no corrupio dos preparativos para o concerto. Maria João comentava com alguém: «fiz tudo o que era possível».

Tirei um laranja do pátio, acomodámo-nos numa das casas de pedra que ficam mais a sul. São casas baixas, limpas, com portas e caixilhos de madeira, ladrilhadas com tijoleira e flores aromáticas. O nosso quarto tinha o nome da capital da Turquia. Uma tapeçaria árabe na cabeceira da cama, uma mesa com dois copos e um vaso de água, um espelho vintage que nos mostrou uma novíssima calma. Deitamo-nos e esperamos pela hora marcada, rumo à Hungria.

O salão encheu rapidamente, algum jet set no castelo da proa, uma turbulência de cadeiras e velas acesas no burburinho da entrada para o ante concerto. Sentámo-nos na quarta fila, com vista para o rosto e para o teclado. Gábor Csalog, venerável ermita apaixonado, tocou peças de Kurtág e Béla Bartók; Milos Popovic, homem novo, simpático, tocou uma sonata de Liszt, em Si menor, S.178; Maria João tocou a sonata esperada; também tocou La Lugubre Gondola de Liszt. A quatro mãos, com Gábor, Maria João tocou uma transcrição de Bach Kurták. Nos intervalos, Luís Caetano leu textos e renúncias literárias, acompanhado pelas rápidas passagens do alvo Berto, cão que vigiava cadeiras viradas para o Yamaha.

No final, Maria João, Gábor, Popovic e Caetano, juntaram-se numa mesa redonda para assinar e conversar com os melómanos. Esperei pela minha vez. Entreguei O Quarto da Mãe com dedicatória, agradecendo todas as sonatas, prelúdios e concertos que lhe escutei durante décadas. Senti-me tonto e ingénuo. Só ela poderia ter escrito aquele livro, só ela merecia ter dito o que eu não consegui dizer. Ela sorriu, como sorriem as mães, mesmo não sendo seu filho, dizendo-me que ia lê-lo, rapidamente, porque sentiu que eu quis escrever a história que ela viveu e nunca será escrita. «Amanhã, ao pequeno-almoço, entre as 8 e as 10, posso conversar consigo», disse Maria João.

Na manhã seguinte, ali estava Maria João, depois de ter alimentado uma raposa. Estava linda. Viva. Atenta. «Dormiram bem?», «querem ovos?», «querem alguma coisa especial?». Não soube dizer nada. Agradeci como gemem os ingratos e os insensatos. E, naquele instante, soube que todos os prelúdios, noturnos e sonatas que ela estuda e toca com talento, tão genuínos e sem consciência de si, são de uma mãe que sempre escutei. Da mãe que conheci em Belgais, um dia, oito águias planando sobre mim, na sua despedida. Obrigado, Maria João Pires, por teres regressado ao quarto onde dormias.

Sérgio Mendes, 2 de maio de 2019.

03.05.2019