Crónicas de Shaolin





Enquanto aterramos em Pequim reparo que o céu tem apenas uma pequena linha que borra o azul ao amanhecer. Em Portugal ainda são 22:30, mas aqui são 6:30 da manhã. Espreito pela janela, ainda a ouvir a música dos auscultadores do avião, que agora está a passar Passing Planes de Newton Faulkner, e uma sensação de felicidade e relaxamento toma conta do meu corpo. Só tenho vontade de abrir os braços e sorrir. É a primeira vez que me sinto relaxada enquanto aterro para mudar de país, ainda por cima para um país que me mudei com o único propósito de estudar Kung-Fu.

Não consigo decidir muito bem qual foi o momento em que me apaixonei pelas artes marciais. Só me lembro de ver, desde pequena, filmes como os Power Rangers, Karate Kid e Os Três Ninjas. Observava e revia esses filmes com um misto de curiosidade e excitação. Para eles parecia tão fácil e eu desejava poder fazer o mesmo.

A minha mãe, que também sempre gostou de desportos que envolvem defesa pessoal, inscreveu-nos muito cedo no Goju-Ryu Karate-Do, mas a paixão desmoronou rapidamente quando a minha mente infantil descobriu que as coisas não eram tão fáceis como nos filmes e acabei por desistir.

Mas eu continuava a adorar lutar. Aproveitava todas as oportunidades que tinha para me envolver em pequenas guerrilhas com os meus irmãos, e até mesmo na escola tinha o meu pequeno grupo de amigos com quem lutava contra as paredes enquanto fingíamos ser os Power Rangers – eu era sempre a ranger rosa.

Decidi então voltar às aulas de karaté e, desta vez, havia encontrado a minha motivação. Algo que pouca diferença fez, pois pouco tempo depois nós mudamo-nos para uma aldeia onde não havia transportes, com uma empregada que não sabia conduzir e não nos podia levar às aulas.

A paixão continuou sempre lá: aquele desejo de saber defender-me sozinha, não inteiramente de saber atacar, mas saber que teria uma vantagem se alguma vez me visse perante uma situação onde as palavras não chegam. O mundo, infelizmente, é perigoso.

Ao longo dos anos continuei a praticar outros tipos de desportos de defesa pessoal. Desde Kosho-Ryu Kenpo durante um ano – antes de mudar de país –, a boxfit no ginásio da universidade em Londres e até mesmo uns dias de capoeira – antes de mais uma vez me ser impossível continuar a praticar devido ao excesso de trabalho e de ter de me mudar mais uma vez.

Até que tomei a decisão: tirar um ano inteiro para aprender artes marciais. Mas não só aprender como quem vai para o trabalho e depois tem uma hora de aula no final do dia para desanuviar. Aulas numa verdadeira academia de artes marciais. Onde? Porque não na China? Talvez até aprenda Mandarim!

E foi assim que decidi inscrever-me na Kunyu Mountain Shaolin Martial Arts Academy e comprar um bilhete de avião.

13.07.2016