Fernando P. Fernandes em discurso direto


A Coolbooks saiu do escritório e rumou até à tasquinha, à procura de Onório, o poeta bêbado. O nosso esforço para o encontrar foi infrutífero, mas conseguimos falar com Fernando P. Fernandes. Como nasceu o Onório?

O Onório nasceu, como muitas das coisas giras da vida, do acaso. Não foi planeado nem pensado para ser o Onório. Tenho raízes minhotas. Aliás, toda a minha família é de Vila Nova de Cerveira e Paredes de Coura. Sempre achei muita graça às expressões típicas da região e, acima de tudo, aos tipos tão característicos. Um dia resolvi criar este figurão. A ideia de ser um simples homem do campo surgiu de um impulso: homenagear algo característico de uma região tão importante para mim. Nasceu, então, um poeta tosco e rude, mas com um olhar mordaz e com a pena sempre bem afiada, que escrevia umas quadras satíricas e publicava, na Internet. As temáticas eram variadas: futebol, política, atualidade… Sempre numa perspetiva meramente satírica. Foi então que me ocorreu transpor esta personagem que já existia, que já tinha “vida”, e até alguns seguidores fiéis, para narrativa. Dar a conhecer a sua história de vida, as suas origens, as suas peripécias. Achei que uma personagem tão peculiar tinha de ter um arranque peculiar. E dei-lho. O que pode ser mais peculiar do que ser filho de um casamento que só aconteceu porque o noivo arrematou a noiva num leilão no intervalo do baile de uma romaria? 

Se o Onório vivesse nos tempos de hoje – o tempo das tecnologias, dos smartphones e da World Wide Web –, que diria ele?

Criaria certamente uma conta numa rede social, para divulgar os seus poemas… Os ecrãs táteis, porém, seriam um problema. É que à tarde, depois de passar pela tasca do Semedo, a sensibilidade dos dedos viria, amiúde, comprometida.

Sabemos que Onório ficou deslumbrado com Pessoa, Camões e Bocage. Que autores contemporâneos leria o nosso poeta “bêbado”?

O Onório é tão eclético e livre de “peias” que leria qualquer autor, contemporâneo ou não, que o fizesse rir e que o deslumbrasse. Por outro lado, creio que seria bem capaz de ter à mesa de cabeceira um livro de autoajuda e umas palavras-cruzadas para entreter – é que as peripécias em que se vê envolvido exigem muito do pobre desgraçado.

O Fernando é professor de Português. Partilha com os seus alunos os poemas que escreve? Como reagem eles?

Embora não o faça voluntariamente, por vezes os poemas do Onório – e o próprio Onório – vêm à baila. Tento “separar as águas” no contexto de aula. Mas não posso negar: é sempre gratificante ouvir pessoas com quem convivo numa outra “atmosfera” divertirem-se com esta personagem castiça.

Se Onório representasse um ditado popular, qual seria?

Haveria vários, eventualmente. Mas creio que o mais adequado – por se tratar de um homem tão peculiar – seria este “desenrascado” criar um ditado próprio. Algo do género: “Quem não tem binho bebe bagaço” ou “Home casado de binho nobo tem medo”…

Saiba mais sobre Onório, o poeta bêbado aqui.

05.04.2016