Paulo Costa de regresso ao «Discurso Direto»

Depois de uma boa atuação, há sempre o encore. Pedimos a Paulo Costa para regressar ao nosso Discurso Direto para falar sobre O último encore, a sua obra de estreia

Ao longo da obra há uma mensagem de alerta sobre o consumo de drogas. Foi uma preocupação tua desde o início?

É um lugar-comum falar-se de música e falar-se de droga e álcool Foi uma preocupação denunciar a maneira como se encara a droga, ou como se vai encarando nos dias que correm. Até porque a mensagem geral que se passa é que a droga é fixe. Há um conjunto de filmes, séries e videoclipes que nos passam uma mensagem de que a droga até é uma coisa boa. Não mostram as ressacas, a degradação e a destruição que esta provoca. O alerta lançado é de que temos de, nos dias de hoje, trabalhar e investir muito mais na prevenção e combate à toxicodependência. Deram-se passos muito importantes em termos de legislação em Portugal, com resultados concretos. O Michael Moore até veio agora pegar no exemplo português como algo que se podia levar para os EUA. Tivesse ele feito uma investigação à Sicko e teria visto que nem tudo é perfeito. Temos recuado, na minha opinião, no que de bom se fazia nesta área, nomeadamente nos meios que existem hoje para o combate e prevenção da toxicodependência, fruto de uma visão economicista que os nossos últimos governantes, que estão bem identificados, têm tido da Saúde. Sim, porque quando se fala de um toxicodependente, não se fala de um criminoso, fala-se de uma pessoa que está doente e que precisa de ajuda e acompanhamento. Precisamos de aproveitar o que de bom se fez nesta área no início do século XXI e aprofundar essas políticas. Agora uma coisa para mim é certa, só se combate eficazmente a toxicodependência se as pessoas tiverem acesso a um conjunto de direitos: direito ao trabalho com direitos, direito à cultura para todos, direito ao desporto, à habitação, à educação… Isto pode parecer deslocado, mas está tudo interligado. Se formos felizes no mundo em que vivemos não nos precisamos de refugiar e alienar desse mesmo mundo.

Todas as referências que fazes a bandas e músicas ao longo da obra foi com a intenção de as dar a conhecer aos leitores, oferecendo-lhes uma playlist dentro de um livro?

Acho que muitas das bandas que são faladas no livro são conhecidas. Pode haver um caso ou outro que o leitor se pode questionar: Quem são estes gajos? Mas acho que essas situações são reduzidas. Posso estar enganado. E se ajudar o leitor a conhecer novas bandas, fico feliz. Se os leitores também me derem a conhecer novas bandas, também agradeço. Todas as bandas têm referências, todos os músicos vão falando daquilo que os inspira, ninguém parte do zero, acho. Fui tentando falar disso ao longo do livro. Das referências. Posso deixar o conselho, a quem quiser tomá-lo, de ir ouvindo as bandas referidas à medida que vai lendo. É um exercício engraçado.

Que prevês para as próximas aventuras literárias? Vais continuar a explorar o tema da música e a literatura de transição?

Dificilmente voltarei ao tema da música. O que prevejo para as minhas próximas aventuras literárias, se tiver tempo para as concretizar, é que vão estar cheias de insatisfação mas também de confiança. Partirei do desassossego que me provoca o mundo para desassossegar quem lê. Os leitores não se querem resignados nem apáticos, deitados no sofá ou na cama ou noutro sítio qualquer de livro aberto. Querem-se críticos e participativos na vida. E se eu puder ajudar a dar um contributo para isso no presente e no futuro, fico contente.

Paulo Costa é o autor de O último encore.

19.02.2016