A raiz da invenção
Infância, casa, jardim, floresta, mar, luar, menina, Natal, menino, aurora, sonho, poema, verso, quarto, renascimento. 
Foram histórias, foram versos, foram as leituras de Sophia que me adormeceram na cama. Foi o pássaro que meu pai libertou no quarto, foi a fada Oriana no meu sexto aniversário, foram a menina do mar e o menino de bronze, foi a visita de Sophia à montanha de Guimarães, foi o sonho onde ela me pediu para escrever para crianças. Era uma cidade de velhos, sem crianças, e ela chamou-me para dentro da sua morada. No ano seguinte, escrevi “Margarida e o lobo” e “Orlando, o caracol apaixonado”.
 
Foi com Sophia e Pessoa que aprendi a escrever para crianças. Foi com a poesia de ambos que lancei as redes deste projeto de vida, desejando escrever setenta contos para todos os meninos. Foi lendo Sophia que apreendi a luz de Orfeu e o estranho caminho de Delfos. Foi através de Sophia que procurei Empédocles, Eurípedes, Parménides e Sófocles. Foi com Sophia que aprendi na escola helénica.

Há também uma outra Sophia, sizígia de Jesus. Orvalho da luz, Mãe caída do Pleroma, criadora do Universo. Sempre fui fascinado pelos elementos gnósticos, pelo cristianismo místico e esotérico, pelo platonismo e essa vontade de refundação do paraíso. Pode ser coincidência, mas sempre gostei de ler literatura apócrifa, ideias descontinuadas e cobertas pelo tempo, pensamentos e mundos perdidos abandonados por falta de utilidade. 

Com Agostinho da Silva aprendi a valorizar o pensamento dos antigos, a invenção dos mundos, a sabedoria da Criança que há em todos nós. Com Sophia aprendi a valorizar a liberdade e função estruturante do escritor e da cultura para todos. Deixei de escrever para mim, para as panelinhas e malocas literárias. Comecei a escrever para os mais jovens, sem simplismos, sem infantilização, mas com a maior profundidade e simplicidade possível.

Depois há alegria. Há a procura do sorriso e da graça das coisas simples e admiráveis. Gosto de ouvir as crianças sorrir, gosto de vê-las contentes quando faço apresentações dos meus livros. Tenho sempre a preocupação de incluir um apontamento engraçado, que desanuvie e entrelace a narrativa com aquilo que a criança escuta ou lê, num círculo de humanidade literária.

Todos os pais e mães gostam de contar histórias, inventadas ou não, a pedido dos seus filhos. E eu não sou diferente deles. Sou filho de um povo que gosta de contar histórias. História de mundos incríveis, de travessias impossíveis, de aventuras maravilhosas e encantamentos da realidade. E por isso dei o nome Sofia à minha filha mais nova, uma menina especial tal como a mais velha, Margarida. E por isso escrevi “Margarida e o lobo” e “Sofia no Mundo das Coisas Perdidas”.
 
No sonho de Sophia, havia um velho acamado que me deu a mão. Estive com ele durante alguns minutos, não falamos. Ao escrever estes e outros contos, disse o que um dia não vou conseguir dizer. É uma maneira de estar perto delas, perto das crianças. E Sophia é a raiz dessa invenção. 

Sérgio Mendes.
Maia, 15 de outubro de 2019. Sérgio Mendes é autor de Sofia no mundo das coisas perdidas, Margarida e o lobo e O quarto da mãe.
18.10.2019