A emancipação do sujeito passa pela narração das suas próprias histórias
No fim da apresentação ao público da coletânea onde está publicado o meu conto “Céu de Carvão, Mar de Aço”, o meu irmão Paulo aproximou-se e disse-me à parte que tinha ficado contente por eu ter falado da minha experiência de afrodescendente no nosso bairro, o Bairro da Serafina. Surpreendida, perguntei-lhe porquê? Porque não falaria? E ele respondeu-me “não sei, podias ter vergonha disso.” 

Ora, não somente não tenho vergonha como falo desse pormenor biográfico de forma deliberada. Pode parecer um detalhe, mas tem toda a importância na minha maneira de ver a arte comprometida. 

A emancipação do sujeito passa pela narração das suas próprias histórias, não deixando somente a outros o des(cuidado) de as narrar no seu lugar, passa por sermos capazes de nos apropriar da ficção para contar a realidade vivida e sonhada e transformar o íntimo em universal. 

Na literatura ou na arte em geral no nosso país, os afrodescendentes e os bairros urbanos pobres são pouco e mal retratados, muitas vezes por pessoas que nunca aí viveram e têm uma imagem estereotipada. Mesmo nos momentos mais difíceis, na maior miséria, existem momentos de humor e poesia. 

Precisamos de nos sentir representados no conteúdo da escrita e na pessoa que a produz. Dar esperança, mostrar que é possível, derrubar preconceitos…. É por isso, também, que escrevo e que me defino com orgulho como filha do Bairro da Serafina.

 
É num destes bairros que mora o personagem principal de “O canto da Moreia”, Eugénio, um negro nascido em Cabo Verde. Um bairro maioritariamente branco como era a Serafina quando aí cresci. O racismo era omnipresente a par com a entreajuda e o sentido de família alargada. Nós, afrodescendentes, navegávamos sempre entre a intolerância e o amor. O Eugénio desde a sua chegada a Lisboa foi obrigado a viver de forma constante neste contexto ambivalente. 
No bairro, para além do racismo, existe violência doméstica, alcoolismo, e toxicodependência destruidor de famílias e responsável por mortes prematuras “matadas e morridas”. Neste livro não existe uma visão miserabilista do bairro, nada é ocultado, mas quis mostrar também a energia, o bom-humor que emana de um território circunscrito onde todas e todos se conhecem.
 
Há a história coletiva, mas também a individual e os locais onde ela se desenrola, que vão para além do bairro, são um pretexto para contar a caminhada solitária de Eugénio, com a qual nos podemos todas e todos identificar, pois é essa a magia da ficção. Como nos integramos nos locais onde vivemos? Como amamos? Como trabalhamos? Como lidamos com a culpa e os remorsos? E no final o que fica? Quem fomos nós neste mundo? 

Luísa Semedo é a autora de O canto da Moreia.


27.09.2019