Caos sob controlo: Crónicas de Shaolin





O nosso pequeno grupo senta-se à mesa do pequeno-almoço. Os olhos entreabertos e saudando-nos uns aos outros com algumas palavras de bom dia. Observo a linha amarela de mel a ser vertido sobre a aveia branca e esmago as nozes açucaradas por cima. Ao meu lado, um dos colegas mistura o pão doce, outra coloca dois quadrados de chocolate negro no meio do pão e o outro corta a banana por cima da papa. É sábado e temos mais tempo e paciência para preparar a nossa refeição, algo que diferencia este dia de todos os outros em que comemos o leite de soja à base de pó, ovos cozidos, arroz e pão. Ninguém se importa porque é sábado e sabemos que, dentro de uma hora, estaremos a caminho de Muping.

“Estamos todos?”, pergunta um dos meus companheiros.

“Não, acho que ainda falta o Sebastian e o Emrys”, responde outro. “Vocês vão à frente que nós ficamos aqui à espera deles.”

Kunyu Shan é uma pequena aldeia rural rodeada de montanhas, com apenas um pequeno supermercado, uma loja de conveniência na rua mais abaixo e um restaurante a pouco menos de dez minutos de distância. Fontes de divertimento são escassas para jovens adultos com idades compreendidas entre os 20 e os 30 e é por isso que, quando o fim de semana chega, todos vêm uma oportunidade de fugir para um sítio diferente, quer seja para Muping, a vila onde se come, ou Yantai, a cidade onde se festeja. As conversas de sexta-feira começam com “Vais lutar hoje? Com quem é que vais lutar?” e acabam com “Vais a Yantai hoje? Vais a Muping amanhã?”

Ainda não conheço nenhum dos locais, por isso ignoro a multidão que descreve as suas loucuras em Yantai durante a Mountain Walk/Run, e que apressam o seu jantar para apanharem o táxi que a escola lhes reservou, mas junto-me à pequena comitiva que parte para Muping no sábado de manhã.

No autocarro sento-me ao lado de um americano cujo nome desconhecia na altura. É um rapaz loiro, com o rosto cheio de piercings e com metade do braço tatuado de caveiras, quando ele retira a carteira reparo no símbolo que representa a anarquia no padrão. Só me lembro de o ver uma vez, no dia anterior, quando o vi lutar e reparei que a sua técnica em muito se assemelhava à de um street fighter. Seria o tipo de pessoa que caso me cruzasse com ele à noite, sozinha, me faria mudar de rua, mas não aqui… Aqui aprecio os diferentes visuais e origens. Aqui somos todos iguais e todos gostamos de lutar. Aqui sento-me ao lado dele e descubro que gosta de motocross, carros tuning e ainda fico a saber o seu nome na meia hora em que nos sentamos juntos em direção ao centro.

Como a maior parte dos alunos escolhe sempre a mesma hora, não é incomum o miniautocarro ficar demasiado cheio. O problema é que é supostamente ilegal ter mais pessoas que assentos no autocarro. Mas isso não preocupa a senhora encarregue da organização do autocarro e dos bilhetes e, por entre os assentos e os compartimentos de cima, ela retira bancos minúsculos e obriga-nos a sentar no corredor, as nossas pernas a pressionar as costas dos da frente. Cada vez que um dos carros que passa se assemelha ao da polícia, ela puxa os mais altos pelo pescoço e obriga-os a encolher as cabeças para não serem avistados. “Meu, adoro a Ásia”, diz um dos meus amigos. “Caos sob controlo” é o que ele chama a este tipo de organização.

25.08.2016