Shaolin ou Wengchun?



Luzes, trânsito, poluição e arranha-céus. São essas as primeiras impressões que tenho de Pequim. A capital da China pode parecer-se em muitos pontos como qualquer outra metrópole ou qualquer cidade ocidental, mas depois existem as pequenas coisas que te lembram o quão longe realmente estás de casa. E aquele pensamento que te passava pela cabeça cada vez que alguém te perguntava acerca do choque cultural – aquele que dizia, eu já vi uma Chinatown em todos países que visitei. Será assim tão diferente? – de repente parece inocente e ingénuo.

Aqui as pessoas não falam tão bem inglês como os sites de viagem e turismo fazem crer, e tentar comunicar com os taxistas para onde desejas ir ou explicar na bilheteira de comboio que bilhete queres, rapidamente se torna numa luta exaustiva. As ruas cheiram mal e os mendigos não são bem como os da Europa, são pessoas com deficiências e doenças e tu sabes que vivem num país onde o governo pouco se preocupa. A população é imensa e as ruas estão povoadas de turbas que poucas maneiras têm no que toca a empurrar, pedir licença ou desculpa. E depois existem os olhares, aqueles que se apercebem que não és dali e te olham com uma curiosidade extrema, sem se preocuparem em desviar os olhos quando são apanhados. Alguns mais atrevidos até pedem fotografias, com um sorriso deliciado que te torna incapaz de recusar.

Depois de uma caminhada pela Muralha da China, um passeio pelos monumentos de Pequim e até mesmo um jantar com um velho amigo de Londres, chega o dia de me mudar para a academia. O comboio demora cinco horas a atravessar a China rural – nada que se compare às habituais 20 e tais horas passadas a viajar de um lado para o outro nos autocarros sul-americanos –, e à chegada tenho um dos tradutores à minha espera com um cartaz onde está escrito o meu nome. Uf! A parte assustadora já passou, penso.

Quando chego à academia, sou dominada pela sensação de estar na pele da minha personagem principal quando a obriguei a apresentar-se a uma torrente de gente. Escrever algo semelhante sobre a sensação de ter cerca de 60 alunos a olhar para ti como se fosses a nova atração do circo é uma coisa, estar à frente deles e ser obrigada a dizer o teu nome é outra. Ao menos aqui eles estão habituados a pessoas novas, existe uma a chegar quase todos os dias e rapidamente deixas de ser a “novata”. De facto, desde que aqui estou acho que já devem ter chegado mais de dez!

Agora só tens de te preocupar em decorar todos os nomes e evitar que as tuas habilidades sociais te deixem ficar mal.Vá lá! É um sítio novo. É a oportunidade ideal para deixares de ser a rapariga tímida que evita contacto social. Uma tarefa que acaba por ser mais fácil do que pensava. A maior parte dos alunos estão habituados a pessoas novas, por isso apresentam-se e oferecem a sua disponibilidade para me ajudarem, o que me faz sentir mais confortável. Mas também eu passo a ser o tipo de pessoa que não espera que alguém se apresente e passo imediatamente para a fase em que quando oiço uma conversa, coloco-me no meio como se já fôssemos amigos de longa data. Praticamente todas as minhas interações acabavam com “Desculpa, estamos a falar há tanto tempo e ainda não sei o teu nome. Como te chamas?”

Na primeira semana trato de ultrapassar as barreiras sociais, mas depois disso falta a decisão mais importante: ser Shaolin ou Wengchun.

Os grupos na academia estão divididos em três; dois de Shaolin e um de Wengchun. E a primeira pergunta que me fizeram ao entrar na carrinha foi qual o tipo de Kung Fu que gostaria de praticar. “Não sei bem a diferença entre eles,” respondo, apesar de não ser bem a verdade completa. A verdade seria: “tinha quase a certeza que tinha feito uma pesquisa mais extensiva do que seria habitualmente considerado para mim, mas não me lembro de ver em parte alguma do website que tinha a opção de escolha.” Ao que parece não sou a única que enfrenta esta dúvida, mas existe alguns que têm a certeza e que já sabem para o que vêm.

Os que não sabem são colocados num dos grupos de Shaolin e mais tarde, ou continuam no mesmo grupo ou terão de fazer a sua escolha. E é o que acontece comigo.

Shaolin é mais acrobático e utiliza mais a força exterior. Os de Wengchun (que jurarão a pés juntos que este tipo de arte marcial é melhor que Shaolin) dizem que Shaolin é bonito de se ver, mas sem muita prática.

Wengchun é mais técnico e focado em bloqueios defensivos, utilizando a força interior e a energia do adversário. Dizem os de Shaolin (que jurarão a pés juntos que Shaolin é que é!) que é muito parado no mesmo sítio.

Quanto mais pergunto, mais confusa fico, e o que deveria ser uma resposta dada à chegada, demora uma semana a ser processada. Por um lado, gosto do grupo em que fui colocada em Shaolin, pois são pessoas acessíveis que me apoiaram em tudo o que era desconhecido no início, enquanto os outros parecem ser mais fechados. Por outro, há que considerar a técnica: Wengchun ensina-te a lutar de verdade e enquanto precisarias de dois ou três anos para usar Shaolin numa luta real, em Wengchun é só preciso um ano, ano e meio… Mas Shaolin tem armas! Queixa-se o meu cérebro. Sê racional, Patrícia, achas que alguma vez vais usar uma espada numa luta?

A decisão torna-se mais clara com o passar do tempo e, sem me aperceber, chega a uma altura em que, apesar de ainda fazer parte do grupo Shaolin, grande parte dos meus amigos estão no grupo de Wengchun e insistem em perguntar-me quando irei mudar para o grupo deles. Fica então Wengchun.

19.07.2016