Marta Neves em discurso direto


A propósito da edição de De repente, não mais em formato físico, quisemos saber mais sobre esta obra. Para tal, recorremos à ajuda da autora, Marta Neves.

Marta, Diogo e Alexandre são três amigos com uma amizade de cumplicidade e complexidade. Criar este trio exigiu muito de ti?

Na verdade, a história enveredou por um caminho inesperável para mim. Quando comecei a escrevê-la, esperava um fim completamente diferente, isto porque eu escrevo ao sabor da pena. Normalmente planeio apenas três capítulos de cada vez. Antes de me dedicar à história dedico muito tempo a criar a personalidade das minhas personagens e são elas que me guiam. Elas ganham uma personalidade para além de mim e contam-me a sua história. Quando a história começou a enegrecer, assustei-me com o que tinha dentro de mim – como é que eu era capaz de ter dado vida a estas personagens tão imorais? Quando escrevo, as histórias engolem-me e é uma descoberta sobre mim mesma, sobre como vejo o Mundo e o que posso criar. Escrevi o livro numa fase negra da minha vida e ainda me pergunto se eu escrevi uma história negra porque era o que sentia ou se eu própria fiquei assustada com a história que eu criava e a Marta, o Diogo e o Alexandre me estavam a ensinar que a vida é amarga e doce ao mesmo tempo. É uma história sobre três amigos que se tornam adultos e escrevi-a enquanto eu própria atingia a maturidade. A história era negra e eu tinha uma necessidade absurda de a escrever rápido. Quando a acabei senti um alívio, mas ao mesmo tempo senti que havia alguma magia, poesia e beleza quando a acabei e ao relê-la vi doçura em sítios onde apenas tinha vislumbrado amargura.

O mundo de cristal dos três amigos é quebrado quando Alexandre aparece morto e Tomé é chamado para resolver o caso, acabando por dar ao romance nuances de crime noir. Como foi explorar este estilo?
Foi um desafio. Quando escrevi o meu primeiro livro era muito nova e senti que não tinha um estilo próprio – que cada capítulo adotava os recursos estilísticos do autor que lia em cada momento. Por isso passava de descrições minuciosas, para ações rápidas ou passagens poéticas. Por isso, desafiei-me a mim mesma a escrever um livro de cada categoria para decidir qual era a minha vocação. Este livro ia rondar à volta da investigação de Tomé – mas, de repente, ele tornou-se numa personagem de segundo plano e o livro tornou-se num misto entre policial e romance, porque me sinto muito mais confortável nesse género. Por fim, para mim, este livro acabou por ser quase um thriller psicológico, visto que a ação se desenrola muito dentro das cabeças dos personagens. Acho que encontrei o meu estilo pessoal! Explorar o mundo interior, narrativas psicológicas.

De repente, não mais explora conflitos e paixões próprias da adolescência. Costumas ler romances que se enquadram no estilo coming of age ou tens preferência por outros géneros?

Bem, na verdade, leio todo o tipo de géneros. Últimamente leio cerca de quatro livros ao mesmo tempo. Normalmente: um de poesia, um contemporâneo, um clássico e um não-ficção. Leio normalmente em mais de uma língua. Adoro explorar diferentes estilos, sinto que cada livro tem algo para me ensinar. Coming of age: Os filhos da droga é o meu preferido. É também biográfico, mas acaba por ser um manual sobre crescer. Acho que até agora acabei por escrever sempre sobre adolescentes e jovens adultos, porque me sinto incapaz de explorar idades que eu não experienciei – o que sei eu sobre crises de meia-idade, sobre envelhecer? Divórcios ou parentalidade? Escrever é um trabalho de observação, escrevemos aquilo que interpretamos – podemos escolher olhos diferentes, de todas as cores – para interpretar o Mundo que conhecemos. Por isso sinto que escrevo sempre sobre uma idade que conheço e ao amadurecer, também as minhas personagens envelhecem comigo. Espero chegar a um ponto na minha vida em que tenho uma personagem de cada faixa etária para me acompanhar. Todas as minhas personagens ficam comigo, como amigos imaginários que me relembram de quem eu fui.

Que rotina costumas ter quando escreves?

Música. Tenho de escrever com música e sempre com auscultadores – tenho de estar isolada num mundo com música de fundo onde possa sentir que viajo para outras paisagens. Se me esforçar e concentrar, a minha imaginação leva-me mesmo para esses espaços – consigo ouvir o bater das ondas e sentir o aroma da praia. É um esforço muito grande, mas tenho uma imaginação hiperativa e gosto de a explorar. Ah, a música não tem que ser obrigatoriamente a minha preferida, tem apenas de se enquadrar no ritmo do capítulo. Escrevo sempre um capítulo de cada vez, nunca deixo um a meio, porque têm que manter o mesmo ritmo e equilíbrio – daí serem tão curtos por vezes. Não tenho plano ou esquema. Por vezes escrevo metáforas numa folha de papel para o próximo capítulo, mas nem sempre as uso.

«Éramos os donos do tempo, tínhamos os minutos debaixo dos pés e as horas no regaço.». Será correto pensarmos que existe aqui alguma melancolia pelo paraíso perdido?

Esta passagem é a minha preferida em todo o livro. Espelha exatamente aquilo que eu pretendia ilustrar. Como, num momento, tudo muda. Como, quando somos inocentes sentimos que tudo é ad aeternum – quem não sentiu que “ainda faltava tanto tempo para o nosso próximo aniversário”? Quando amadurecemos tudo passa num instante e ganhamos a sabedoria de pôr tudo em prespectiva e tudo é efémero na nossa vida. Por muito que resistamos tudo tem um fim e ainda bem, porque caso contrário, talvez não saberíamos apreciar a viagem – crescer ensina-nos a não dar nada por garantido e a aceitar a incerteza e o inesperado do amanhã. Inesperado, talvez seja a palavra-chave desta obra. De qualquer modo, esta não é a minha reflexão pessoal, não espelha a minha própria melancolia – na verdade, amadurecer para mim é uma experiência fantástica e trago tudo comigo, ainda tenho os meus momentos de infância de vez em quando. Ainda pinto livros de colorir. É a reflexão e melancolia de uma personagem imoral. Num mundo imoral. Num livro que pretende não ter lema, não ter mensagem, não ter lição. Uma amargura-doce.

Saiba mais sobre De repente, não mais aqui.

12.01.2017