A rotina em Kunyu Shan





Entrar na rotina não é uma coisa fácil. Acordar às 5:40 da manhã parece uma brincadeira no primeiro dia quando o nosso corpo está fresco e revitalizado, mas ao segundo dia, depois de seis horas de treino e quando o corpo me dói até mesmo em músculos desconhecidos, quando os ligamentos parecem prestes a rebentar a qualquer minuto, já não acordo tão enérgica. Ao terceiro dia, ao levantar-me, os meus braços cedem sob o peso do resto do corpo e exigem mais uma hora de sono.A primeira aula nem sequer é obrigatória! Queixo-me. Aí está, o primeiro ato de sabotagem do meu cérebro.

A verdade é que estão cerca de cinco a seis graus negativos lá fora e eu sei que não há hipótese alguma de a temperatura subir muito mais. E eles dizem que a temperatura está a melhorar. Há duas semanas tinha chegado aos dezassete graus negativos.

O primeiro momento do treino da manhã é uma pequena corrida no exterior. Isto é, se se pode chamar aquecimento quando o frio entra pelas narinas, queima as fossas nasais e o oxigénio desce com dificuldade até aos pulmões.

Para mim é ainda pior porque sempre odiei correr. De todos os desportos que fiz que envolviam corrida durante uns minutos, esses minutos eram os piores da minha vida. Se prometer a mim mesma correr dez minutos, o meu cérebro arranja maneira de me convencer que cinco minutos são exatamente iguais. Se me esforçar o suficiente talvez até seja capaz de arranjar uma fórmula matemática que diga que são equivalentes. Mentira, não consigo! Sou daquelas pessoas que nem para apanhar o autocarro é capaz de correr e se a minha vida estivesse em jogo, provavelmente morreria.

Aqui temos de correr duas vezes por dia, todos os dias! Podem imaginar o meu horror!

Bem, à sexta-feira, em vez da corrida da tarde, temos a Mountain Run, mas eu prefiro chamar-lhe Mountain Walk, porque não há cenário algum em que eu me veja a correr por colinas (que fariam inveja às de Lisboa) sem ver sinais de perigo com o alerta “subida acentuada”.

Já para não falar das escadas, aquelas escadas que a minha tia me avisou e me fazem pensar: porque é que eu me meti nisto?

Todos são obrigados a participar na Mountain Run/Walk (com exceção das pessoas lesionadas). E esta começa com uma caminhada em estrada plana, durante 10 minutos, e que rapidamente se começa a elevar à medida que chegamos a uma das pequenas montanhas de Kunyu Shan, o parque natural da zona. Depois da subida que te deixa a arfar e a implorar por água, chegamos a um pequeno templo com umas quantas escadas, mas essa são as menos preocupantes. O pior ainda está para vir: os degraus acentuados, cerca de trezentos e tais, que temos de subir e descer pelo menos quatro vezes (apesar de a recomendação do sifu – ou mestre – ter sido seis).

A maneira mais fácil que eu vejo de ultrapassar este treino, um treino que te deixa com vontade de desistir quando ainda nem chegaste aos cem degraus, mas que tem a habilidade impressionante de te fazer esquecer o quão insuportável era assim que começas a descer, é conhecendo mais pessoas. Acho que nunca falei com tanta gente na academia como na minha primeira Mountain Walk. Foi também nesse dia que conheci o meu agora colega de Wengchun que insiste em ser chamado de Sebastian Howl para o propósito deste relato, e fui introduzida ao que é, neste momento, o meu grupo de amigos mais constante, todos eles Wengchun.

No final do dia, estou tão estoirada que quaisquer insónias ou problemas em adormecer se tornam inexistentes, e às 20:30 os meus olhos já não se conseguem manter abertos.

19.07.2016